Passe pela Biblioteca | “Caros Fanáticos”, de Amos Oz

Os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Caros fanáticos”, de Amos Oz, é a sugestão hoje apresentada por Margarida Teodora Trindade, diretora da Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes, em Torres Novas. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

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“Caros Fanáticos – Fé, fanatismo e convivência no século XXI”, Amos Oz (Ed. Dom Quixote, 2018)

«Nunca encontrei fanáticos com sentido de humor. Nunca vi que alguém capaz de rir de si próprio que se tenha tornado fanático. (…) O humor contém um distanciamento que nos permite ver, pelo menos por instantes, as coisas numa luz completamente nova. Ou ver-nos a nós próprios (…) como os outros nos veem. Esse distanciamento leva-nos a reduzir o excesso de importância que se atribui a algo e em particular a nós próprios. E mais: o humor implica em geral uma certa relativização, uma desvalorização do sublime (…). Mesmo que sejamos maravilhosos, puros como a neve e cheios de razão — é conveniente que surja por vezes, nem que seja por um momento, algum diabinho, um diabinho bufão, que nos pisque o olho e ria um pouco da nossa razão absoluta, da nossa pureza excecional, da nossa santidade e do acima de qualquer dúvida e fustigue um pouco essa importância e santidade transbordantes.»

Escritor, romancista, ensaísta e jornalista de vária obra, Amos Oz (Jerusalém 1939 – 2018) sempre se posicionou na origem da fundação de movimentos pacifistas. Foi um homem clarividente, um construtor da paz.

Deixou-nos, entre muitos outros, este pequeno livro que contém três reflexões sobre a convivência pacífica entre povos no século XX.

Discorre aqui sobre as origens dos fanatismos, e não tendo qualquer solução que lhe pareça viável, presume que a consciência de que haverá um fanático adormecido em cada um de nós será um grande contributo para que possamos, a partir de cada uma das nossas casa e das nossas famílias, contrariar esse fatalismo que é a guerra entre os que não professam a mesma fé ou as mesmas ideologias.

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Na sua exposição, parte da realidade que lhe era mais próxima e mais conhecida, o conflito israelo-palestiniano, contudo alude ao fanatismo quotidiano, aliás aos vários, aos que nem por isso são visíveis mas que se mostram evidentes nas manifestações do dia-a-dia. Refere também a importância de distinguirmos os vários graus do mal: «Quem não é capaz ou não quer hierarquizar o mal acaba prestando um serviço a esse mesmo mal.»

De uma lucidez impressionante, Amos Oz coloca-nos a todos perante o espelho da realidade. E nós, ali no meio, somos refletidos por esse mesmo espelho. Fazemos parte.

Desconstrói as intenções dos fanáticos, coloca-as tão claramente à nossa frente para que as vejamos sem qualquer disfarce. Se não, reparem: «A crescente infantilização de milhões de seres humanos em todo o mundo não é fortuita: há quem tenha interesse nela e se aproveite dela, seja por desejo de poder seja por ambição monetária. O publicitário e quem o financia têm o maior interesse em que nos tornemos todos crianças pequenas e mimadas, porque as crianças pequenas e mimadas são os consumidores mais fáceis de aliciar. (…) Nas eleições são cada vez mais as pessoas que votam por quem consegue emocioná-las e diverti-las, por quem domina todas as regras do jogo, Votam pela “cena, pela “galhofa”, pela “piada”. (…) 
Tudo isto é aparentemente o oposto da sisudez austera dos fanáticos (…). Mas essa diferença é uma ilusão.»

Um livro a ler, mas só para quem verdadeiramente não teme o confronto com as suas próprias fragilidades e as assume como, eventualmente, perigosas.

Passe pela biblioteca… ou consulte o nosso catálogo.

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