Passe pela Biblioteca | “José Alberto Marques: Para além da linguagem”

Os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. As obras de José Alberto Marques compõem a sugestão hoje apresentada por Francisco Lopes, da Biblioteca Municipal António Botto, em Abrantes. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

Na sugestão de leitura de hoje recomendo, não um livro, mas um autor. Trata-se de um torrejano por nascimento e abrantino, porque jovem e em boa hora, por cá perdeu um comboio para a Covilhã e aqui ficou para sempre. Autor do primeiro poema concreto publicado em Portugal, não foi lido por multidões – que isto em cultura, com todo o respeito pelo citado, nem tudo é o Tony Carreira e o talento não se mede aos quilos – mas há décadas que é uma das grandes figuras do experimentalismo literário português.

Descobri a sua obra teria eu uns 19 anos, por volta de 1977, quando entrei na livraria da Assírio & Alvim e o meu amigo e colega de faculdade, Manuel Hermínio Monteiro, pegou num exemplar de Sala hipóstila com um “Toma lá dum poeta da tua terra!”.

Sala hipóstila representou algo de completamente novo no panorama das minhas leituras. Trata-se, entre mil outras possíveis interpretações, duma poético-narrativa de instantes fragmento que se fixam da memória para a linguagem, como se dum registo cinematográfico se tratasse. O texto resultante é uma espécie de montagem de memória fílmica, indo sempre atrás recuperar fragmentos a que se acrescenta algo. Funcionando como uma espécie de jogo de râguebi em que é obrigatório passar para trás para se poder avançar, numa lógica de eterno retorno de múltiplas simbologias.

Esta foi a primeira imagem que me ficou duma leitura altamente interpelativa, que inclui mesmo uma página espelho que obriga o leitor a entrar na trama. Porque nos livros de José Alberto Marques há sempre trabalho para o leitor fazer.

A partir daí nunca mais parei de acompanhar a sua obra, numa imensa riqueza de géneros que vão da poesia – sempre presente – à ficção, ao teatro, à literatura para crianças, às exposições, aos espetáculos multimédia e aos happenings e performances, porque a relação da obra com o corpo é também uma das suas características marcantes.

Mais tarde tive a felicidade de fazer trabalho de editor nos seus livros Loendro, Cantologia e Zahara, um deslumbrante geopoema sobre a sua Abrantes afetiva, que nenhuma cidade pode deixar de invejar.

Com ele produzi e imaginei a performance 100 horas de solidão junto do Tejo, perto de Camões, em 1995, devendo-lhe o privilégio de uma das melhores experiências criativas da minha vida. Nesse contexto convidei o Ruy Zink para apresentar e comentar a exposição de poesia visual resultante. Numa atitude aparentemente provocatória, Zink começou por afirmar que não sabia o que estava ali a fazer:

– O que faço eu aqui? Isto não rima, frequentemente nem já tem forma de versos, por vezes já nem tem palavras… como é que isto é poesia?

Neste tom, Ruy Zink prosseguiu, ultrapassando o ar inicialmente desconfiado de José Alberto e a total surpresa dos presentes, para sempre em tom provocatório, mas finamente humorístico, simples e inteligente, fazer todos compreenderem finalmente as poéticas do domínio do concretismo e do experimentalismo visual que, no seu dizer, já nem eram linguagem porque estavam para além disso… seriam metalinguagem, mas continuavam a ser poesia.

O lançamento do próximo livro de José Alberto Marques em Abrantes, na Biblioteca Municipal António Botto, dia 12 de novembro, às 18 horas, foi pretexto para a sugestão deste autor maior da região do Médio Tejo e do experimentalismo português, que é indispensável descobrirmos e tratarmos como património da região. Trata-se de Homeóstatos, um livro homenagem da PO.EX, com estudos e releituras da sua obra por autores e professores de relevo das mais importantes universidades portuguesas e brasileiras.

Narrativo ou lírico, aliás indestrinçávelmente narrativilírico, José Alberto Marques é sempre experimental, visual, épico e lírico. Em suma, genial. Respirem fundo, ganhem fôlego, façam o favor de o ler e o mínimo de esforço para o compreender e nunca mais ficarão na mesma.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here