“Páscoa: Festa central do ano e tempo de renovação”, por Matias Coelho

Compasso da visita pascal na pequena freguesia de Geraz do Minho, Póvoa de Lanhoso, em 2011

Ao contrário do que em geral se pensa, na nossa tradição milenar a principal festa do ano não é o Natal mas a Páscoa. Porque, para os cristãos que celebram uma e outra, mais importante do que o nascimento, que se evoca pelo Natal, é o que a Páscoa consagra que verdadeiramente importa – a ressurreição, a chegada à vida eterna.

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Festa central do ano cristão, e já antes do judaico, a Páscoa, que se celebra sempre no início da primavera, é também um tempo de passagem, de mudança de ciclo, de renovação, de um eterno ressurgir.

Da Páscoa à Ascensão… quarenta dias vão – diz o povo e assim é. A Páscoa cristã, sucedânea da Páscoa judaica, é, efetivamente, a festa central do calendário litúrgico, cuja data determina as de todas as outras festas móveis, como o Carnaval e a Ascensão, por exemplo.

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O costume de dar maior importância ao Natal do que à Páscoa tem pouco sentido e é muito recente: ainda há menos de um século era hábito dar as boas-festas pela Páscoa e os jornais dessa época estão cheios de cartões com esses votos que pelo Natal normalmente não se apresentavam. Aliás, ainda hoje, em certas aldeias do interior do país, se continua a fazer a visita pascal, em que o compasso, constituído pelo pároco, pelo sacristão e pelo mordomo e ajudantes ou membros de confrarias, entra em todas as casas que tenham a porta aberta para esse efeito, dando a cruz a beijar e dizendo Boas Festas, Aleluia! E, mesmo na rua, as pessoas, cumprimentando-se, desejam boas-festas umas às outras – o que provoca estranheza ao citadino que chega sem estar familiarizado com os hábitos (milenares) da aldeia.

Para o cristianismo, mais importante do que o nascimento de Cristo, celebrado pelo Natal, é a sua ressurreição que corresponde à vitória da vida sobre a morte e à salvação da humanidade e se festeja pela Páscoa.

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A Páscoa cristã radica na Páscoa judaica. O povo de Israel esteve muito tempo exilado no Egito, onde era oprimido. Deus, tendo em consideração o seu sofrimento, dispôs-se a libertá-lo e, para obrigar o faraó a deixá-lo sair, lançou sobre os egípcios uma série de pragas. A última dessas pragas, e decisiva, foi a matança dos primogénitos: mandou Deus um anjo passar pelas casas do Egito, matando todos os primogénitos, desde o do faraó até aos dos escravos e aos dos animais. Foram poupados os de Israel que, previamente avisados, tinham morto um cordeiro e, com o sangue dele, haviam assinalado as portas das suas habitações para que o anjo não entrasse nelas. Atemorizado, o faraó deixou sair o povo que, guiado por Moisés, passou o Mar Vermelho, celebrou uma aliança com Deus no Monte Sinai e, através do deserto, se dirigiu à Terra Prometida.

Todos os anos, de 14 a 20 de Nissan, o primeiro mês do calendário hebraico que começa no equinócio da primavera, os judeus celebram a Páscoa (em hebraico pessach que significa passagem), assinalando assim a saída do Egito. O dia 14 de Nissan é mais propriamente o dia de Páscoa, visto que nele se comemora a passagem do anjo que executou os primogénitos, abrindo caminho à libertação do povo.

O cristianismo transformou a Páscoa judaica, dando-lhe um novo significado: Cristo passou a ser o cordeiro de Deus, cujo sangue veio tirar o pecado do mundo e libertar a humanidade, e a Páscoa passou a corresponder à sua ressurreição, à vitória da vida sobre a morte.

Não é por acaso que as Páscoas, quer a judaica quer a cristã, se celebram no início da primavera: é porque ambas, cada uma com o seu significado, assentam nessa outra mais antiga tradição agrária, tão antiga provavelmente quanto o tempo que os homens têm de agricultores, que festeja cada ano a chegada da primavera e o renascer da natureza.

A data para a celebração da Páscoa cristã, depois de um período inicial de alguma confusão, foi fixada definitivamente pelo concílio de Niceia, no século IV. Estabeleceu-se então, e ainda hoje se cumpre, que a Páscoa é no domingo que se segue à primeira lua cheia depois do equinócio da primavera. Significa isto que a Páscoa pode calhar entre 22 de março e 25 de abril. Este ano, para dar um exemplo, o equinócio da primavera ocorreu em 20 de março, mas a primeira lua cheia depois disso só será em 11 de abril, uma terça-feira. A páscoa, seguindo a velha regra, é no domingo seguinte, ou seja, dia 16. Na Páscoa, olhando o céu e estando ele limpo, temos sempre a lua que foi cheia há pouco tempo.

Considerando a data da Páscoa, é fácil determinar todas as outras festas móveis do calendário litúrgico do cristianismo: assim, por exemplo, quarenta dias para trás é o Entrudo (a entrada na Quaresma) e quarenta dias para diante é a Ascensão (a subida de Jesus ao Céu depois de ressuscitar).

Na Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem de 2015 (Foto do autor)

Sendo um tempo de passagem, de renovação associada ao próprio ressurgir da natureza que a primavera traz consigo, a Páscoa é, também por isso, um tempo de mudança que marca o fim de um ciclo e o início de um novo. É por isso que determinadas festividades cíclicas da nossa tradição popular se lhe associam no calendário.

A Festa de Nossa Senhora da Boa Viagem, em Constância, celebrada no encontro do Zêzere com o Tejo há mais de duzentos anos, é disso um exemplo paradigmático: no dia seguinte à Páscoa, quando a vila era um dos principais portos fluviais do médio Tejo, os marítimos faziam uma grande festa à Senhora, agradecendo-lhe as graças recebidas durante um ano que ali terminava e renovando-lhe o pedido de proteção para as suas viagens, Tejo abaixo, Tejo arriba, para o ano que iria até à Páscoa seguinte. É esse ritual, embora com motivações diferentes, porque diferentes são os tempos e os protagonistas, que cada ano se cumpre ainda agora naquele lugar, com a procissão e a Bênção dos Barcos e das Viaturas e muita gente que vem de perto e de longe. Na Páscoa, sempre.

 

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