“Pão com manteiga e açúcar”, por Berta Silva Lopes

Foto: Congerdesign, Pixabay

Esta semana as minhas filhas pediram-me pão com manteiga… e açúcar. Pão com manteiga e A-ÇÚ-CAR. Assim como quem pede uma maçã. Diz que provaram em casa da avó e que esse era o lanche que queriam. Fiz-me de surda, mas não resultou: elas insistiram. Expliquei que não era saudável, que só tínhamos açúcar mascavado, que não havia manteiga em casa, que o melhor era escolherem outra coisa.

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Acontece que elas só queriam pão com manteiga e açúcar. E sabe Deus a capacidade de argumentação daquelas duas quando ouvem um não. Vá lá… vá lá… vá lá. Qual é o mal? Por favor, é só hoje. Quem tem filhos sabe que há negociações difíceis.

As minhas filhas são peritas em acordos diplomáticos ao nível dos melhores políticos mundiais. Do conflito ao consenso, dominam todas as estratégias democráticas; e não há ditadura que resista às miniassembleias do parlamento familiar, ao charme dos pequenos estados-membro, aos acordos anti birras, às alianças e contratos de bom comportamento.

Porém, o lanche foi censurado.

Mas a avó disse que tu também comias pão com manteiga e açúcar quando eras pequena. Golpe baixo – desconfio que as minhas filhas andam a ver a AR TV nas minhas costas. Posto isto, esgotada que estava a via do diálogo, houve nova votação. O pai absteve-se, ganharam elas.

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Vamos ao pão com manteiga e açúcar, pronto.

A história da minha infância inclui algumas sandes com pão, manteiga e açúcar, é verdade. E também Cerelac e Nesquik às colheradas, tulicreme com o dedo, bolachas Maria com Nucrema, bombocas, sombrinhas de chocolate Regina (de vez em quando) e pastilhas Super Gorila (todos os domingos).

No Verão, lambuzava-me com os gelados da Olá Pé e Rol, os sumos Laranjina e o inimitável Capri-Sonne. As tortas da Dancake, as mais glicémicas da história da humanidade, só as descobri mais tarde, mas eram outra tentação, a par dos cigarros de chocolate e dos irresistíveis pirulitos.

Desse tempo ficou-me até hoje o gosto pelas batatas fritas Pála-Pála e pelo Nestum, dificilmente lhes resisto. Por isso, percebo muito bem por que razão os cereais com mel continuam a ser um dos produtos nacionais mais procurados pelos emigrantes portugueses espalhados pelo mundo.

Já dos caldos de Farinha 33 nunca fui grande fã. Ainda assim, lembro-me de recortar e colecionar os selos da mítica embalagem verde para trocar por figurinhas atléticas sempre que ia com a família ao supermercado.

Também brinquei muito com a Bota Botilde e com o Vai-Vem e, num registo mais improvisado, ao jogo do elástico, à mosca, à macaca, à cabra cega e à apanhada, isto na rua. Em casa, via o Bocas e o Tom Sawyer, a Dona Pimentinha, As Fábulas da Floresta Verde, o Panda Tao Tao e às vezes a Ana dos Cabelos Ruivos, todos contemporâneos da mira técnica da RTP.

Se há uma palavra capaz de definir cada infância, a minha é doce. Literal e simbolicamente doce. Até porque, provavelmente, estamos a falar da década com maior concentração de açúcar de todos os tempos. E agora, só por causa desta crónica, vou ali comer um bollycao e já volto.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.
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