Ourém/EUA | José Mendes, um ouriense no coração do “Ground Zero”

José Mendes, natural do Casal Branco, trabalha na manutenção do Memorial 9/11, em Nova Iorque Foto: mediotejo.net

Na sequência do desabamento das Torres Gémeas, após os ataques de 11 de setembro de 2001, na cidade de Nova Iorque, EUA, o local dos destroços ficou conhecido como “Ground Zero”, termo utilizado para designar um espaço na superfície da terra onde ocorre uma explosão ou o centro da destruição provocada por uma grande catástrofe.

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Há sete anos, após uma década de trabalhos de limpeza e reconstrução, a antiga área do World Trade Center deu origem ao Memorial 9/11, um museu abaixo de duas “piscinas”, que marcam o sitio onde estavam as Torres Gémeas.

Na segunda-feira, 10 de junho, no âmbito da viagem da Fanfarra dos Bombeiros de Ourém à comunidade portuguesa nos EUA, encontramos por ali José Mendes, um ouriense que trabalha na manutenção da estrutura e que vai observando todos os dias o crescimento do lugar como espaço de memória da maior tragédia que atingiu o coração da América do norte. 

Natural do Casal Branco, freguesia de Nossa Senhora das Misericórdias, Ourém, José Mendes tem 58 anos e encontra-se oficialmente nos EUA há 29 anos. Em 1986 fez uma primeira tentativa de residência, juntamente com um grupo de nove pessoas da zona de Ourém, entrando no país via México, de forma ilegal, escondido num carro.

“Lembro-me de passar fome na viagem, comer feijão enlatado”, conta resumidamente a experiência, que durou duas semanas. O percurso fez-se por Tijuana, atravessando a fronteira em San Diego. Esteve ainda em Los Angeles até chegar finalmente a Nova Iorque.

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À semelhança de outros portugueses que encontramos na viagem, a passagem para os EUA via México não é algo que gostem de recordar, em parte devido ao estatuto de ilegal, hoje um problema que assume complicadas dimensões nos EUA. José Mendes ficou algum tempo e começou a trabalhar no processo de legalização, mas acabou por regressar a Portugal, onde tinha já família.

Em 1990 foi contactado pelo advogado, dando conta que, se quisesse, poderia regressar com toda a família regularizada, uma vez que o processo tinha continuado e havia condições de aceder à legalização. Assim sucedeu: satisfeito, José Mendes e a família chegaram a 9 de setembro de 1990 com os papéis em ordem, residindo atualmente em Yonkers, no Estado de Nova Iorque.

As “piscinas” são dois monumentos em forma de cascata na área onde existiram outrora as Torres Gémeas. Em redor estão registados os nomes das vítimas Foto: mediotejo.net

Para a época, conforme formos percebendo por vários testemunhos, o processo de regularização de José Mendes foi um caso rápido e de sucesso. O ouriense trabalhou sempre na construção civil e acabou por naturalizar-se norte-americano, até que há cinco anos foi contactado por Luís Mendes, o português que dirigiu a limpeza e reconstrução do “Ground Zero” e ocupa atualmente o cargo de vice-presidente sénior do Memorial 9/11, a oferecer-lhe emprego no monumento.

“O Luís, que liderou a reconstrução, era meu amigo desde que aqui cheguei”, recordou ao mediotejo.net. “Ele fez o projeto para a Igreja portuguesa de Yonkers” e “eu ofereci-me para colocar o azulejo no espaço, de graça, porque não havia dinheiro”, recorda. “Ele viu o meu trabalho e não hesitou em chamar-me para cá”.

Muita gente lhe diz que trabalhar no Memorial 9/11 é um privilégio. O trabalho de José Mendes faz-se sobretudo no exterior, junto às designadas “piscinas”, os dois monumentos em cascata que ocupam a área das antigas Torres Gémeas. No Museu “há muitas pessoas que não aguentam, começam a chorar e vão embora”, constata, “mesmo junto às piscinas, comove um pouco”, vendo pessoas agarradas aos painéis a chorar e a deixar flores. “Habituamos-nos, mas no início custava-me”, confessa.

Há quem deixe junto às “piscinas” fotos e outros objetos, havendo uma equipa específica que os recolhe. Conforme foi explicado ao grupo pelo guia da visita ao Memorial 9/11, há muitas vítimas que permanecem por identificar, em parte porque estavam ilegais, com documentos de identificação falsos, e veio-se a perceber que os dados existentes não estavam corretos. Sempre que aparecem objetos junto a esses nomes que nunca foram reclamados, o dispositivo está preparado para ir tentar encontrar as pessoas que os deixaram e juntar mais informação ao longo processo do 11 de setembro, musealizado por baixo do monumento.

José Mendes ocupa-se da manutenção da zona exterior do Memorial 9/11, tendo acompanhado a Fanfarra na visita ao Museu, onde se encontram vários destroços do desastre Foto: mediotejo.net

Perguntamos ainda a José Mendes se ainda se lembra onde estava na fatídica data. “Estava a trabalhar em minha casa, em Yonkers, e fui buscar algum material. Quando fui ao escritório para pedir a fatura vi na televisão a primeira torre a arder. Corri para casa e apanhei já o segundo embate”, recorda. “Ficou tudo cheio de medo, eram só chamadas de Portugal”, lembra, mas a família nunca pensou em partir, fazendo visitas frequentes ao país. “A saudade aperta”, confessa.

Como tantos outros, José Mendes adaptou-se à vida nos EUA. “Em 1986 houve uma grande crise de trabalho”, lembra, e muita gente da zona de Ourém começou a pensar em emigrar. Na primeira tentativa de residência, fez a viagem para o México com um grupo de nove pessoas. “Enchi-me de coragem e vim”, recorda, admitindo que a experiência inicialmente foi complicada porque deixara um filho em Portugal.

Entretanto a vida organizou-se e o seu percurso fez-se por terras do Tio Sam. “O patrão era português, nem do inglês precisava”.

No Memorial 9/11 encontramos ainda Renato Baptista, um guia português, com raízes em Alvaiázere (distrito de Leiria, delimita com Ourém na zona de Freixianda), que faz a visita ao grupo da Fanfarra. O museu do Memorial, a 25 metros da superfície, recebe uma média de 10 mil pessoas por dia, número que não tem parado de crescer desde a sua inauguração em 2012, refere.

Morreram a 11 de setembro de 2001 seis portugueses no World Trade Center. Atualmente, adiantou Renato Baptista, tem-registado uma segunda vaga de mortes associadas à tragédia, devido à inalação de fumos tóxicos provocada pelo desabamento das Torres Gémeas, com o aparecimento de cancros específicos e precoces em pessoas que estavam nas redondezas do incidente.

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