Passe pela Biblioteca | “Retalhos da vida de um médico”, de Fernando Namora

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “Retalhos da vida de um médico”, de Fernando Namora, é a sugestão apresentada esta semana por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Comemoram-se, hoje, dia 15 de abril, os cem anos do nascimento de Fernando Namora, nome grande da nossa literatura e do neorrealismo em particular. O neorrealismo foi um movimento que ficou ligado aos ideais da esquerda de inspiração marxista. Os autores das diversas expressões literárias baseavam as suas obras na realidade social das classes mais desfavorecidas, no caso deste livro, dos agricultores raianos e suas famílias.

O objetivo dos neorrealistas era descrever, o mais fielmente possível, a vida quotidiana, com todos os seus dramas e misérias, das classes desfavorecidas e exploradas, segundo os conceitos da visão marxista, alertando para as condições sub-humanas em que muitos viviam. A realidade era revelada “nua e crua”, mas com um sentido ético e humanista. Denunciar e expor para motivar a mudança.

A literatura dá à estampa muitas obras que se assemelham à reportagem, pelo seu carater vincadamente descritivo da vida social.

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Em última análise, responsabiliza-se o regime político pela situação de pobreza e fome da população portuguesa, essencialmente agricultora. Nesta luta entre estado e intelectuais neorrealistas, o Estado Novo usava, como exemplo, a vida da população de Monsanto como uma “imagem empolgante da nossa pobreza honrada e limpa” que “vive contente a rezar, a dançar e a cantar, dando lições de otimismo às cidades fatigadas, pessimistas, compreendendo, como poucos, o ressurgimento português, mais ávido de bens espirituais – a escola, a igreja, a família – do que materiais.” Palavras de António Ferro, no discurso de 4 de fevereiro de 1939, no Teatro Nacional em Lisboa

Aqui entra a importância desta obra, para mostrar que a pobreza não dava, nem podia dar, a tão apregoada felicidade.

Fernando Gonçalves Namora (1919-1989), natural de Condeixa (Coimbra), foi escritor e médico até 1973, ano em que abandona a medicina para se dedicar exclusivamente à escrita. O curso de medicina é completado em Coimbra em 1942, com 23 anos. Exerce, pela primeira vez, na sua terra natal, Condeixa, por pouco tempo, mudando para Tinalhas (Beira Alta), onde permanece em 1943 e 1944, tomando, ainda, em 1944, o lugar de médico municipal substituto em Monsanto (Castelo Branco).

Este livro pode, pelo seu conteúdo, “encaixar” em vários géneros literários. Há quem o classifique como autobiográfico, de contos, de narrativas e até de interesse etnográfico. Escrito na década de quarenta do séc. XX, relata, em pequenos contos, episódios passados nos primeiros anos do exercício da sua carreira médica, em que “o herói vai de povo em povo, descobrindo os homens e os cenários da sua luta, surpreendendo-se e misturando-se, leva consigo a solidariedade e a confiança”. Palavras de Fernando Namora, proferidas numa entrevista publicada em – Encontros com Fernando Namora. – 1.ª ed. – Porto : Nova crítica, 1979

A minha sugestão aborda apenas a I série de “Retalhos da vida de um médico” (1949), uma vez que Namora escreveu uma segunda série, quinze anos depois, em 1963, esta já no período que abrange a sua carreira citadina.

Como escreve Namora, logo a iniciar o seu primeiro conto (História de um parto):

“Com vinte quatro anos medrosos e um diploma de médico, tinha começado a minha vida em Monsanto”. A população da “aldeia mais portuguesa de Portugal” acolhe-o com desconfiança. A sua juventude e adivinhada inexperiência são os motivos para a inicial falta de doentes. A população recorre ao barbeiro da aldeia, um charlatão, que os convence com uma pretensa sabedoria que não tem. Entre charlatães e bruxas, o jovem médico seria uma escolha de último recurso. Um dia, as parteiras amadoras da terra, deparando-se com uma situação que não conseguiam resolver, informaram o futuro pai que era preciso chamar o médico, mas que fosse o Dr. Valença, anterior ocupante do cargo atual de Namora. Dizia a mais “avisada” que “a criança estava presa no osso da rabadilha”.

Na zona central da aldeia, decorria a boda de casamento do farmacêutico local, e Namora era um dos convivas ao lado do anterior médico municipal. É, em plena boda, que aparece alguém a pedir o Dr. Valença para acudir ao parto. Na mesa da boda decidiu-se que era um caso para o novo médico, já que este era agora o ocupante oficial do posto de saúde. O médico parte, de burrico, para a espinhosa missão de salvar duas vidas. Já em casa da parturiente, e vendo que não havia alternativa, pede que lhe vão ao consultório e peçam à sua ajudante “os ferros”, nome dado aos odiados “fórceps”, instrumentos médicos usados em casos de extrema necessidade, quando o feto, por mal posicionado, não se consegue “ajeitar” sem ajuda dos tais artefactos. Era uma técnica que, quando mal executada ou em caso de situações mais complicadas, podia provocar a morte ou graves deformações ao bebé e muito sofrimento às mães.

“A história de um parto” abre caminho à série de narrativas que o autor vivenciou, enquanto médico e atento observador, no meio social e político que o rodeava naquela província raiana, onde os problemas sociais humanos dos mais desfavorecidos eram muito pungentes.

Namora revelou, numa das entrevistas que concedeu, como a sua profissão lhe proporcionou uma posição privilegiada para conhecer profundamente os dramas daquelas gentes, porque ao médico revelavam-se com mais confiança e abertura. Em paralelo, na mesma qualidade de médico, convivia com colegas e outras forças vivas, o que lhe permitia conhecer o outro lado da sociedade, mais desafogada e comprometida com o regime, com os seus procedimentos marginais, menos claros, menos justos e corruptos, que Namora foi revelando na sua obra, principalmente na que é escrita já na fase de médico da cidade, já na década de 50.

Esta abordagem denunciadora, valeu-lhe muitas inimizades, principalmente dos seus colegas médicos, com a Ordem dos médicos a ameaça-lo de expulsão.

Para começar a leitura da extensa obra de Fernando Namora, aconselho este livro. As histórias são curtas, mas cada uma tem um relato que nos prende e nos informa do que era o Portugal profundo dos meados do séc. XX. O livro, embora com relatos duros, como a realidade que os criou, não deixa de ter a suavizá-la uma dose de humanismo e otimismo, tornando a leitura mais apaziguadora.

“As histórias deste livro são terríveis, mesmo para um médico, mas salva-as a simpatia e a sinceridade do autor.” The Daily Telegraph (Inglaterra)

As injustiças denunciam-se para que se possam conhecer e corrigir. Assemelha-se ao trabalho do repórter, que vai ao local e relata o que vê, ouve e o transmite aos outros na sua reportagem. Era uma espécie de jornalismo que estava vedado aos seus profissionais.

Namora foi malquerido pelo setor dominante e por alguns dos “barões da medicina” de então, mas considerado, dentro e fora do País, como um escritor de eleição e um dos mais importantes representantes do movimento neorrealista.

Este livro foi, muito oportunamente, adaptado para o cinema por Jorge Brum do Canto, em 1962, tendo sido selecionado para o Festival de Berlim. Em 1979/80, é adaptado para o pequeno ecrã por Artur Ramos, Bernardo Santareno, Carlos Coutinho, Olga Gonçalves, Urbano Tavares Rodrigues e Dinis Machado. Artur Ramos também realizou esta série, que obteve um enorme sucesso na RTP nos anos oitenta, tendo sido já reexibida na RTP Memória.

A banda sonora da série com letra de Ary dos Santos, música de TóZé Brito e a voz de Carlos do Carmo é como cereja no topo do bolo.

E como um slogan de apelo à leitura deste livro, um extrato da letra da canção de Ary dos Santos:

Cada história é um retalho
Cortado no coração
De um homem que no trabalho
Reparte a vida e o pão

Bibliografia consultada:

– Encontros com Fernando Namora. – 1.ª ed. – Porto : Nova crítica, 1979.
– LANCIANI, Giulia, ed. lit. ; TAVANI, Giuseppe,, ed. lit. – Dicionário da literatura medieval galega e portuguesa. 1.ª ed. Lisboa : Caminho, 1993. ISBN 972-21-0871-9
– JORGE, Francisco in: [POSFÁCIO à edição de 2016 de "Retalhos da Vida de um Médico” de Fernando Namora (Editorial Caminho); Publicado a 27 de outubro de 2016, em www.dgs.pt]
– BARREIROS, António José – História da literatura portuguesa. 11.ª ed. Braga : Pax, 1985.

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