Passe pela Biblioteca | “Breviário das más inclinações”, de José Riço Direitinho

Os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo fazem recomendações de leitura no nosso jornal todas as semanas. “Breviário das más inclinações”, de José Riço Direitinho, é a sugestão apresentada por Francisco Lopes, da Biblioteca Municipal António Botto, de Abrantes. Passe pela Biblioteca… e boas leituras!

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Fazer um percurso de leitor não se compadece com a obsessão da última novidade e do mediatismo das escolhas. É por isso que raramente sugiro novidades. Quando surgiu “A casa do fim”, seu primeiro livro, em 1992, percebeu-se logo que o autor daqueles contos, José Riço Direitinho, não era um escritor qualquer. Recuperar agora, a reedição do seu primeiro romance, “Breviário das más inclinações”, dado à estampa em 1994, é um tributo a um grande livro e a um grande autor, entretanto premiado e traduzido em muitas línguas, que talvez apenas peque por escrever pouco, permitindo assim que os leitores mais distraídos o esqueçam entre novos originais.

Este é um livro que assenta no que de mais extraordinário há no imaginário das comunidades tradicionais ligadas ao mundo rural: as marcas do fantástico, do sobrenatural, do mitológico e da magia.

São estes elementos que mais caracterizam a sua ficção, a par de um autêntico trabalho de arqueologia lexical, que recupera uma riqueza linguística em vias de desaparecer, juntamente com as atividades, ambientes e contextos sociais a que está ligada.

Também não há, na sua obra, fronteiras simplistas entre o bem e o mal. O herói deste “Breviário” é, como em muitas das nossas aldeias, um elemento orgânico intrínseco que não se pode extirpar da comunidade. A sua condição marginal não significa, por isso, a sua exclusão, embora o primarismo sentimental lhe permita atos heróicos de salvamento com a mesma facilidade com que é capaz de matar, ou fazer do sexo simultaneamente gozo, transgressão e redenção.

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Há nos livros de Riço Direitinho uma ironia de quem narra mas também se coloca no interior da estória, nunca como sujeito dela mas como quem observa a voo de drone ou manipula destinos imaginariamente bio ficcionais. Há uma ligação visceral a um mundo rural apreendido na infância, no Alentejo, à luz do candeeiro a petróleo da casa dos avós.

Manipula também com mestria estratégias narrativas pouco comuns. Há frequentemente uma antecipação desconcertante que, ao estilo de um Gabriel García Márquez, é capaz de antecipar a morte do protagonista logo no início, sem perder, antes aumentando, o interesse do leitor. As suas mudanças de plano temporal funcionam como uma espécie de jogo em que, como no râguebi, é preciso ir atrás para se poder avançar, e não como simples analepses em que se recua na ação apenas para se contar o que ainda não se contou. Não, conta-se logo, mas depois virão surpresas.

O lugar da ação, Vilar dos Loivos, vive sob o signo do fatalismo, do fantástico, da adivinhação, da crendice. O povo depende, pelo isolamento e falta de meios para recorrer a profissionais, de “especialistas” de proximidade formados pelos processos de transmissão oral intergeracional, como bruxas, endireitas, exorcistas… e de práticas e recursos como promessas, romarias, mezinhas, rezas, unguentos ou infusões que não deve experimentar em casa, pois todas foram inventadas pelo autor, que se deve ter divertido imenso com isso, mas não quis matar ninguém.

Este microcosmo é o universo de personagens que vivem num mundo e num país que não conhecem, mas que, no Portugal do primeiro e segundo quartéis do século XX, começa aos poucos a ser invadido por fugitivos da guerra civil espanhola que contam os seus horrores e forasteiros nómadas como saltimbancos e vendedores ambulantes que são os portadores da novidade.

Há algo de realismo mágico nesta narrativa extraordinária a que Tânia Maria Pantoja Pereira chamou “memória étnica”, que cruza saberes práticos tradicionais com monstros, lendas, mitos e crenças. Este é um romance que se situa no estertor da emergência de um Portugal moderno que se liberta do país fechado e obscurantista de Salazar. Onde a aceitação fatalista de um mau destino assenta num substrato cultural que mantém fortes ligações com o irracional, o fantástico e o misterioso, como é próprio da natureza humana. Por isso precisamos tanto do sonho e da fantasia da ficção. Nenhuma verdade é tão forte como as grandes histórias que inventámos.

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