Ourém | Paulo Vieira, o investigador fatimense que está a estudar os parasitas das plantas

Fotografia de Paulo Vieira a receber o prémio nos EUA Foto: Paulo Vieira

Paulo Vieira, 42 anos, natural da aldeia do Moimento, freguesia de Fátima, recebeu recentemente o Prémio Syngenta, uma distinção conjunta da Society of Nematology dos Estados Unidos da América (EUA) e da empresa Syngenta. Numa breve entrevista via email, a partir dos EUA, o investigador explicou ao mediotejo.net um pouco do seu trabalho, a importância do prémio e as implicações da sua investigação na vida quotidiana.

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Licenciado em Biologia pela Universidade de Évora e mestre em patologia vegetal pela mesma instituição, Paulo Vieira é ainda doutor em patologia vegetal pela Universidade de Nice (França). Atualmente trabalha como investigador no Laboratório de Nematologia da Universidade de Évora.

Desde sempre um curioso na área das ciências naturais, o fatimense tem-se debruçado sobre os microorganismos que afetam as plantas e que nem sempre são valorizados no âmbito agrícola, mas que colocam em risco a floresta nacional. É nesta área que quer continuar a desenvolver o seu trabalho.

foto de uma raiz de soja com os nematodes (Pratylenchus penetrans) coloridos a vermelho. Exemplo do trabalho de Paulo Vieira Foto: Paulo Vieira

mediotejo.net: Recebeu um prémio na área da Nematologia. Consegue explicar-me de forma simples que área é esta e do que trata exatamente a sua investigação?

Paulo Vieira: A Nematologia é uma disciplina que se dedica ao estudo de nemátodes. Os nemátodes são animais na sua grande maioria microscópicos (inferiores a 1 mm), e constituem o grupo de animais multicelulares mais abundante no planeta! A minha investigação centra-se principalmente no estudo de nemátodes parasitas de plantas, e quais os genes do nemátodes envolvidos durante a sua interacção com a planta.

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Qual a importância deste Prémio Syngenta, que recebeu recentemente? 

Este prémio é normalmente atribuído a “jovens investigadores” e está relacionado com a investigação desenvolvida na área da Nematologia. A Society of Nematologists nos EUA é uma das mais prestigiadas sociedades científicas da área, e receber um prémio por parte desta Sociedade é sempre um momento de orgulho na carreira de um investigador.

Que implicações na vida do quotidiano pode ter a sua investigação?

Os nemátodes fitoparasitas têm uma enorme importância a nível global. Este tipo de parasitas de plantas produzem um impacto negativo na ordem dos biliões de dólares/ano em sistemas agrícolas, e florestais.

Muitas das vezes este tipo de organismos é negligenciado, e de certa forma, desconhecido por grande parte dos agricultores em Portugal. Dessa forma, a investigação nesta área permite-nos não só perceber qual é a espécie causadora da doença na planta, como perceber quais os mecanismos moleculares que permitem ao nemátode parasitar e completar o seu ciclo de vida.

Um exemplo da minha investigação foi a descoberta do nemátode da madeira do pinheiro (Bursaphelenchus xylophilus) em Portugal, e estudos relacionados com a usa origem, e taxonomia do grupo. Este nemátode ainda hoje se apresenta como uma forte ameaça à floresta Portuguesa (especialmente pinheiro bravo), bem como a toda a floresta de coníferas na Europa.

Este nemátode ainda hoje se apresenta como uma forte ameaça à floresta Portuguesa (especialmente pinheiro bravo), bem como a toda a floresta de coníferas na Europa

Tinha algum interesse especial em criança por microorganismos ou foi uma área que descobriu posteriormente?

Eu sempre demonstrei muito interesse pelas Ciências Naturais, nomeadamente pela Zoologia. Contudo, foi apenas durante a minha licenciatura que percebi o que realmente era a Nematologia e a grande diversidade deste grupo de animais.

No final da minha licenciatura participei em alguns projectos relacionados com nemátodes do solo e tive a oportunidade de trabalhar com o nemátode da madeira do pinheiro. Depois disso optei por focar toda a minha investigação de mestrado e doutoramento nesta área.

Quais são neste momento as suas ambições de futuro?

Um dos temas que me fascina nesta área é a forma como estes animas microscópicos conseguem induzir doenças, e em alguns dos casos, utilizarem as células da planta como autênticas “fábricas de produção de alimentos”, como é o caso do nemátode das galhas-radiculares.

A maioria destes nemátodes fitoparasitas têm células especializas (a que chamamos de “glândulas esofágicas”) responsáveis pela produção de proteínas que o nemátode secreta durante a interação com a planta, e que lhes permite parasitarem a planta. Muitas dessas proteínas são totalmente novas para a ciência e com função desconhecida.

O estudo desse(a)s genes/proteínas permitirá saber qual a sua função e importância, e serem potencialmente utilizadas como alvo para o desenvolvimento de novas medidas de controlo para este tipo de parasitas de plantas.

Sabia do voto de reconhecimento da Câmara de Ourém? Como o recebeu?

Não! Apenas tive conhecimento do prémio depois de ser contactado por outro jornal acerca da atribuição do prémio da Syngenta nos EUA. Fiquei muito lisonjeado por este voto de reconhecimento por parte da equipa que integra neste momento a Câmara de Ourém. Desde já, o meu muito obrigado!

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