“Palha de Abrantes, doce maravilha de origem conventual”, por José Martinho Gaspar

Palha de Abrantes. Foto: mediotejo.net

Durante séculos, o transporte de pessoas e bens, tanto no campo como nos espaços urbanos, fez-se com recurso a animais e a veículos de tração animal. Em Portugal não aconteceu de forma diferente e Lisboa, nas primeiras décadas do século XX, era uma cidade onde ainda abundavam os muares. Como era necessário alimentar estes animais, um “combustível” determinante na capital era a palha. Ora, a partir dos portos do Tejo da nossa região, nomeadamente de Abrantes, seguiam varinos carregados de palha, destinados a satisfazer essas necessidades.

PUB

O porto fluvial de Abrantes era conhecido como Porto das Barcas, designação que abrangia, na margem norte, uma faixa junto às Barreiras do Tejo e, na margem sul, uma outra faixa estreita mas profunda, junto ao atual Rossio ao Sul do Tejo, conhecida por Porto das Barcas de Além, denominação que surge num documento de finais do século XIV.

Os varinos ou barcos d’água acima eram embarcações à vela, de porte médio, de 15 a 20 metros de comprimento, de baixo calado, o que facilitava a deslocação nas águas baixas do Tejo, mas com uma capacidade de carga que se podia aproximar das 40 toneladas. Eram varinos porque, para além do leme, se recorria amiúde a uma vara para desviar o navio dos pontos mais críticos do rio, sendo também apelidados d’água acima por não passarem para lá da barra.

Varinos no Tejo, em Abrantes. Foto: DR

Em meados do século XVI, existiam aproximadamente 180 varinos em Abrantes e muitas dezenas por aqui se mantiveram até às primeiras décadas do século XX. Estas embarcações transportavam azeite, cortiça e palha em direção a Lisboa, pelo que o estuário do Tejo, ao fim da tarde, de águas cobertas de palha levada pelo vento, com o sol poente a dar-lhe tons dourados, ganhou o epíteto de “Mar da Palha”.

Mas, como se fez a ligação do vegetal seco ao doce? A tradição oral liga o nome Palha de Abrantes à imagem da palha, que vinda do Alentejo, passava por Abrantes a caminho dos estábulos de Lisboa. Algumas das praças do centro histórico de Abrantes, por nelas se realizarem os mercados da palha, chamavam-se Praça da Palha de Cima e Praça da Palha de Baixo, referimo-nos, respetivamente, ao Largo Dr. Ramiro Guedes e à Praça Barão da Batalha.

PUB

A origem de muitos doces tradicionais Abrantinos, nomeadamente da Palha de Abrantes, foram os conventos que se instalaram na vila no começo do séc. XVI, nomeadamente o Convento da Graça. Contudo, há quem afirme que a sua origem terá estado no Convento de S. Domingos, onde as claras dos ovos eram utilizadas para engomar os hábitos, ficando as gemas disponíveis para confecionar doces.

Segundo a lenda, a Palha de Abrantes resultou de um curioso acaso. No Convento de S. Domingos, um monge estava a preparar calda de açúcar enquanto outro batia uma porção de gemas de ovos. A dado momento, um dos monges avivou demasiado a fornalha a ponto de algumas faúlhas caírem sobre a calda de açúcar já em ponto. O frade que batia as gemas lançou mão da espumadeira e começou a retirar as faúlhas ao de leve. Ao ver que estavam a cair gemas de ovos, um terceiro monge sugeriu que se colocasse o recipiente da calda por baixo. Nisto, ocorreu o milagre: começou a formar-se na calda de açúcar uma espécie de palha de fios de ovos.

No n.º 23 da revista Zahara, num artigo de Joaquim Candeias da Silva, é divulgado um conjunto de receitas do antigo Convento da Graça, que teve por base um documento que integra o “Espólio Salgueiro”, depositado no Arquivo Municipal Eduardo Campos.

No que à Palha de Abrantes diz respeito, a receita apresentada é a seguinte: “Partem-se 34 ovos e tiram-se-lhe as claras e as peles. Põe-se 1 quilo de açúcar ao lume com uma pouca de agua e, de­pois de ferver um bom bo­cado, fazem-se os fios com o funil pró­prio. No mesmo açúcar deitam-se ou­tros 24 ovos bem ba­tidos (mas só 10 claras) e deixam-se cozer. Ficam assim feitas as sopas que se co­locam na tra­vessa por de­baixo dos fios.” Entretanto, à receita antiga foram acrescentados alguns ingredientes, nomeadamente folha de obreia e amêndoa moída.

Estas receitas estavam habitualmente envolvidas em muito secretismo e, inicialmente, apenas se faziam nos conventos. Quando entravam para os conventos, as donzelas nobres eram acompanhadas das suas aias, que tinham mais liberdade e convivência com o exterior, pelo que terá sido através delas, bem como por meio das lavadeiras que nas ribeiras próximas de Abrantes lavavam as roupas dos conventos, que as receitas chegaram a toda a vila e aos arredores da mesma.

A venda ao público da Palha de Abrantes em estabelecimento comercial iniciou-se em 1906, com a abertura da Casa Vigia, no atual Largo João de Deus, antigo Largo da Cruz do Pasteleiro, topónimo associado ao ofício de pastelaria.

Casa Vigia, em Abrantes. Foto: DR

Nota da redação: A Palha de Abrantes está na pré-final das 7 Maravilhas Doces de Portugal e passagem à Finalíssima, que decorre em setembro, depende do público. Para votar basta ligar 760 107 027, de 22 a 31 de agosto. A chamada tem um custo de 0,60€ + Iva.

PUB
PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here