PASSE PELA BIBLIOTECA: A MONTANHA DA ÁGUA LILÁS, DE PEPETELA

Convidámos os diretores das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço, de forma alternada, todas as sextas-feiras. Esta semana, “A montanha da água lilás”, de Pepetela, é o livro sugerido por Maria José Pereira, diretora da Biblioteca Municipal de Tomar.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

A Montanha da Água Lilás é um conto narrado por um ancião, “O avó Bento” à luz da fogueira, em plena noite africana.

PASSE PELA BIBLIOTECA: A MONTANHA DA ÁGUA LILÁS, DE PEPETELA
Foto DR

Diz a lenda que há muitos anos existia uma montanha onde viviam uns seres especiais chamados lupis, lupões e jacalupis.

Os lupis distinguiam-se uns dos outros pela inteligência e pelo tamanho. Os mais inteligentes eram os cambutinhas, os mais pequenos dos lupis, era deles que partiam todas as ideias (lupi pensador e o poeta). Os mais trabalhadores eram os Lupões, maiores fisicamente, mas menos dotados da faculdade de pensar.
Por motivos da evolução da espécie, alguns dos lupis começam a crescer mais do que o normal. Estes novos lupis, para além de serem fisicamente maiores eram também muito preguiçosos e violentos e, por serem tão diferentes foram chamados de jacalupis. Estes eram incapazes de sobreviver sozinhos, porque não conseguiam subir às árvores para colher fruta, trabalho esse que era executado pelos lupis.

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Todos viviam felizes e em harmonia até ao dia que descobriram na montanha uma nascente de água lilás com um perfume inebriante e que tinha a capacidade de os tornar mais felizes.
“De repente do sítio de onde saiu a pedra, brotou muito timidamente um líquido escuro. O lupi-poeta inclinou-se para ver melhor e sentiu então o perfume que saía daquele líquido lilás. Era um perfume muito doce. Pôs o dedo no líquido e levou-o ao nariz. Que maravilha! Os odores de todas as flores estavam reunidos naquele cheiro único que logo o encheu de enorme alegria, ele que momentos antes quase explodia de irritação. Ajoelhou no chão e cavou à volta, alargando o buraquinho. O líquido começou a brotar em maior quantidade e o perfume intensificou-se. A alegria também. Ficou ali sentado no chão, ao lado da fonte, aspirando o perfume, todo feliz, esquecido mesmo de fazer o poema à Lua.”
A partir daqui a vida na montanha nunca mais foi a mesma. Esta descoberta foi responsável por todos os problemas que os lupis viriam a enfrentar, não só na montanha, mas também com o resto da planície”.

Com o aparecimento da água lilás a que mais nenhum animal tinha acesso, o lupão comerciante começa, de imediato, a conceber planos para a rentabilizar. Consequentemente, assistimos, ao sucesso e ao enriquecimento ilícito e fácil do comerciante, do armazenista, do diplomata e do advogado. Por outro lado, os jacalupis tornam-se mais poderosos, mais violentos e preguiçosos e os cambutinhas começam a ter de trabalhar mais e a serem cada vez mais escravizados.

O autor retrata, desta forma o processo de diferenciação e estratificação de classes através dos vários intervenientes e das profissões que eles representam.

Um livro facilmente entendido por todos, e que aborda de forma divertida os  problemas mais comuns da sociedade contemporânea. Para os adultos uma alegoria à sociedade de consumo governada pela ganância, pelo lucro fácil e pelo poder precário. Para os mais pequenos uma fábula com um final feliz que os alerta para os perigos da ganância do egoísmo.

A água lilás…, um bem, inicialmente inofensivo e benéfico, acaba por ser transformado numa semente de ódio, de inveja e de ambição.

“Aprenderemos nós com esta história?”.

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