“Outras guerras”, por Berta Silva Lopes

Foto: DR

O Ernesto não poderia imaginar o sobressalto que o seu desaparecimento provocaria na aldeia, se o adivinhasse talvez tivesse afugentado de si tal ideia, recusado tamanha tentação. Assim, foi grande o alvoroço nas suas gentes, nos vizinhos, nos velhos e novos que se puseram à procura dele por entre o casario, nas hortas, cabeços e vales das redondezas.

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Alguém entrou na igreja e deu o sinal. O sino a tocar, não a fogo, não a finados. Ninguém sabia do Ernesto, rapaz pacato, caseiro, solteiro. A mãe a confirmar o seu desaparecimento, nenhuma pista, a não ser que o rapaz não tinha pernoitado em casa, a cama feita, o pequeno-almoço a esfriar em cima da mesa. Jamais tal coisa tinha sucedido, dizia ela, exceção feita à noite em que foi conhecer a vida boémia do Cais do Sodré, horas antes da Inspeção Militar.

Da aldeia saíram então quinze rapazes aperaltados, roupa do domingo, o melhor calçado, uma bucha para o caminho e alguns escudos escondidos, distribuídos pelos bolsos das calças, dentro das peúgas e nas cuecas. Em Lisboa há muita malandragem.

Na cabeça, um objetivo: a defesa da pátria, alistar pelas Forças Armadas, a Cédula a confirmar a aptidão; fugir da lavoura, regressar à aldeia fardado a rigor, peito inchado, orgulho a esconder as dores da recruta, ambição para conquistar medalhas e patentes. Não se faz continência aos sonhos, ora essa.

Ao apeadeiro de Mouriscas chega uma carruagem apinhada de gente e marmitas, pequenos cestos de verga cheios de campo e vida – couves, galos e coelhos viram eles –, pronúncia e vestes da Beira. O comboio segue viagem ainda mais cheio. Abrantes, Tramagal, Santa Margarida, Praia do Ribatejo, Almourol… uma tarde inteira para chegar a Lisboa.

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Menos tempo demoraram eles entre Santa Apolónia e o Cais do Sodré, lugar mítico de pensões e discotecas, estreias e fartotes, mancebos perdidos nas ruas do pecado original, viagens celestiais em camas pouco lavadas, rodadas, desmanchadas.

No dia seguinte, todos em pelota à espera da sua sorte. Altura, peso, dentes, língua, olhos e ouvidos devidamente escrutinados. O capitão-médico, gago, a ditar as sortes ao furriel-sombra. Ficaram todos aptos, menos o Ernesto.

Afastado o espetro da Guerra Colonial, ficar apto era sorte boa, fazer a tropa e carreira militar, entrar na Polícia, casar, largar o arado, a vasilha da rezina, a talocha e a colher de pedreiro. Que alegria, as buzinas das motorizadas anunciando ladeira abaixo o regresso da rapaziada que foi à capital.

Enquanto os do seu ano fizeram o serviço militar, o Ernesto resgatou os bornais, os arreios e a albarda da burra e seguiu com as sementeiras. Com o tempo, livrou-se até da consciência pesada, das memórias da noite da inspeção, da imagem do barbeiro a quem passou os escudos por mor dele o livrar da tropa. Pois se o seu tio-avô tinha morrido na França, isso de ir à tropa só podia ser má sorte. Manuel Dias Grande, o único soldado da aldeia morto na I Guerra Mundial. Para si não queria o Ernesto semelhante desfecho. Pagou em coroas a sorte de ficar inapto.

Os dias, meses e anos seguintes desvaneceram tudo dentro de si menos a vontade de se fazer homem igual aos outros, em tudo menos nisso da tropa, voltar a ficar em pelota, deixar que lhe vistoriassem novamente o corpo, da cabeça aos pés, desta vez por uma mulher. E foi.

Só não contava adormecer, nem que toda uma aldeia se metesse à procura dele por tal vontade. O Ernesto passou na inspeção e ficou apto, se era para ir à guerra que fosse sem armas e tendo a cama como campo de batalha, corpo contra corpo, fadiga boa até à vitória final. Afinal, a guerra entre lençóis também cansa.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.
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