Ourém | Carina João Oliveira prepara alunos da INSIGNARE para a revolução 4.0

Carina Oliveira foi eleita secretária no comité executivo do organismo europeu EfVET – European Forum of Techinical and Vocational Education and Training. Foto: Insignare

Saída das Infraestruturas de Portugal (IP), a fatimense Carina João Oliveira foi a figura escolhida em 2018 para ocupar a direção da INSIGNARE – Associação de Ensino e Formação, que tutela a Escola Profissional de Ourém (EPO), a Escola de Hotelaria de Fátima (EHF) e a INSIGNEPLUSHOTEL, que gere a Pousada Conde de Ourém.

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Carina João Oliveira sucede a Francisco Vieira, o visionário empreendedor responsável pelo sucesso e qualidade da instituição e, um ano depois, acaba de ser eleita secretária na equipa do comité executivo do organismo europeu EfVET – European Forum of Techinical and Vocational Education and Training, um Fórum que congrega escolas profissionais e vários parceiros de educação e formação profissional de toda a Europa.

Carina João Oliveira acredita que há muito a fazer na área da inovação e do empreendedorismo e que a função da INSIGNARE é preparar os seus alunos para a revolução tecnológica que se aproxima: a revolução 4.0. O universo do digital, das energias limpas e da tecnologia que vai inevitavelmente marcar o futuro das novas gerações.

O mediotejo.net recupera a entrevista da jornalista Cláudia Gameiro à secretária-executiva da INSIGNARE, realizada um mês depois de tomar posse na direção da instituição de Ourém.

A entrevista tem lugar na cantina da EPO, em plena hora de almoço. Carina Oliveira chega da Câmara de Ourém, onde foram recebidos os alunos do intercâmbio “3D Students – Democracy Digital and Dialogue”, iniciativa dentro do projeto Erasmus + que a INSIGNARE promove há vários anos. São 22 adolescentes provenientes de Espanha, Turquia, Polónia e Itália. Carina fala com entusiasmo do projeto e do que ele representa para os jovens ainda em idade escolar. Uma oportunidade de ganhar “mundo”, observa, contactando com realidades diferentes às que estão habituados.

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Carina João Oliveira iniciou funções como diretora da INSIGNARE há pouco mais de um ano. Tem 41 anos, é engenheira civil de formação, com uma pós-graduação em gestão e liderança pela AESE Business School, e trabalha desde 2000 nas Estradas de Portugal, hoje IP. Entre 2009 e 2015 fez um interregno na sua vida profissional para se dedicar à causa pública, tendo exercido funções como deputada, pelo PSD, na Assembleia da República. Uma experiência que marcou o seu percurso e que aconselha a todos.

Regressada à agora IP, foi integrada numa unidade de Estudos e Estratégia, trabalhando no setor que prepara a empresa para o futuro da circulação rodoviária, onde os carros elétricos e sem condutor ganham cada vez mais terreno. Um mundo, conforme constata, que vai alterar completamente diversas áreas da nossa vida quotidiana, com dilemas éticos que só agora começam a ser questionados.

Carina João Oliveira acredita que há muito a fazer na área da inovação e do empreendedorismo e que a função da INSIGNARE é preparar os seus alunos para a revolução tecnológica que se aproxima: a revolução 4.0. O universo do digital, das energias limpas e da tecnologia que vai inevitavelmente marcar o futuro das novas gerações.

A INSIGNARE é uma associação de ensino detida pela ACISO – Associação Empresarial Ourém Fátima, Câmara de Ourém e Centro de Estudos de Fátima.

Junto aos alunos do programa Erasmus + e alguns da EPO, Carina João Oliveira fala com entusiasmo dos projetos de intercâmbio da INSIGNARE Foto: mediotejo.net

mediotejo.net (MT): Como recebeu o convite para a direção da INSIGNARE?

Carina João Oliveira (CJO): Foi tudo muito rápido. Recebi com o mesmo entusiasmo e surpresa com que muita gente, do exterior, se apercebeu. Isto foi mesmo muito rápido. Foi uma coisa que eu decidi numa semana. Eu acho que aos 40 anos temos um bocadinho este ponto de situação na vida, que é: o que é que eu estou a fazer e o que é que eu ainda quero fazer. E quando surgiu um convite tão diferente como este eu pensei: “porque não? parece giro! vamos a isto!”. Foi exatamente com este espírito de aventura que aceitei este convite de diretora executiva da INSIGNARE.

Dizia-me que vem do estudo das áreas do futuro. O que fazia extamente na IP e como esse conhecimento pode ser utilizado agora nas escolas?

Eu estava a dirigir um pequena unidade de estudos e estratégia que estava a antecipar as tendências e o futuro da mobilidade, ou seja, os novos veículos conectados, inteligentes, autónomos, com outras fontes de energias como os elétricos, e tentávamos antecipar essas vertentes para saber como iríamos adaptar as nossas infraestruturas a essas realidades. Seja a rodoviária, que vai precisar de uma estrada inteligente onde anda um carro inteligente, como também depois a conjugação das duas redes (a rodoviária e a ferroviária). Fazíamos um bocadinho esta antecipação do futuro e saber como a empresa se iria adaptar e reagir a estas novas formas de mobilidade.

Nisto para duas escolas profissionais, eu costumo dizer que não há melhor contraponto. Porque as escolas são o futuro. E se eu quero dar o futuro também às escolas e se as escolas têm esta vertente de ter o saber fazer muito enraizado na raiz do ensino profissional, nada melhor do que ter duas escolas e prepará-las para o mundo que aí vem.

Nós estamos numa quarta revolução industrial, que muita gente já disse que é uma revolução silenciosa. É uma revolução grande de hábitos, de tendências, de mercado de trabalho, de emprego, da forma como nós nos organizamos, de comportamento de sociedade. Nada melhor do que as escolas para anteciparem também esse futuro. As escolas profissionais, por maioria de razão, com uma vertente muito grande de ligação ao mercado de trabalho. Para a indústria 4.0 que aí vem nós vamos precisar de escolas 4.0.

E portanto é sempre nesta interligação destes dois mundos que eu vejo as escolas. O saber fazer, que neste momento está enraizado e está focado naquilo que são as áreas tradicionais do saber, que nós conhecemos e que nós formamos; mas nesta revolução industrial e tecnológica que está a haver e de alteração de paradigma de sociedade, o que é que nós temos que antecipar e fazer para preparar estes miúdos e preparar os seus empregos para conseguirem depois dar resposta ao futuro que aí vem.

“Nós estamos numa quarta revolução industrial, que muita gente já disse que é uma revolução silenciosa. É uma revolução grande de hábitos, de tendências, de mercado de trabalho, de emprego, da forma como nós nos organizamos, de comportamento de sociedade. Nada melhor do que as escolas para anteciparem também esse futuro”.

Grande desafio…

Uma coisa tem toda a ver com a outra. Alguém que esteja a olhar para o futuro e a perceber o futuro que aí vem, tem necessariamente que pensar nisto do ponto de vista da educação. Eu não sou professora, a parte pedagógica está com os melhores, aqueles que sabem o que estão a fazer. Mas antecipar este futuro e vocacionar as escolas para esta raiz do profissional acho que é um grande desafio.

Foi também deputada. O que acha que essa experiência lhe pode trazer de benéfico para esta nova função?

CJO: Não sei se é esse o termo… Todos os sítios por onde passei acho que me deram bagagem, conhecimento e competências para conhecer o mundo. Do ponto de vista de um palco nacional como aquele que foi a Assembleia da República… digo isto muitas vezes: vi o palco, sei o que são as palmas, mas também sei os bastidores. O perceber como é que estamos organizados em termos de país, toda a gente devia passar por lá. Ajuda certamente que haja uma bagagem de conhecimento adicional àquilo que estou a fazer hoje aqui, como noutro sítio qualquer. Tenho conhecimento do mundo, sobretudo isso.

O que retirou dessa experiência na Assembleia da República?

Conheci a fundo a natureza humana. Com tudo o que tem de bom e de mau.

Está há um mês na INSIGNARE. Como têm sido estas primeiras semanas?

Fantástico, é só um mês, tem sido uma experiência muito boa. É intenso do ponto de vista da quantidade de assuntos, são duas escolas. Mas tem sido muito gratificante e apanho precisamente o início da preparação do próximo ano letivo. Não tenho tido grande tempo para respirar.

Vem substituir uma pessoa que era um peso nesta instituição, o Francisco Vieira. Como é receber essa responsabilidade?

É muito grande. Eu tenho um respeito e uma consideração muito grande pelo Francisco, acho que eram mútuos também. A melhor homenagem que lhe podemos fazer é continuar o seu trabalho. A responsabilidade é mesmo muito grande, de substituir uma pessoa que é insubstituível, ou pelo menos que foi um visionário na forma como teve a seu cargo o projeto destas escolas. É continuar e dar futuro, para que o trabalho não fique por aqui.

Um dos projetos do Francisco Vieira era a nova Escola de Hotelaria, que ele ainda ambicionou ver lançar a primeira pedra, o que não sucedeu. Como está esse projeto?

A arquitetura do projeto está aprovada e decorre neste momento o projeto de entrega das especialidades até final de março/abril. Estamos na parte burocrática/administrativa de tramitar todo o processo. Depois sim, é para começar.

Quando acha que seria possível ter a escola concluída?

Não lhe consigo dar um prazo. Enquanto estivermos nesta fase do processo, que tem timings próprios e aprovação em várias entidades, tudo isto obedece a calendários que nos saem das mãos. Não vou sequer apontar uma data.

E a questão do financiamento, já está assegurado ou será outra batalha?

Vai ser uma outra batalha…

Tem algum projeto pessoal que gostasse de desenvolver nas escolas ou ainda não pensou muito nisso?

Já pensei em alguns, tanto numa escola como noutra. Eu gostaria bastante que nas duas escolas se reforçasse a vocação do ensino profissional. Ourém com a parte tecnológica, tornar Ourém uma escola 4.0 efetivamente para esta indústria que aí vem. Dotar a raiz da cultura de inovação da escola. Dar aos miúdos a oportunidade de serem eles próprios empreendedores do seu projeto. Se eu conseguir que com a escola estes miúdos ganhem, mais que uma profissão e uma qualificação, a vontade de eles próprios quererem ser empreendedores, eu gostava muito que isso acontecesse. Vou fomentar ao máximo para que isso possa acontecer.

Da mesma forma em Fátima, mas são outro tipo de áreas. São áreas prioritárias também para o contexto nacional, a hotelaria e o turismo, aquilo que é a qualificação de mão de obra muito qualificada. Nós estamos a fazê-lo e queremos posicionarmos cada vez mais para que isso aconteça.

Tenho tantas coisas que já tenho em aberto, mas que não posso estar já a dizer (risos). Mas há muita coisa para fazer. Acima de tudo, dar futuro a estas duas vertentes: seja a parte de hotelaria e turismo, que também tem uma carga de inovação associada, seja a parte das escolas 4.0 tecnológicas aqui em Ourém, com a parte da inovação tecnológica que também tem associada.

“A melhor homenagem que lhe podemos fazer é continuar o seu trabalho. A responsabilidade é mesmo muito grande, de substituir uma pessoa que é insubstituível, ou pelo menos que foi um visionário na forma como teve a seu cargo o projeto destas escolas”.

O ensino profissional ainda é visto como um ensino de segunda ou isso já não acontece?

Nem já nem nunca. O ensino profissional é um ensino de primeira. Essa eu gostaria que fosse considerada uma batalha, não é minha mas da sociedade, pela valorização social do ensino profissional. Qualquer profissão é digna, desde que as pessoas a saibam fazer. É tão valorizável um médico que saiba tratar os seus doentes, quanto um cozinheiro que tenha estrelas Michelin. Essa valorização das profissões em plano de igualdade acho que é uma batalha de toda a sociedade. Mas cada vez mais o ensino profissional dá resposta a um mercado muito exigente do ponto de vista global, mas muito dinâmico. Isto de ter um canudo académico já não é significado de competência ou de profissão. No ensino profissional estamos a falar de taxas de empregabilidade próximas dos 100%.

Tem condições de me fazer um balanço de como está a correr o projeto INSIGNEPLUSHOTEL?

Está a correr muito bem e funciona como um complemento das nossas atividades da hotelaria em Fátima, portanto, como hotel um bocadinho de aplicação àquilo que muitos dos nossos alunos estão a estudar. Há uma potencialidade muito grande em tudo o que são as atividades junto ao Castelo de Ourém.

Eu acho que se tem sentido também cada vez mais quer turismo, quer rotas, quer pessoas a ir ao Castelo. Sente-se alguma dinâmica, de que há coisas a começar a acontecer. Espero que venham cada vez mais, quer rotas turísticas quer promoção de eventos no Castelo, para a Pousada também estar sempre bem posicionada para poder fazer parte desse conjunto. Tem uma taxa de ocupação muito simpática. Há muito por fazer, mas o saldo é positivo e é satisfatório.

*Entrevista publicada em março de 2018, republicada em maio de 2019

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