Ourém | Na encosta do Castelo há uma Mulher Morta

Estrada que atravessa o lugar tem pouco mais de 500 metros e fica na encosta do morro do Castelo de Ourém Foto: mediotejo.net

Há um lugar na encosta do monte do Castelo de Ourém, entre Beltroa e Santo Amaro, no término dos resquícios de uma antiga calçada medieval de origens romanas, que recebeu o nome de “Mulher Morta”. A toponímia, como não podia deixar de ser, tem-lhe associada uma lenda de paixão. O cruzeiro que se encontra no centro do lugar, diz a narrativa, marca o local onde terá sucedido o episódio fatal. Já a terra em si facilmente se atravessa sem que nos apercebamos que saímos dela, atravessada por menos de um quilómetro de estrada e constituído por pouco mais de uma dúzia de casas. 

PUB
O cruzeiro de Mulher Morta marca a antiga encruzilhada entre as vias que seguiam para Santarém, Leiria e Porto de Mós Foto: mediotejo.net
Junto ao cruzeiro que marca o centro do lugar existe um altar à Rainha Santa Isabel. A imagem recorda que estamos num antigo condado que pertencia à Casa de Bragança Foto: mediotejo.net

A história segue o princípio de um filme americano: boy meets girl (rapaz conhece rapariga). “Em tempos, um cavaleiro enamorou-se por uma jovem residente da aldeia, que correspondeu ao seu afeto”, explica uma tabuleta informativa, colocado no trajeto em pedra que compõe a “Calçada de Nossa Senhora da Conceição”, um velho percurso medieval com origens que remontam a uma via do período romano que desce desde as muralhas até ao lugar.

O pai da jovem, porém, não aprovou o romance. Numa tentativa de fuga, a apaixonada correu rua fora, sendo perseguida pelo pai que lhe atirou com uma enxada. Morreu no local onde os vizinhos, afetados pelo sucedido, a enterraram e ergueram o cruzeiro, que ainda hoje ali permanece.

O nome chama pelo inusitado, mas o lugar é constituído maioritariamente por moradias. Não há café, nem capela, sendo um dos muitos pequenos lugares que circundam o morro do Castelo de Ourém, hoje designado vila medieval, onde se situa a Igreja da Sé Colegiada.

As casas de jardins floridos, frequentemente de estores ou portadas fechadas, paredes alvas e telhado à portuguesa, oferecem um certo requinte beirão à paisagem rural, conferindo-lhe um misticismo nobiliárquico característico de todo o monte do Castelo de Ourém.

PUB
A calçada de Nossa Senhora da Conceição é um trajeto histórico construído sob uma antiga via romana, que desce desde a muralha até Mulher Morta Foto: mediotejo.net
Vista de Mulher Morta a partir da calçada de Nossa Senhora da Conceição Foto: mediotejo.net
Vista do Castelo de Ourém e Paço dos Condes a partir de Mulher Morta Foto: mediotejo.net

Terra de santos condestáveis, reis e princesas aprisionadas em torres, junto ao cruzeiro há um altar à Rainha Santa Isabel, lembrando que estes lugares eram da propriedade de nobres ligados à realeza. O cruzeiro, com data de 1611, possui também uma simbólica geográfica, uma vez que constituía a antiga encruzilhada de caminhos para Leiria, Porto de Mós e Santarém.

Recentemente, numa lógica de promoção do Castelo e da sua herança histórica circundante, foi marcado por aqui um troço da Rota Carmelita, primeiro percurso sinalizado dos novos Caminhos de Fátima. Quem decide fazer o trajeto pelo Castelo de Ourém e o Paço dos Condes, desce depois o morro peça calçada de Nossa Senhora da Conceição até ao cruzeiro de Mulher Morta, indo ao encontro do restante percurso já na freguesia de Atouguia.

A ideia, adiantou ao mediotejo.net o presidente da junta de Nossa Senhora das Misericórdias, Luís Oliveira, é dar a conhecer ao visitante a calçada e o próprio cruzeiro de Mulher Morta, uma vez que o lugar em si é pouco divulgado, conhecendo-se sobretudo a lenda popular.

Sabe-se que a calçada de Nossa Senhora da Conceição tem uma continuação. Por baixo do piso existente no largo do cruzeiro, atualmente em calçada portuguesa, foram descobertos em 2016 os vestígios da calçada histórica, no âmbito de um projeto de requalificação daquela área.

Segundo explicou na ocasião a Chefe de Divisão de Ação Cultural do município, Ana Saraiva, optou-se por voltar a cobrir os vestígios, por forma a preservá-los.

“Se fosse só trânsito pedonal não havia problema”, sublinhou, mas uma vez que ainda passam carros optou-se por proteger o património e continuar com a obra de calcetamento.

A responsável comentou ainda que se um dia deixar de existir a passagem de automóveis no local, poderá equacionar-se trazer novamente os vestígios medievais à luz do dia.

Existe uma calçada histórica, atualmente coberta por calçada portuguesa, no largo do cruzeiro. Município quis preservar os vestígios, dado que ainda existe ali circulação automóvel. foto Câmara Municipal de Ourém. Largo Mulher Morta

Na Mulher Morta, logo depois do almoço, reina o silêncio, só cortado pelo latido ameaçador dos cães de rua que não parecem estar habituados a estranhos. As casas estão fechadas e ninguém passa. O café mais próximo ficará no cimo do morro, junto à Igreja da Sé Colegiada, já na vila medieval. Andamos mais uns metros e já estamos fora dos limites do lugar.

A presença do Castelo dá à paisagem a sua graça, num manto verde composto por oliveiras e mato variado que muito diz sobre a terra. A estrutura deverá entrar brevemente em obras de fundo, dando à vila uma nova dinâmica e eventualmente potenciando as lendas esquecidas destes lugares.

calçada de Nossa Senhora da Conceição é atualmente parte de um percurso pedestre. Foto: mediotejo.net
PUB

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here