Passe pela Biblioteca | “A Metamorfose”, de Franz Kafka

Convidámos os responsáveis das bibliotecas municipais do Médio Tejo a fazerem as suas recomendações neste espaço de forma alternada, às segundas-feiras. “A Metamorfose”, de Franz Kafka, é a sugestão apresentada esta semana por Amílcar Correia, da Biblioteca Municipal do Entroncamento.

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Passe pela biblioteca… e boas leituras!

Franz Kafka (1883-1924), judeu de nacionalidade checa, foi um escritor de língua alemã, autor de romances e contos, considerado pelos críticos como um dos escritores mais marcantes do século XX, considerado um percursor do realismo mágico.

Se nunca tivermos lido um livro de Franz Kafka teremos, pelo menos, alguma vez, ouvido a palavra “kafkiano/a” em expressões como, por exemplo: “maquinação kafkiana”; “ideia kafkiana”;  “mundo kafkiano”.

Kafkiano é um termo que, mesmo sem nos ser familiar, já nos deixa uma ideia do seu significado, parece intuitivo. Atribuir o adjetivo kafkiano a alguma coisa, situação ou pessoa, é dar-lhe uma conotação sinistra, surreal, absurda, quiçá inexplicável ou fantástica, como o são os romances de Kafka. “A Metamorfose”, não é, de todo, exceção.

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“Certa manhã, ao acordar de sonhos inquietos, Gregor Samsa viu-se transformado num gigantesco inseto.” – é com esta frase coloquial e a frio que o livro começa.

Kafka inicia a história com o penoso acordar de Gregor Samsa, com um novo corpo de enorme e grotesco inseto, transformação que ocorre durante uma noite. Não dominando a sua nova morfologia, mexer-se é um suplício e sair da cama está a ser um tarefa extenuante e quase impossível, amenos que se balance na carapaça até cair para o chão.

A principal preocupação de Gregor é mais em preparar-se para chegar a horas ao emprego, que com a transformação que lhe ocorreu durante a noite e que o impedirá para sempre de voltar a trabalhar e a ser quem era.  Afinal, pensa Gregor, é ele o principal sustento dos seus pais e irmã.

Gregor alarma-se com a incapacidade que, nessa manhã, sente de se preparar a tempo de chegar ao emprego, teme que, se não chegar a horas, alguém da empresa venha saber dele a casa.

A campainha soa, Gregor grita para que alguém vá atender. Demoram a ir abrir a porta. É o próprio gerente que vem pedir explicações do seu atraso. Fechado no seu quarto, comunica que está doente, mas ninguém parece ouvir as suas explicações que chegam até eles como um silvo. A sua transformação tirara-lhe a voz humana para lhe dar a dos insetos, que no caso dele soava como um silvo, situação de que ele não tinha noção.

Sem ter noção de que não era entendido, Gregor resolve com muito esforço abrir a porta do quarto, quando já se apercebera que falavam em chamar o serralheiro e o médico. Gregor sai do quarto para tentar justificar-se perante o gerente que viu mal olhou para fora do quarto. Com a sua aparição súbita instala-se o pânico, a que só o pai se mantém imune e, num impulso, enxota o filho com uma bengala de novo para o quarto. O gerente foge em pânico perante tal visão, a mãe de Gregor chora sem entender.

O tempo passa e a vida daquela família, sem poder voltar ao normal, vai, contudo, voltar a uma “normalidade” possível. Os pais e a irmã de Gregor arranjam trabalho para se sustentarem e Gregor passa o tempo fechado no quarto. Apenas a irmã consegue lidar com ele, alimentando-o e tratando dele. Depressa se começa a fartar quando se lhe instala a dúvida de que se aquela criatura ainda terá alguma coisa do seu irmão. Começa a recear que aquele bicho monstruoso e repugnante seja apenas isso, um repugnante bicho.

A adaptação de Gregor à nova estrutura física, os seus gostos peculiares e nojentos de inseto, a compreensão inicial da irmã e uma tolerância agastada dos pais está a findar. Consegue perceber o nojo que cada vez mais a sua irmã sente por si. Isso consome-o. A família acaba por começar a pensar em libertar-se daquele monstro.

Acaba por não ser preciso executar a sentença sobre o inseto. Gregor Samsa, limitado ao espaço exíguo do seu quarto acaba por morrer por inanição. Magro, como constataram, metia dó, mesmo assim, o hediondo inseto, provocava dó. Adivinhavam-lhe o sofrimento por que passara.

É uma história fantástica, triste e arrepiante, mas são estes os atributos das histórias de Kafka, a que podemos juntar tantos outros como alienação, obsessão, culpa, que geram estranhas situações e personagens. Um escritor que parece descrever o que lhe vai na alma, nestas arrepiantes histórias, sem que nós compreendamos nunca o que realmente nos quer dizer ou se a sua intenção é essa, a de nunca virmos a saber o que realmente diz.

A obra de Kafka é, de tal modo, densa e cerebral que os seus livros se prestam a múltiplas interpretações e, por isso, se tornou num dos escritores com um enorme séquito de estudiosos da sua obra. Entre eles, há quem defenda a desnecessária procura de interpretações escondidas nas suas obras. Porque não, admitir que o autor quisesse uma leitura literal dos seus textos?

Em jeito de resposta aos defensores de tal ideia, finalizo com uma frase de Walter Benjamin (1892-1940), ensaísta, crítico literário, tradutor, filósofo e sociólogo judeu alemão, contemporâneo de Kafka, com a qual Helena Topa termina o seu excelente prefácio:

“Kafka possuía um raro poder de construir parábolas. Todavia, nunca se esgota no que é interpretável; tomou, isso sim, todas as precauções contra a interpretabilidade da sua obra”.

Livro recomendado para o Ensino Secundário como sugestão de leitura.

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