Ourém | Sérgio Ribeiro, o narrador inconveniente da História (c/vídeo)

Da Organização Internacional do Trabalho (OIT) às quintas ocupadas no Alentejo em 1975, entre outros episódios particulares, Sérgio Ribeiro foi um observador participante de vários dos momentos que marcaram o pós-25 de abril. O PREC e o verão quente de 1975 são revistos e recordados em “25 de Abril e depois” com um olhar nostálgico mas consciente de que vingou a versão dos vencedores, esquecendo-se que também se lutou com honestidade por uma causa. Sérgio Ribeiro falou com o mediotejo.net. 

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Quando se deu o 25 de abril de 1974, Sérgio Ribeiro já contava 39 anos. Atrás de si tinha uma vida movida entre Portugal e Bruxelas, formação em Economia, consciência política, atividade jornalística, registo na PIDE e um historial de largos meses na prisão. No dia da liberdade, estava preso em Caxias.

Sobre essa época é convidado com frequência a narrá-la nas escolas do concelho de Ourém, onde a memória da revolução já é muito ténue e formatada aos resumos oficiais. Admite que por vezes se torna inconveniente, por querer continuamente abordar temas que não são os da versão dominante e as verdades que a História esqueceu. “Mas eu não me canso, apesar de incomodar”, afirmou, numa das ultimas celebrações do 25 de abril, para a plateia do Museu Municipal.

Completou 83 anos em 2018 e quis mais uma vez recordar, deixando em registo alguns desses momentos dos quais guardou uma visão diferente da que ficou na História, através do seu livro publicado em novembro de 2016. No Museu Municipal lembraria ainda a figura do administrador do concelho Artur de Oliveira Santos, republicano que ficou ligado pela negativa aos acontecimentos de Fátima de 1917 e que conheceu pessoalmente. Figura cujo nome “vai andar este ano nas bocas do mundo em filmes e em séries de televisão e que não merecia ser tratado assim”, constatou.

Ao mediotejo.net Sérgio Ribeiro abordou também alguns destes episódios, mas em sua casa, no Zambujal, freguesia de Atouguia, Ourém, terra do seu pai, onde definiu residência após deixar o Parlamento Europeu, nos anos 90.

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Sérgio Ribeiro é deputado municipal em Ourém pelo movimento "Por Ourém", ligado ao PCP. FOTO: mediotejo.net
Sérgio Ribeiro é deputado municipal em Ourém pelo movimento “Por Ourém”, ligado ao PCP. FOTO: mediotejo.net

É uma casa térrea, com mais de um século, que nos mostra com entusiasmo após a nossa chegada. Tem os traços típicos das pequenas habitações rurais dos inícios de novecentos, com a sua grande lareira revestida com um frondoso tronco de madeira, o seu lagar, os quartos exíguos e uma sala de pequenas dimensões.

O espaço habitacional, explica, foi ampliado com os anos, ocupando os currais. Hoje esses anexos deram lugar à cozinha, sala de estar, a uma invejável biblioteca e a um acolhedor escritório, onde decorre a entrevista.

Parte do património bibliográfico que observamos é o que resta de uma livraria que chegou a possuir em Ourém, explica. Mas os livros espalham-se pela casa, ocupando todos os espaços livres, de filosofia, ciência política, economia, literatura, combatendo em dimensão cultural com os vários quadros expostos, todos de autores de renome.

Vai enumerando os artistas, já abrindo espaço à conversa que se seguirá e à sua ligação ao ideais marxistas e ao Partido Comunista português. Pelo caminho fala-nos um pouco dos percalços do seu doutoramento, que completou só em 1987, e que abordou os países sub-desenvolvidos e a importância do emprego para o seu processo de crescimento.

Sérgio Ribeiro esteve na OIT e no centro da Europa, ainda no tempo da CEE, e foi deputado municipal durante muitos anos na assembleia municipal de Ourém. As suas intervenções políticas ao longo dos anos, a força dos seus discursos, são recordadas por muitos dos que acompanharam as últimas décadas da sua vida autárquica.

Queremos assim ouvi-lo falar também um pouco sobre essa complexa União Europeia, um fenómeno chamado Donald Trump e este mundo estranho que parece regredir no tempo.

E, afinal, qual a visão que lhe fica hoje desses tempos tumultuosos do pós-25 de abril em que um ideal do coletivo pareceu então ser possível…

Porque é que decidiu escrever este livro?

Para dar testemunho. Uma das coisas que faço com mais gosto é contar o 25 de abril. Porque nós temos dificuldade em contar o nosso nascimento. O 25 de abril para mim foi um segundo nascimento. Eu saí da cadeia no dia 27 de abril e ao sair foi como se tivesse nascido outra vez. Quando as pessoas me pedem, as escolas e as associações, para eu contar como foi o 25 de abril – que é mais que um feriado, é um dia especial – eu gosto de contar, mas ao mesmo tempo vou ouvindo coisas sobre o que é que foi o 25 de abril e o depois do 25 de abril que não correspondem em nada ao que eu vivi. São o contrário daquilo que eu vivi.

Tenho escrito muito, gosto muito de escrever, exprimo-me melhor escrevendo do que falando. Ao ouvir contar o que é que foi o 25 de abril, que não corresponde nada ao que eu vivi, entendi que tinha o dever, a obrigação de dizer: Não foi assim! Eu vivi de outra maneira. Podem algumas coisas ter sido mais escondidas, mas o que eu vivi não foi isso. Quero dar testemunho.

Mas este livro já é o terceiro de uma série, cujo primeiro é “…porque vivi e quero contar” e o segundo “50 anos de economia e militância”. Em que eu conto coisas que eu vivi. No sentido também de com o meu contributo, por escasso que ele seja, não deixar que fique como histórico, como verdadeiro, o que não foi assim.

Mas o que não foi verdadeiro? Que ideias erradas é que encontra?

Eu no livro contei três episódios. O episódio da Ravasqueira, no sentido de mostrar que as ocupações no Alentejo não foram aquilo que nos dizem que foram. Aquelas que eu vivi e que vi não foram uma ocupação em que os trabalhadores violentamente, brutalmente, esmagadoramente fizeram tropelias, destruíram a propriedade. Não foi nada disso, não vivi isso. Bem pelo contrário. Com enorme respeito por aquilo que era deles, o seu trabalho, e o caso da Ravasqueira é esse caso. Não foi o apropriarem-se do que não era seu, do que tinha proprietários, pelo contrário. Foi apropriarem-se daquilo que era deles respeitando o contributo dos outros.

Foi um episódio que eu acho que é importante no livro e que foi muito importante para a minha vida. Foi o episódio do pagamento ao banco de um empréstimo que tinha sido feito aos anteriores proprietários para a sementeira. O caso é este: eu vim com um técnico da OIT conhecer um bocado da realidade ao fundo, no âmago. Fomos a uma unidade coletiva de produção e com o sindicato, com os trabalhadores rurais, pôs-se a questão das dificuldades que eles tinham.

Eles disseram que as dificuldades que eles tinham era o pagamento da dívida ao banco. Mas a dívida não era em nome deles, era em nome dos antigos proprietários. Pôs-se a questão: “mas então vocês querem pagar a dívida que não é vossa?”. Eles responderam: “Pois! Porque esse dinheiro foi emprestado pelo banco para fazer a sementeira. Eles fizeram a sementeira, nós fazemos a colheita. Nós vamos beneficiar do investimento feito através do banco. Então, nós temos que pagar! Se ficamos com a colheita, temos que pagar a sementeira”. É uma conceção completamente diversa daquela de quem se apropria: o terreno é nosso!!

Outro exemplo é o do salário mínimo, que agora se fala tanto. O salário mínimo que se definiu contratualmente para os metalúrgicos, os 6 mil escudos. Mas que tendo sido reivindicado 6 mil escudos, não foram 6 mil escudos que foi decidido, foi muito menos que isso, porque foi negociado. Nessa negociação poderiam ter exigido mais ainda, mas não. Exigiram menos. Esse episódio está escrito.

São três ou quatro casos muito significativos que eu vivi intensamente. E quando oiço dizer coisas…”ah… foi uma selvajaria, invadiram-se as coisas, ocupou-se selvaticamente…”.Não foi isso que eu vivi. Quando foi o caso das tecedeiras de Arraiolos, em que os antigos proprietários queriam ir para o Brasil com os cartões com que se fazem os tapetes de arraiolos, e isso foi impedido. Queriam levar para o Brasil uma coisa que é património cultural nosso. São exemplos desses que eu queria mostrar, entre o 25 de abril e 1º Governo Constitucional. Esse depois do 25 de abril foi um período criativo, de caminho novo.

Porque é que acha que tem vingado essa outra versão da História?

Porque os meios de comunicação e de transmissão da História, quer através da educação formal quer através de toda a comunicação social, estão orientados nesse sentido. A comunicação é muito manipulada. Estou a falar dos jornalistas, que têm o curso de jornalista.

Toda a comunicação faz-de dentro de um quadro de relações sociais. E as relações sociais são predominantes sobre outras. É evidente que aquilo que não serve o capital, o capital não facilita que seja divulgado. Aquilo que o serve, mesmo que não seja verdade, é divulgado. No meio disto há uma classe profissional, que é a classe profissional dos jornalistas, dos comunicadores, da comunicação social, que têm um papel dificílimo, complicadíssimo e são os primeiros a ser manipulados.

“As ocupações no alentejo não foram aquilo que nos dizem que foram. Aquelas que eu vivi e que vi não foram uma ocupação em que os trabalhadores violentamente, brutalmente, esmagadoramente fizeram tropelias, destruíram a propriedade. Não foi nada disso, não vivi isso. Bem pelo contrário”.

Fala também no seu livro sobre os saneamentos políticos…

(Lembra a história de ter encontrado um antigo funcionário do regime salazarista, ligado à censura, a trabalhar na OIT e de como este acabaria por ser afastado da função que desempenhava)

Quando se fala de saneamentos é evidente – se considera sanear os PIDEs – é evidente que os PIDEs tinham que ser saneados! Então nós que fomos torturados consentíamos que continuassem a ser funcionários públicos os torturadores? Deixávamos que continuassem os censores… Sabe o que eles faziam? Já viu algumas provas de censura?

Não. Quer dizer…nos livros de História…

(vai buscar uma arquivo com várias peças publicadas no Diário de Lisboa riscadas a lápis azul e outras cores)

Eu costumo contar em debates, em colóquios, uma coisa curiosa, pelo ridículo. Eu fui jornalista, escrevia crónicas para o Diário de Lisboa. Quando nasceu o meu filho João, em 1967, as primeiras férias que nós tivemos foi em agosto. Eu tinha saído da prisão em 1964, ele nasceu em 1967, e em agosto ele vai para a praia.

Levámos um miúdo com três meses à praia, com todos os cuidados inerentes. A mãe às tantas descobriu que na fralda havia qualquer coisa que não estava a correr muito bem e ficou muito preocupada. E diz-me: “estou preocupada porque o cocó do João está verde”. Eu escrevia crónicas para o Diário de Lisboa e escrevi isto na crónica de férias. Escrevi: “a mãe muito preocupada vem-me dizer que o cocó do João está verde”.

A censura cortou cocó!… “O do….João está verde”. Não se podia escrever cocó nessa altura. Isto é de um ridículo atroz! A censura ia ao ponto de impedir que um cronista, um jornalista, alguém que escrevesse nos jornais usasse a palavra cocó. Isto é caricato, mas o controlo ia muito mais fundo.

Já contou alguns dos episódios do depois do 25 de abril, mas nesse dia em particular estava na prisão de Caxias. Conte-me um pouco essa história.

(mostra fotografia do seu registo de preso em Caxias, a 18 de abril de 1974)

Eu tinha sido preso em 1963, até 1964. Depois continuei a minha atividade. Apesar de controlado pela PIDE – e por mim também para não correr riscos que me pudessem levar de novo à prisão-  mas nunca deixando de lutar. E estando ligado, por razões familiares, a Bruxelas, tinha grande contacto com jornalistas. Gente da rádio, gente da televisão. E na comunicação com eles contava-lhes coisas de cá. O 16 de março (Levantamento das Caldas da Rainha) deu algum burburinho na imprensa internacional. E vieram perguntar se eu podia ajudá-los numa reportagem cá em Portugal. E eu disse que sim.

(relata como andou com jornalistas belgas pelo país, escondidos da polícia, a gravar testemunhos de várias pessoas sobre o regime. Reportagem da televisão belga passou pelo Zambujal, Ourém)

(O jornalista) queria meter um ex-preso político, para contar o que eram as prisões políticas. Eu arranjei um camarada meu – o João Honrado que morreu no ano passado – e combinámos que o João Honrado ia ser entrevistado por eles para contar o que tinha sido a tortura, o que tinha sido estar, no caso dele, oito ou nove anos preso. Mas o João Honrado foi preso na véspera da entrevista. E quando lá aparece a equipa (dos jornalistas), eu digo-lhes: “vocês não podem entrevistar o João Honrado que ele foi preso”. “Mas tu não estiveste preso? Estive, mas foram dois anos, não tem nada a ver. Mas não havendo outro vais tu. Não, não, que eu não quero dar a cara!”. Insistiram comigo e eu coloquei a condição: haja o que houver depois deste trabalho que vocês estão aqui a fazer, se nós tivermos algum problema com a polícia, se formos presos, foi por vos ajudarmos. Pelo que vocês depois têm que nos ajudar a nós.

“A censura cortou cocó!… “O do….João está verde”. Não se podia escrever cocó nessa altura. Isto é de um ridículo atroz!”

Então faço eu a entrevista. Contei o que era a prisão, o que era a tortura e o programa na televisão belga passa no dia 2 de abril de 1974. Foi visto por todos os meios. E eu a dar a cara. E depois faço um disparate terrível. É que em vez de ficar em Bruxelas muito sossegadinho, vim a Portugal passar as férias da Páscoa. Fui preso. Foram presos três ou quatro daqueles que aparecem no programa.

(antes do interrogatório aos prisioneiros ocorre o 25 de abril)

Como é que viveu o dia 25 de abril?

Soubemos do 25 de abril através de um sinal que entre nós estabelecíamos. A comunicação entre os presos fazia-se parede com parede, através de toques. Um toque era A, dois toques era B, etc. Chegava-se a jogar xadrez. Na prisão o tempo tem 24 horas e há tempo para tudo. Uma das coisas que nós tínhamos como necessidade vital era de podermos comunicar com as pessoas estavam no isolamento. Eu estava isolado nessa altura.

Nós soubemos do 25 de abril através de um camarada por toques de buzina: “Golpe militar vitorioso, Marcelo caiu”. Ficámos a saber dentro da cadeia de um golpe militar no dia 25 de abril, no mesmo dia 25 de abril.

A noite (de 25 para 26 de abril) foi a noite em que fomos reféns da polícia, da PIDE. O golpe tinha-se dado, não sabíamos quem tinha ganho, sabíamos é que a PIDE nos tinha presos e que o diretor da PIDE não estava lá. Se o golpe não vencesse, ou se o golpe passasse uma fase violenta, nós éramos os reféns.

Não dormi nada nesse noite. No dia 26 vieram dizer-nos que íamos ser libertados. Estamos no pátio quando vem a contra-ordem, da parte do Spínola, dizer: “só saem alguns, não saem todos. Os que estejam aqui por suspeita de crime de sangue, esses não saem”. Por acaso não havia nenhum. O que nós dissemos foi: ou saem todos, ou não sai nenhum.

Voltámos às celas. Foi um momento de grande tensão. Depois, na madrugada de 27, porque na rua se exigia liberdade imediata para os presos políticos, nós saímos. E essa cena nunca esquecerei.

(lê uma passagem das suas memórias sobre a saída de Caxias)

Como olha hoje em dia para aqueles tempos depois do 25 de abril? Muito ingénuos?

Não. São anos de criatividade. Toda a vida social se faz numa relação de forças e de interesses, que não são coincidentes e às vezes são antagónicos. A relação de forças durante esse período depois do 25 de abril modificou-se e durante um período de 400 e poucos dias aqueles que estão sempre na mó de baixo tiveram a oportunidade estar mó de cima durante algum tempo, mas em conflito. E conquistaram imensa coisa. Conquistaram aquilo que nós hoje temos. Uma Constituição que é das mais progressistas que existe.

(…) Aquilo que se pretende pode ser uma utopia, pode ser ingenuidade. Mas não é ingénuo, não! Na altura tivemos força para impor isto.

Depois começou a haver possibilidade de delinear um plano médio prazo que fosse a construção de uma economia que possibilitasse – além da saúde, educação e também na economia – e a que se desse prioridade a duas coisas: ao emprego, para não haver desemprego, para que todos tivessem direito ao trabalho; e outra coisa que era muito importante, as necessidades essenciais. Quais são as necessidades essenciais que as pessoas têm? A alimentação, a habitação, os transportes, uma série de bens públicos. Isso foi definido.

Esse plano era um plano que vinha no Programa Mundial de Emprego, que Portugal iria ser o primeiro a executar, estabelecido pela OIT e pelas Nações Unidas, aprovado em 1976. Esse plano existe, foi aprovado pelo Governo de Mário Soares, mas para ser levado à prática teria que passar depois pela Assembleia da República. Nunca foi à Assembleia da República! Aprovou e meteu na gaveta. Avançou por outros caminhos que tiveram a ver com o FMI, com a adesão à CEE.

Tudo isto são coisas que têm a ver com o processo histórico, cheio de curvas e contracurvas. No livro eu mostro que, através de casos que são exemplares, havia outro caminho.

Sérgio Ribeiro é autor de vários livros sobre o 25 de abril. Em "25 de abril e depois" quis contar uma versão menos conhecida do verão quente de 1975 FOTO: mediotejo.net
Sérgio Ribeiro é autor de vários livros sobre o 25 de abril. Em “25 de abril e depois” quis contar uma versão menos conhecida do verão quente de 1975 FOTO: mediotejo.net

(A conversa perde-se, com Sérgio Ribeiro a dissertar um pouco sobre o modelo social e económico que defende. Mostra-nos também a sua tese de doutoramento, que defendeu em 1987, depois de anos na OIT percorrendo os países africanos)

Tudo passa pelo ser humano (…) Na minha concepção de vida e do homem há uma coisa que todos nós lutamos. Todos, mesmo sem o saber. É de ter tempo livre. A única liberdade que nós temos é essa. Tempo livre para podermos trabalhar naquilo que queremos e gostamos, porque é o trabalho que nos liberta. Que é também o que nos arranja o tempo livre. Isto parece tudo muito fácil… O que é que nós transformámos com o capitalismo? Transformámos o tempo livre em desemprego. Arranja-se uma máquina que substitui dez braços, são cinco homens. O que acontece? São cinco homens que vão para o desemprego. Não são cinco homens que ficaram libertos da função que a máquina pode fazer. A questão é esta.

O que acontece quando não há tempo livre?

É-se escravo. Ou da máquina, ou, muito pior, dos proprietários da máquina.

É um dos deputados que há mais tempo está na assembleia municipal de Ourém. Por vezes tenho a sensação, pelas suas intervenções, que fica um pouco frustrado com a aplicação da democracia. Estou certa?

Nem por isso. Frustrado não estou. Estou ali porque fui eleito. Estou ali para defender aquilo que me propus defender e que me deu votos suficientes para representar os outros. E estou ali por vezes com…não será frustrado…insatisfeito porque o que deveria ser um processo de aproximação das pessoas daquilo que é o seu destino, a sua maneira de organizar a vida, não se está a concretizar. Mas criaram-se condições para que isso seja possível. O ponto da Ordem de Trabalhos que eu mais gostaria que ocupasse a assembleia municipal é o ponto que quase ninguém liga. É o último.

A intervenção do público…

O público. Mas não está lá ninguém. Ou só vai lá defender o seu interesse pessoal. Houve uma altura que propus e concretizou-se que houvesse assembleias municipais em agosto, abertas aos emigrantes, para a temática da integração do emigrante na vida coletiva, embora que só de passagem. Propus que houvesse assembleias temáticas. Propus que houvesse assembleias não só em Ourém mas em várias terras do concelho. Houve em Fátima, houve em Caxarias, por forma a que as pessoas participassem nem que fosse só como assistentes. A democracia também é participativa, também têm uma palavra a dizer e acompanhar os que elegeram. Isto é utópico? Não é, isto é possível!

“Na minha concepção de vida e do homem há uma coisa que todos nós lutamos. Todos, mesmo sem o saber. É de ter tempo livre. A única liberdade que nós temos é essa. Tempo livre para podermos trabalhar naquilo que queremos e gostamos, porque é o trabalho que nos liberta”

Há uma única pessoa que faz aquilo como eu entendo que deve ser feito: é o Sérgio Faria. Vai a todas. Está sempre presente, a assistir, e uma ou outra vez interveio. Mas pelo menos é alguém que está a assistir às assembleias e quando votar, no próximo ano, sabe, tem a obrigação de saber, o que cada um defendeu.

“Então faço eu a entrevista. Contei o que era a prisão, o que era a tortura e o programa na televisão belga passa no dia 2 de abril de 1974. Foi visto por todos os meios. E eu a dar a cara. E depois faço um disparate terrível. É que em vez de ficar em Bruxelas muito sossegadinho, vim a Portugal passar as férias da Páscoa. Fui preso. Foram presos três ou quatro daqueles que aparecem no programa”.

Mas essa insatisfação às vezes dá-me zanga. Porque…é muito curioso a assembleia municipal (sorri). Se o Governo central é do PS e se a câmara é do PS, a assembleia municipal defende o Governo central. Se o Governo central é do PSD e a assembleia é do PS, a assembleia municipal está contra o Governo central. Depois há questões que são completamente à margem e isso dá-me uma insatisfação enorme. O caso do serviço nacional de saúde. Como é que é possível ficar-se muito satisfeito porque se vai para Leiria com os doentes? Quando isso resulta ser fechado Tomar. Quando isso resulta numa privatização da saúde ou da doença. O que se devia defender é uma rede pública a que todos tenham acesso.

Mas é muito melhor que a (época) que vivi! Estou muito satisfeito que haja uma assembleia municipal em que funciona a democracia representativa. Funciona é mal. Mas existe. Tem que se pôr a funcionar bem.

Ia-lhe perguntar o que pensa do estado atual da democracia, mas em parte já respondeu.

Nós temos uma situação muito complicada historicamente. E Portugal neste momento está a ser uma prova interessantíssima ao nível da ciência política. Porque em Portugal encontrou-se uma solução de democracia representativa que noutros países não foi possível.

Há neste momento uma insatisfação enorme da população de todo o mundo, daquela que vota, em relação ao sistema, ao regime política que existe. Que se reflete em quê? Reflete-se nas eleições dos EUA, nas eleições na Grécia, em vários lados, sem haver alternativa. Na minha perspetiva. Em Portugal acontece o mesmo mas há uma alternativa que é ténue. O que quero dizer com isto? Que há um partido que não se submete ao regime, não se submete ao sistema, e que se apresenta como alternativa. Que por enquanto não tem força. Mas existe. Noutros lados não existe.

Como vê a ascensão da extrema direita no geral nos EUA, na França, na Turquia, etc?

Com grande preocupação. Porque mais uma vez na história da humanidade, a humanidade demora muito tempo a aprender. A História, não se repetindo, de vez em quando parece que se repete. É preciso lembrar o perigo concretizado dos anos 30 com a ascensão da extrema direita. Hitler foi eleito por votos, pela insatisfação das populações. Que é o que está a acontecer agora. A ascensão da extrema direita não está a ser por golpe militar. Não está a ser por reação de insatisfação a um sistema violento, mas por reação do sistema contra o sistema.

*Artigo publicado originalmente em novembro de 2016, republicado em abril de 2019

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