Ourém/Qatar | A consultora de imagem das mulheres que se escondem

Elisabete Reis (Foto: mediotejo.net)

A mãe nasceu em Ourém, o pai em Fátima. Encontraram-se em Moçambique, onde nasceu em 1972 a filha, Elisabete Reis. O 25 de abril trouxe a família de volta ao concelho e a Fátima. Mais tarde mudar-se-iam para Lisboa. Elisabete não parou, correu mundo, chegou ao topo da carreira de hospedeira de bordo, para depois largar tudo e dedicar-se à família e à sua grande paixão: a consultoria de imagem. Hoje é essa a sua profissão no Qatar, país situado junto aos Emirados Árabes Unidos, onde as mulheres se cobrem de preto. Perguntamos-lhe como se faz consultoria de imagem a mulheres que se escondem. Ela sublinha: em público! Na privacidade são mulheres iguais a todas as outras. Fomos tentar compreender o mundo onde Elisabete Reis se move.

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Elisabete Reis recebeu na segunda-feira, 5 de novembro, o “Editor’s Choice Award – Fashion Game Changer”, atribuído na gala Grazia Style Awards, evento anual realizado no Qatar que premeia projetos e personalidades ligados à área da moda e das marcas. Elisabete Reis é fundadora e diretora-geral do projeto Glam Your Image, trabalhando com marcas do Médio Oriente.

Ourém/Qatar | A consultora de imagem das mulheres que se escondem
Elisabete Reis (esq.) é consultora de imagem no Qatar. Foto: D.R.

Para compreender o mundo onde Elisabete Reis se move é preciso sairmos da nossa realidade e imaginar que vivemos num país quente, com um elevado nível de riqueza, onde uma mulher, mesmo que assim o deseje, não precisa de trabalhar. Onde há motoristas, cozinheiros, amas, lojas de luxo onde é possível gastar dinheiro e onde as festas organizadas por mulheres incluem apenas mulheres, 2 mil pessoas com a roupa que Versace, Valentino e seus similares. No universo onde Elisabete Reis trabalha as mulheres vivem uma rotina de vida muito particular, voltada para a intimidade e para o bem receber. Na rua não se reconhecem. Na privacidade vivem a moda de forma mais excessiva que as ocidentais.

São estas características que Elisabete Reis procura explicar ao mediotejo.net em Fátima, terra da sua infância, onde vem passar alguns dias para organizar uma velha casa de família. Por aqui viveu uma parte da vida, ainda possui tios e primos com quem convive e aqui gosta de regressar, visitando Fátima ou os Castelos de Ourém e Leiria, espaços que guarda na memória. Aos 23 anos começou a trabalhar na Air Macau e mudou-se para o (então) território português na Ásia. Ali conheceu o marido, natural do Algarve, que em 2006 foi contratado para trabalhar na Liga Profissional de Futebol do Qatar. Já no topo da carreira e com dois filhos, decidiu mudar de vida e mudar-se com a família para o Médio Oriente.

É neste fase que começa a investir em formação em consultoria de imagem, realizando diversos cursos em Singapura, Londres, EUA, etc. “Tentei tirar cursos com a maior diversidade possível de corpos e culturas para poder ajudar o mais número possível” de pessoas, explica, salientando o quanto acredita na educação e formação por forma a prestar um serviço profissional de qualidade e com profundidade. Após este investimento abriu a sua empresa, “Glam your Image”, e começou a criar contactos. Mais tarde formou-se também em etiqueta e protocolo, ao constatar as lacunas que existiam a esse respeito no meio em que se movia.

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“Detesto fazer trabalhos de estilismo em loja, porque as pessoas não aprendem nada”, frisa. Para Elisabe Reis é importante que uma pessoa se aprenda a vestir, que conheça o seu corpo e o estilo com o qual mais se identifica, para aprender, também, a apresentar-se e a escolher por si próprio as roupas que se adequam a cada situação. Trabalhando hoje sobretudo em workshops, refere que acaba por focar-se bastante em mulheres que estão numa fase de transição, entre uma fase jovem e menos jovem, em que já não sabem como se vestir.

Mas queremos saber como este tipo de trabalho funciona no Qatar, onde uma mulher em público usa niqabs, roupas pretas com as quais só deixa visíveis os olhos. “Só andam tapadas na rua. Na sua vida pessoal são mulheres super glamorosas, têm imensos eventos só para mulheres. Debaixo da abaya (vestido preto, do pescoço para baixo) vestem tudo do bom e do melhor. Tirando a abaya são mulheres como nós que querem aprender como se vestir”, explica.

Elisabete Reis frisa o perigo das generalizações e de como no Ocidente acaba por se confundir bastante os tipos de vivência muçulmana nos diversos países islâmicos, nem todos possuindo a mesma rigidez. No Qatar, por exemplo, “a mulher tem bastante poder de decisão, mas segue a sua religião e cultura”, explica. Tiram cursos superiores e muitas trabalham, embora para uma larga camada simplesmente não haja necessidade disso. Sempre foi bem recebida, mesmo como ocidental, e tem conseguido crescer com o seu negócio.

Constata porém o factor económico desta comunidade, que torna o seu trabalho focado nas marcas de luxo, embora muitas vezes as suas clientes não hesitem em comprar peças de lojas como a Zara e a H&M, desde que achem a roupa bonita. Os guarda-roupas acabam por ser muito variados e o seu trabalho torna-se mais interessante.

O seu crescimento enquanto profissional no Qatar acabou por torná-la representante de uma marca de abayas, chamada Debaj Colletion, o que a torna bastante conhecedora dos rituais de roupa femininos naquela zona do mundo. “Não somos diferentes, somos de culturais diferentes”, frisa, descrevendo mulheres curiosas e interessadas que também querem saber como é a vida noutra culturas. “Perguntam o que gostamos de fazer, a nossa vida em casa, qual a rotina, onde vamos quando saímos, as lojas favoritas”, vai enumerando.

Mas isto é um outro mundo, com características muito próprias, que se torna difícil de descrever para quem desconhece a realidade. Em casa, os dois filhos e a filha mais nova de Elisabete Reis falam português na perfeição e são ferozes adeptos do Benfica. Adoram as praias do país dos pais. “Somos cidadãos do mundo”, comenta, lembrando todo o seu percurso, de Moçambique ao Qatar, referindo que os progenitores sempre a incentivaram à aventura. “Acabamos por dar mais valor a certas coisas. Comer uma bola de Berlim é super especial”.

Queremos ainda saber como Elisabete Reis vê a mulher portuguesa em termos de imagem. “Não se conhece, não investe na sua imagem”, vai analisando. “É extremamente bonita mas nem sempre se trata bem. Somos o oposto da mulher árabe, que se trata demais. A mulher portuguesa é despreocupada”, refere, embora frise toda a sua autonomia. “Há muito trabalho a fazer ainda por ela…”

*Publicada originalmente em maio de 2016 *Republicada em novembro de 2018

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