Ourém/EUA | Uma paragem no mítico Sport Club Português de Newark

Jack Costa e Silvia Rodrigues, dirigentes deste clube português em Newark, um dos mais antigos dos EUA Foto: mediotejo.net

Por aqui passaram Presidentes da República, Primeiros Ministros e figuras do mundo português, como Amália Rodrigues ou Gago Coutinho e Sacadura Cabral. Estamos em Newark (Nova Jérsia, EUA), no bairro de Ironbounde, na Ferry Street. A importância da paragem no Sport Club Português de Newark pela Fanfarra dos Bombeiros Voluntários de Ourém a 7 de junho – no programa da viagem de agradecimento aos emigrantes nos EUA que decorreu entre 6 e 10 de junho – é inalienável de uma qualquer viagem que se empreenda pela história norte-americana da emigração lusa do último século, em particular a ouriense. Em Newark sediou-se uma das maiores comunidades portuguesas nos EUA, atualmente em decréscimo.

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Este clube recreativo, desportivo e cultural, instalado num elegante edifício centenário, foi durante décadas o ponto de chegada dos emigrantes portugueses, que a partir dali eram encaminhados para habitação e postos de trabalho na zona, ajudando-se rapidamente à legalização. A História hoje parece quase fantástica, mas é uma parte da extraordinária narrativa de ascensão dos EUA e da instalação de uma grande comunidade portuguesa nesta região.

Fundado em 1921, o Sport Club Português de Newark já existia oficiosamente antes, associado a competições de futebol. O clube esteve mesmo para ficar ligado ao Sporting, mas acabou por integrar outras atividades culturais e educativas e, dadas algumas questões burocráticas, constituiu-se como Sport Clube Português. Na época, existiam em Newark apenas 200 portugueses, sendo este o clube português mais antigo da região de Nova Jérsia e um dos mais antigos dos EUA.

Quem nos narra a história é Jack Costa, antigo presidente do Sport Club Português de Newark e atual vice-presidente da Assembleia-geral, um apaixonado pela cultura portuguesa que veio para os EUA em 1999, ainda criança, e que insiste em combater a perda das tradições culturais entre os lusodescendentes e velhos emigrantes. Sendo o trabalho no clube todo ele voluntário, é necessário uma grande dedicação e esforço, uma grande vontade, para manter vivo o espírito comunitário, com toda as atividades que este envolve.

À chegada, os bombeiros encontraram um animado ambiente de festa popular Foto: mediotejo.net
Arraial na rua, um edifício extremamente elegante e requintado no interior, com traços da arquitetura dos inícios do século passado. O Sport Club Português de Newark é o testemunho da chegadas da emigração portuguesa à região Foto: mediotejo.net

Este “é um ponto de encontro”, reflete o dirigente, “hoje já não há muita emigração, mas durante muitos anos este foi o ponto de chegada de encaminhamento dos emigrantes portugueses, que depois eram encaminhados para alojamento e trabalho”. Os homens iam para a construção, as mulheres para as fábricas de costura e de peixe, nos inícios do século XX.

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Ao longo do século passado as dinâmicas foram mudando. Nos anos 80, quando se verificou nova vaga de emigração, os homens já iam sobretudo para os restaurantes e as mulheres para as limpezas, acompanhando o encerramento das fábricas naquela zona. Com a crise a afetar Portugal, em 2011 o clube registou novo impulso migratório, tornando a servir de ponto de referência. Entre as diversas atividades proporcionadas pela associação, esta envolve atualmente cerca de mil pessoas por dia.

Se o futebol foi a ideia original que fez unir os portugueses residentes na zona de Newark, hoje a oferta deste clube é extremamente variada. A Escola Portuguesa Luís de Camões, filiada ao Instituto Camões, possui atualmente 190 alunos, com professores credenciados para o ensino. O clube possui também um rancho com um centena de elementos, com núcleo infantil e adulto.

Acresce o grupo de bombos, o grupo de arte e literatura e o grupo de juventude. “Temos eventos todos os fins de semana”, destaca o responsável, sempre num ambiente bastante familiar, possuindo o clube também uma componente mais social, reunindo os mais idosos em tardes de convívio.

“Isto é uma missão”, afirma, “se não fizermos este trabalho morre a cultura portuguesa, os jovens integram-se completamente na cultura americana e Portugal é apenas o Cristiano Ronaldo”. “Por isso nos matamos a trabalhar”, reflete. “Quando num evento vejo uma criança a dançar o rancho, penso «é por isto!»” que continua a esforçar-se para manter o espírito associativo entre os portugueses.

Amante da cultura lusa, Jack Costa mostrou aos bombeiros o museu do Sport Club, que registou a passagem de Gago Coutinho e Sacadura Cabral Foto: mediotejo.net

Há três meses na direção do Sport Club Português de Newark, Sílvia Rodrigues também chegou aos EUA ainda criança e partilha do mesmo entusiasmo do colega. “O que eu quero é trazer os portugueses para os clubes, não só a juventude. Quero trazer aqueles que frequentaram o clube há 20 anos e saíram para outras zonas”, comenta.

A vida agitada nos EUA pode potenciar o distanciamento das raízes culturais. “Os portugueses estão tão envolvidos nas vidas deles que as coisas acabam por perder-se”, constata, “mas também parte dos clubes arranjar atividades” que os captem.

A visita a este clube envolve um pouco de choque visual. Ante o ambiente de arraial na rua, com farturas e sardinha assada, numa estrutura mais popular, deparamos-nos com um cenário chique e glamouroso no interior, com serviço de bar, num decor iluminado em tons quentes a lembrar a Belle Époque e bonitos painéis de azulejo com cenas cavaleirescas e da Lisboa dos descobrimentos.

O Sport Club Português de Newark é um marco da emigração nacional para terras americanas ao longo do século XX, naquela que já foi uma das maiores comunidade lusas instaladas nos EUA, hoje em decréscimo. Há ainda também registo da passagem pelo espaço de Gago Coutinho e Sacadura Cabral.

João Moura e Filipe Baptista, chege de gabinete da presidência de Ourém, entregaram lembranças ao Sport Clube Português de Newark Foto: mediotejo.net

A visita ao Sport Club Português contou ainda com um momento oficial, onde os responsáveis entregaram uma história do clube à comitiva ouriense e guiaram o grupo numa visita ao museu particular. O presidente da Assembleia Municipal de Ourém, João Moura, teve oportunidade de assinar o Livro de Honra, documento cujo primeiro registo data de 1948 do Navio Escola Sagres, mas possui também assinaturas de Presidentes da República, Primeiros Ministros e de Amália Rodrigues.

“Sentimos-nos em casa”, comentou João Moura, manifestando orgulho por poder assinar o Livro de Honra e frisando o trabalho de conforto e apoio que o clube português ofereceu aos emigrantes ao longo das décadas. “Vemos muito reconhecido o vosso trabalho, a importância daquilo que fazem”, sublinhou. “É um enorme prazer estar aqui convosco a falar a língua de Camões”.

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