Ourém | Um encontro com o passado no Poço de João Loução

Equipamento foi requalificado este verão, num investimento de 3 mil euros da Câmara de Ourém Foto: mediotejo.net

No interior do concelho de Ourém ainda se recordam os tempos das idas à fonte ou ao poço. Afinal, constata-se, não foi assim há tantos anos. A canalização só chegou a boa parte do concelho depois do 25 de abril de 1974. No interior dos pinhais e eucaliptais, por vezes isoladas dos povoamentos, estas antigas estruturas populares foram-se degradando, tendo sido nos últimos anos alvo de obras de requalificação, quase sempre para reconversão em parques de lazer. Na freguesia de Atouguia, na zona da aldeia do Murtal, um poço, uma fonte e um tanque foram este verão alvo de uma aguardada intervenção. O lugar, designado Poço de João Loução, guarda em si uma história bem mais emblemática que o que à primeira vista pode aparentar.

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A avó leva a bilha de barro à cabeça sobre uma rodilha de pano – relíquias de meados do último século que hoje se circunscrevem às lojas de artesanato – e segue a passo cuidado, exemplificando a manobra ao neto de cinco anos, algo fascinado com tal proeza.

   –   Colocava-se assim a bilha à cabeça cheia de água e lá íamos nós todas contentes… Quando íamos lavar roupa era o alguidar…

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Noutros tempos de maior equilíbrio não era necessário segurar com a mão a bilha, explica rindo, fazendo-se assim várias dezenas de quilómetros pela serra. Só nos anos 80 é que na freguesia de Atouguia se deixou de ir às fontes e aos poços buscar água, ou aos tanques anexos lavar a roupa. A revolução da água canalizada não trouxe apenas saúde e condições sanitárias, criou também qualidade de vida e novas rotinas, nomeadamente no quotidiano das mulheres.

tanque agora limpo foi usado durante séculos como espaço para lavagem de roupa pelas mulheres destas aldeias Foto: mediotejo.net

A importância dos fontanários nesta parte do concelho de Ourém, um território fortemente calcário, criou identidade aos lugares. As estruturas foram construídas em alvenaria de pedra, umas com nicho rematado em arco, outras com cornija no frontão; umas munidas apenas de bica, outras complementadas por bebedouro para animais e tanque de lavagem de roupa com pedras batedeiras. São produtos do engenho e estratégia das gentes locais, que conseguiram deste modo captar e armazenar água não só para o trabalho agrícola mas também para a vida doméstica.

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Por esta zona é bem conhecida a “Lenda das Fontes”, que criou o topónimo “Fontainhas da Serra”, numa derivação de “Fontinhas da Serra”. O nome resulta da existência de um conjunto de fontanários que serviram de abastecimento de água a estas populações serranas durante séculos, até ao seu consecutivo melancólico abandono.

Mas se nas Fontainhas da Serra o aglomerado de fontanários deu espaço à construção, há cerca de duas décadas, a um bastante requisitado parque de merendas, o vale conhecido por Poço de João Loução caiu no esquecimento.

O terreno, segundo informação da junta de freguesia de Atouguia, é municipal, mas está completamente rodeado por propriedade privada, eventual razão para não ter sucumbido, como os espaços congéneres nesta autarquia, à avalanche de parques de lazer que acompanharam a requalificação dos restantes fontanários nos últimos anos.

Aqui existe uma fonte, um tanque usado noutros tempos para lavar a roupa e um poço bastante característico. Não há indicação de se a água é ou não controlada e os vizinhos mais próximos já não habitam a moradia.

O poço propriamente dito é uma estrutura característica em pedra, atualmente aparentemente seco Foto: mediotejo.net

Também não há propriamente informação sobre a existência do local, ainda que lhe sejam reconhecidas características históricas, existindo apenas a indicação do nome da rua do Poço de João Loução. O corte é na estrada principal (Estrada de Fátima), no Murtal, saindo do alcatrão e descendo um inclinado percurso de terra batida e pedra, rodeado por uma extenso e verde eucaliptal. Por aqui há ainda sobreiros e olivais centenários, sentindo-se o coração do concelho num percurso que é quase uma viagem no tempo.

Recentemente, respondendo a um pedido com dois anos do atual presidente da junta de Atouguia, António Pereira, o município de Ourém avançou com uma limpeza do espaço, cortando o mato, recuperando a calçada e pintando de branco a fonte e o tanque. O investimento, refere informação da Câmara Municipal, foi de cerca de 3 mil euros. A água sai agora clara e de um azul turquesa, dando apetite aos mais novos de transformar o tanque numa improvisada piscina.

“Em princípio não é para avançar com mais nada”, esclareceu António Pereira face a um contacto do mediotejo.net sobre o futuro do lugar. “Já há bastantes parques de merenda, alguns praticamente sem utilização, e todos eles precisam de manutenção”, explicou, trabalho esse que é um encargo, já pesado, da junta de freguesia.

apesar de praticamente isolado, rodeado por eucaliptais e olivais antigos, o vale do Poço de João Loução é propriedade privada Foto: mediotejo.net

Acresce que todo o terreno em volta do poço e fonte é privado, pelo que “também não há espaço”. A requalificação teve apenas por objetivo preservar o local, ainda bem presente na memória dos locais.

Da história do mesmo o mediotejo.net não conseguiu saber quem era João Loução, apenas que a fonte foi criada em 1816 para dar resposta às necessidades da população, numa época em que não existiam alternativas de abastecimento de água.

Imaginemos assim o período pós-invasões francesas, num concelho destruído e num país sem rei, num território isolado e fortemente rural, onde a água escasseava mas era essencial. Talvez assim se possa dar sentido a alguém cuja propriedade foi tão importante que se tornou bilhete de identidade territorial.

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