Ourém | Feira do Adro, aquela tradição centenária que insiste em sobreviver (c/vídeo)

Feira do Adro celebra por esta época a Senhora das Candeias, festividade comum a várias localidades da região Foto: mediotejo.net

Há quem diga que isto já não é como antes e que a cada ano vai esmorecendo. Por altura da Senhora das Candeias (ou Nossa Senhora da Purificação), 2 de fevereiro, decorre no Olival, concelho de Ourém, a Feira do Adro, uma feira franca tradicional desta freguesia que durante décadas constituía um momento importante no ano para adquirir ferramentas agrícolas, entre outros produtos e plantas próprios à época, acompanhando a festividade religiosa. Os colares de pinhões são a bandeira das feiras deste período do ano e com eles resiste uma tradição que pode não possuir já o entusiasmo de outrora, mas ocupa ainda um lugar de prestígio na vivência comunitárias destas aldeias. 

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No sábado, a meio da tarde, Irene da Conceição, feirante de Rio de Couros (Ourém), não tinha mãos a medir para a clientela. “Não se pode parar, senão não vendo”, comentava atarefada, entre medidas de azeitona ou tremoços, bolos e frutos secos, sem esquecer os colares de pinhão, que só não tinha mais, explicava, porque o fornecedor não teve quantidade para lhe vender. Mas pinhão nesta feira era o que mais havia, constatava, pelo que Irene fazia negócio era com os restantes produtos.

Estacionara ali, mesmo à beira da estrada principal, às 05h00, um local estratégico para ter a sua carrinha mais a jeito. O frio fazia-se sentir desde madrugada e nem os agasalhos e a tarde atarefada pareciam ser suficientes para esquecê-lo. Falhou a chuva que marcara a véspera e que fez temer pela afluência, mas Irene salienta que já houve anos piores em termos climatéricos e a feira sempre se fez. Há 40 anos que anda nesta vida e sabe do que fala.

Como está o pinhão este ano? “Está bom, está bonito. Vem do Alentejo”, adianta, referindo que o preço se manteve, assim como a qualidade. Os clientes vão passando, vão perguntando, provando, e acabam por levar. Irene será das bancas com mais atividade esta tarde. Animada e faladora, não pára. Entra nota, saem moedas; da carrinha vai tirando bolos de abrir o apetite para o lanche. Está sozinha na azáfama e ainda tem tempo para dizer umas palavras à jornalista: “estou aqui porque é tradição e já não sei fazer outra coisa”.

Mais abaixo, Fátima veio de Pombal de propósito para esta feira, também vendendo na sua pequena banca os pinhões da época. O entusiasmo, porém, é mais moderado. Ao mediotejo.net comenta que de ano para ano a feira vai diminuindo, os mais velhos, que são o grosso da clientela, vão desaparecendo e os mais novos não mostram tanto interesse por este tipo de eventos. Mas Fátima continua a fazer estas feiras. “Faz parte da minha profissão, nunca fiz outra coisa”, reconhece.

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Diz a narrativa católica que, 40 dias após o nascimento de Cristo, Maria e José foram apresentar o filho ao Templo de Jerusalém. Este foi também o momento em que a Virgem Maria se “purificou”, depois de um período de resguardo devido ao parto. A mesma história refere que, aquando a apresentação do menino, foi proferida uma profecia de que este seria uma “Luz para aclarar os gentios e glória de Israel”. Nasceu assim o culto à Senhora das Candeias/Senhora da Purificação, que possui uma Basílica importante, com uma história de aparição, no Tenerife, nas Ilhas Canárias. A data referente a este culto é o 2 de fevereiro.

Do centro do certame, numa iniciativa organizada nos últimos dias para animar o evento, o presidente da junta de Gondemaria/Olival, Fernando Ferreira, surge com um grupo de concertinas em arruada pela feira. Temeu-se a tempestade, mas o dia está claro e solarengo, não obstante o frio.

Este ano, reconhece o presidente, o número de feirantes é menor, eventualmente devido ao facto de a data ter coincidido com um sábado, embatendo com feiras noutras localidades. Mas a agitação da tarde de dia 2 era a suficiente para que os presentes estivessem a fazer negócio, prometendo um balanço positivo ao fim do dia.

A iniciativa das concertinas foi uma novidade deste ano, explicou o autarca, numa tentativa da junta de freguesia de também manter e promover a Feira do Adro, tradição centenária associada à época das plantações e respetiva aquisição de ferramentas. Desses tempos ainda bastante permanece, com as bancas de pinhões e frutos secos, de roupa e enxovais, mas sobretudo de comidas e bebidas a competirem com várias exposições de árvores de fruto e raízes ou sementes prontas ao cultivo. “Em tempos idos era aqui que as pessoas compravam as ferramentas para ir fazer as podas”, recordou.

A feira coincide com a festividade religiosa da Senhora das Candeias, que na mesma tarde organizou uma bênção às crianças, mães e grávidas. “A nossa obrigação é manter a tradição”, comentou o presidente.

À saída, cheira a castanha assada, distribuem-se copos de vinho e ouve-se ao longe as concertinas ainda a tocar. Vizinhos e conhecidos encontram-se, cumprimentam-se, trocam-se informações, discutem-se preços, bebe-se um copo e revivem-se memórias de outros tempos. “Quer provar?”

Os carros têm dificuldade em atravessar a estrada principal tal a agitação de pessoas. Uma fogueira em brasa foi pensada para aquece os mais friorentos, mas as pessoas acumulam-se em grupos junto às bancas de petiscos. A rede de telemóvel tem estado a falhar nos últimos dias pela localidade, pelo que estamos isolados da modernidade durante o tempo que passamos na feira.

E, a bem da verdade, por estes eventos o telemóvel não faz falta nenhuma…

 

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