Passe pela Biblioteca | “Dom Camilo e o seu rebanho”, de Giovanni Guareschi

Os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Dom Camilo e o seu rebanho”, de Giovanni Guareschi, é a sugestão hoje apresentada por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

GUARESCHI, Giovanni – Dom Camilo e o seu rebanho. 1.ª ed. Mem Martins : Europa-América, 1989. ISBN 972-1-02879-7

Giovannino Oliviero Giuseppe Guareschi (1908-1968), jornalista, escritor e cartoonista italiano, ficou conhecido, principalmente, pela saga de Dom Camilo, da qual este é um dos oito livros editados. Inicialmente publicadas em episódios num jornal, as histórias, que se desenrolam numa pequena localidade da região de Bassa, em Itália, depressa se tornaram um sucesso, acabando reunidas por diversos livros.

Os protagonistas são “Dom Camilo”, o padre, e Peppone, dirigente comunista e presidente da câmara local. A ação desenrola-se numa Itália em convulsão, saída de uma segunda grande guerra há pouco terminada. A comunidade é constituída por uma população de homens sanguíneos, violentos e imprevisíveis que se dividem, fundamentalmente, em conservadores católicos e a fação comunista de inspiração soviética. Pelo meio, entre os mais idosos, ainda haviam alguns monárquicos saudosistas que, a espaços, deram que fazer à comunidade. Tal foi o caso da velha professora primária que, perto da morte, quis a bandeira monárquica sobre o seu caixão, causando algum embaraço a Peppone.

A representar a fação mais conservadora, de inspiração católica, Dom Camilo, de comportamento interventivo, por vezes demasiado interventivo, quando se trata de defender os seus pontos de vista em relação à governação da administração local. Peppone, também ele, homem de resposta pronta aos ataques de que é alvo por parte dos seus adversário políticos, encabeçados, invariavelmente, por Dom Camilo. Estão criadas as condições para que a vida da pequena localidade seja tudo menos monótona.

Para que nada faltasse na visão global das desavenças deste povo, temos Dom Camilo, um padre com uma particularidade muito especial, a de dialogar com o Cristo cruxificado do altar-mor. Este fenómeno, que pode apresentar alguma perplexidade, acaba por ser facilmente assimilado atendendo ao contexto da obra. Os diálogos entre Cristo e Dom Camilo versam os acontecimentos que vão ocorrendo e revestem-se de um misto de drama, ternura e algum humor, aliás, como toda a obra.

Entre Peppone e Dom Camilo há, a par da grande rivalidade politica, um entendimento e uma amizade profunda, que evitam desenlaces mais dramáticos nos casos mais delicados.

Essa amizade, alicerçada no facto de ambos terem pertencido aos “Partisans”, resistência italiana ao fascismo durante a segunda guerra e a preocupação que ambos têm pelo bem estar dos cidadãos da comunidade, une-os numa relação de amizade e respeito.

Só, assim, se compreendem atitudes como a daquela noite em que, ao arrepio da greve promovida pelo sindicato comunista, em defesa dos trabalhadores da pecuária, se encontram e combinam ordenhar todas as vacas da cooperativa local, que mugiam desesperadas com os úberes cheios e doridos.

Esta ação, feita pela calada da noite, em defesa do sofrimento dos animais, vítimas dos desaguisados dos homens, foi de elevado risco para ambos. Um, padre, sujeito a ser linchado pelos correligionários comunistas de Peppone e este, correndo o risco de ser julgado como traidor pelo partido.

Ao longo do livro encontramos episódios em que estes personagens vão revelando que, antes das suas divergências doutrinárias, têm como prioridade a justiça e o bem-estar do próximo, mesmo que o próximo seja uma vaca.

A série de livros publicados sobre a vida quotidiana desta pequena localidade na região de Bassa, em Vale do Po, no norte de Itália, que tem como protagonistas principais este dois pilares das fações opostas, deu uma notoriedade mundial ao autor que, de outra forma, dificilmente alcançaria.

Os livros foram adaptados ao cinema e a pequena vila com as suas figuras icónicas conquistaram a atenção do mundo.

Os filmes foram rodados em Brescello, localidade em que podemos visitar um museu dedicado à obra. Dele fazem parte os adereços usados no filme. No exterior, a mostra completa-se com a exibição de duas estátuas, em tamanho natural, dos protagonistas Camilo e Peppone e, ainda, um carro blindado que foi tema principal de alguns episódios da série.

Fernand Joseph Désiré Contandin (1903-1971), mais conhecido por Fernandel, célebre ator francês, interpretou Dom Camilo duma forma inesquecível, o que reforçou a sua popularidade como ator. Gino Cervi (1901-1974), também um ator de nível internacional, interpreta Peppone. Ainda foi equacionada a hipótese de ser o próprio autor, Giovanni Guareschi, a interpretar a personagem de Peppone, mas algumas insuficiências na sua capacidade de representar e a falta de tempo que tinha para as aperfeiçoar deixaram cair essa hipótese.

No fundo, Guareschi procura demonstrar que há valores, como a humanidade, o respeito e a justiça, que devem estar acima das querelas políticas. Que os homens que detêm poder devem empenhar-se em ser, essencialmente, pessoas com qualidades que possam servir para resolver problemas e não para os criar.

“Dom Camilo ergueu os olhos para o Cristo do altar-mor e disse:
– Quanta coisa no mundo que não regula, Jesus!
– Não acho – respondeu Cristo.
– A única coisa que não regula no mundo são os homens. De resto, tudo regula perfeitamente.”…

In: “Dom Camilo e o seu rebanho”

É este, o livro que vos proponho.
Votos de boas leituras

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