Ourém | António Marujo, “muita gente relaciona-se com Deus só por vir a Fátima” – ENTREVISTA

Especialista em temas religiosos, António Marujo considera que Fátima ainda irá crescer mais no panorama espiritual internacional Foto: mediotejo.net

Considerado um dos maiores jornalistas portugueses de temas religiosos, vencedor por duas vezes do Prémio John Templeton para o Jornalista Europeu de Religião do Ano, António Marujo lançou recentemente a página de notícias online “7 Margens”, dedicada à temática religiosa e espiritual. Autor de “A Senhora de Maio: Todas as perguntas sobre Fátima”, entre outros livros de conteúdo jornalístico sobre Papas e a religião em Portugal, António Marújo é presença assídua na cidade religiosa ouriense. Na senda deste novo projeto, e alguns dias antes de se anunciar a realização da Jornada Mundial de Juventude em Portugal, em 2022, o mediotejo.net quis perceber junto do especialista qual o espaço de Fátima no mundo noticioso e na espiritualidade nacional. 

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A abrir, uma entrevista com o músico Pedro Abrunhosa e o seu mais recente disco “Espiritual”, numa conversa que atravessa a necessidade de transcendência do ser humano. Estava dado assim o mote para o “7 Margens”, um jornal digital que se define como “orientado por critérios jornalísticos profissionais e independente de qualquer instituição, religiosa ou outra. Divulga informação sobre o fenómeno religioso, no sentido mais amplo do termo, não se confinando à atualidade das diversas confissões e crenças estabelecidas”.

Num país onde a maioria dos órgãos de comunicação de cariz religioso/espiritual estão ligados a instituições religiosas de variada ordem, a nova página de notícias sob direção de António Marujo chama pelo inusitado. O jornalista pretende que este seja um espaço que ofereça uma visão ampla sobre a religião e a espiritualidade, que não se confina às diferentes doutrinas e as coloca na perspetiva da vida e das necessidade humanas. Há assim também espaço para a discussão de temas relacionados com os direitos humanos, a liberdade ou a democracia.

No centro deste debate está Fátima, e o papel da cidade religiosa no país e no mundo católico. António Marujo reconhece na cidade uma posição particular na vivência religiosa e espiritual atual, constatando que muitos dos que visitam o Santuário traduzem assim a única relação objetiva com o divino que têm nas suas vidas.

Acredita por tal que Fátima continuará a crescer no mundo católico e a afirmar-se como um importante espaço de devoção.

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mediotejo.net (MT): Como surgiu este projeto, o “7 Margens”?

António Marújo (AM): Surgiu em primeiro lugar porque era uma ideia que eu tinha, há muitos anos, de fazer um órgão de comunicação que se dedicasse a estes temas, de uma forma profissional. Não exatamente a partir de dentro da instituições, mas a partir de um olhar jornalístico, no sentido de dar ao fenómeno religioso a importância que me parece que tem. Seja na vida das pessoas individualmente – há estudos sobre o assunto que o confirmam – seja na vida das sociedades.

Basta olhar para questões como alguns conflitos, algumas guerras, a intervenção social que muitos fazem em nome da sua fé, em nome das convicções religiosas que têm em grupos, em instituições, ou às vezes até individualmente. Ou até na forma de estar de muita gente, que não estando envolvida diretamente em coisas religiosas tem, no trabalho ou em experiências que faz, uma atitude que lhe vem dessa matriz.

Nós achamos que o religioso se cruza com muitas áreas da vida humana e portanto temos que estar atentos também às áreas que tocam a dignidade humana, os direitos humanos, a liberdade, a democracia, os problemas da economia, as injustiças sociais, a questão da falta de liberdade religiosa no mundo, os desafios éticos colocados por muitos avanços científicos, as questões da educação, da família, etc.

Tudo isso, com a experiência que fui tendo – sobretudo no “Público” onde trabalhei 23 anos – me fez pensar: ok, agora é chegado o momento de fazer uma coisa, do ponto de vista profissional, que olhe para isto mas com um olhar alargado. Nós no “7 Margens” temos desde uma entrevista ao Pedro Abrunhosa a falar de um disco, que foi um dos temas de abertura, até um texto publicado hoje sobre o debate que houve ontem no Parlamento acerca do Pacto das Migrações, que em si não é uma matéria estritamente religiosa.

Trabalhamos numa perspetiva muito larga. Nós achamos que o religioso se cruza com muitas áreas da vida humana e portanto temos que estar atentos também às áreas que tocam a dignidade humana, os direitos humanos, a liberdade, a democracia, os problemas da economia, as injustiças sociais, a questão da falta de liberdade religiosa no mundo, os desafios éticos colocados por muitos avanços científicos, as questões da educação, da família, etc.

No fundo é dizer assim: tudo o que é humano pode caber aqui, tudo o que é próprio da atividade humana pode caber aqui, porque isso se cruza quase sempre com convicções pessoais, com questões religiosas, sejam elas do ponto de vista individual seja do ponto de vista coletivo.

Julgo que já me respondeu um pouco à minha questão seguinte, que se prende com o Estatuto Editorial. Refere que vão divulgar “informação sobre o fenómeno religioso, no sentido mais amplo do termo, não se confinando à atualidade das diversas confissões e crenças estabelecidas”. O que quer dizer exatamente com isto?

Quando preparámos o Estatuto Editorial foi exatamente para vincar essa ideia de que o que nos interessa, em primeiro lugar, não são instituições, sendo que obviamente temos que dar importância às instituições. Esta semana é óbvio que estamos muito centrados no que está a acontecer no Panamá, por causa do Papa, das Jornadas da Juventude…

…a expetativa de Portugal ser eleito o próximo destino das Jornadas… [anunciado posteriormente a 27 de janeiro]

Exatamente. Mas independentemente de ser Lisboa a próxima cidade estaríamos a dar atenção, apesar de ser um acontecimento promovido por uma instituição, de estar lá o Papa, que é a figura que é, etc. Mas para lá da instituição, que obviamente temos que ter sempre em atenção, claro que o que nos interessa é em primeiro lugar a vida das pessoas.

Essa manifestação de que às vezes essa vida tem uma tradução mais explicitamente religiosa, outras vezes isso confunde-se com questões do espiritual, ou mais de uma busca de sentido, ou mais até de experiências novas que andam por aí a nascer e que têm a ver com procuras que as pessoas fazem. Que não são religião no seu sentido institucional e estabelecido, mas são o reflexo dessas vontades das pessoas de tocar o mistério da nossa existência.

Confirma então a minha perspetiva de que estão a preencher uma lacuna no mercado, uma vez que não existe um jornal desta natureza?

Eu acho que em Portugal – como eu estou nisto há perto de 30 anos – nós assistimos a um crescimento da atenção dos jornais, das televisões e das rádios ao fenómeno religioso, sobretudo ali no início da década de 90. O “Público” teve responsabilidade nisso, o aparecimento de algumas rádios privadas também. Depois o aparecimento de novas televisões privadas, embora um bocado por arrastamento sobretudo, eu acho, do “Público”.

O que aconteceu foi que na última década e meia, com o esvaziamento progressivo das redações, com a crise dos jornais, a crise do jornalismo, se começou a assistir de novo a um retraimento no tratamento destas matérias. Isto fez com que se abrisse outra vez um campo enorme para trabalhar estas questões e de uma forma independente, profissional.

Independente que não significa dizer mal ou ser crítico, ou estar a favor deste ou daquele. Não. Independente é olhar para as coisas, noticiar o que acontece, da forma mais rigorosa possível, e ter esse olhar distanciado, embora uma olhar que perceba dos assuntos, que esteja atento ao que se passa, conheça bem as pessoas, as fontes, etc.

O que acontece muito com a religião, ao contrário do que se passa noutras áreas – com a política, com o desporto, com a economia – é que [os media] não têm pessoas preparadas e sistematicamente a acompanhar o que se passa. Porque obviamente acompanhar uma área de noticiário implica saber o que passa, saber o que anda a correr.

Abriu-se de facto essa lacuna e nós achámos que é altura de a preencher. Noutros países há muita coisa feita exatamente a partir dos jornalistas, que não está “presa” a uma lógica institucional. Mas em Portugal isso raramente aconteceu e os poucos anos em que isso aconteceu esvaziou-se rapidamente.

Os media portugueses interessam-se atualmente por questões religiosas/espirituais ou convergem sobretudo para grandes eventos e para questões fraturantes? 

Os media portugueses têm equipas enormes para acompanhar o que se passa no futebol. É lamentável aquilo que se faz hoje de rendição do jornalismo ao futebol. Por outro lado, não têm capacidade crítica em relação a muitas coisas que acontecem no mundo económico, financeiro, etc. O mundo económico e financeiro quase só interessa para noticiar transações de bolsa, de grandes negócios de empresas e pouco mais. As pessoas que lá estão não contam, ou contam muito pouco.

O que acontece muito com a religião, ao contrário do que se passa noutras áreas – com a política, com o desporto, com a economia – é que [os media] não têm pessoas preparadas e sistematicamente a acompanhar o que se passa. Porque obviamente acompanhar uma área de noticiário implica saber o que passa, saber o que anda a correr. Os jornalistas que fazem notícias no Parlamento estão lá todos os dias, a falar com os deputados, têm que saber quem são, o que se está a preparar de legislação, saber as correntes de opinião que há dentro dos próprios partidos, etc.

Um jornalista que acompanhe ou queira acompanhar o fenómeno religioso tem que fazer a mesma coisa. Tem que conhecer as pessoas, tem que falar com elas, sistematicamente, tem que saber a diversidade de opiniões que há sobre um assunto dentro de determinada confissão, de determinado grupo, etc. Porque se não for assim, não dá para acompanhar, dá para fazer episodicamente algumas coisas. E o que acontece hoje é isso.

Se o Papa vem cá, trata-se o assunto. Se há um Procissão da Senhora da Saúde em Lisboa, que é uma coisa tradicionalmente muito frequentada, vai-se fazer umas imagens de televisão e uma notícia no telejornal. Se há um debate sobre a eutanásia que um bispo ou um padre fala sobre um assunto, também se dá uma notícia. Mas tudo isso é desgarrado e não se percebe nada do que isso significa em termos da mentalidade, das dinâmicas de opinião, das dinâmicas de debate, das dinâmicas de construção de uma sociedade e da reflexão do sentido de uma sociedade, onde de facto essas questões e a dimensão religiosa também entra na cabeça de muitas pessoas.

É importante que o acompanhamento seja sistemático e não se reduza a um episódio de vez em quando.

O António Marujo é um dos maiores jornalistas de religião da atualidade. Consegue-me dar um panorama da realidade religiosa e espiritual portuguesa neste momento? Somos maioritariamente católicos, isso é sabido, mas não será redutor?

Sim, será redutor. Eu acho que a pessoa que melhor pensa estas questões em Portugal, que aliás coordenou o último grande estudo sobre a questão, é o professor Alfredo Teixeira da Universidade Católica. Coordenou um estudo que se fez sobre a questão, há oito anos salvo erro, e continua a trabalhar no tema.

No fundo esses estudos dizem-nos que a relação institucional dos portugueses, mesmo dos que se dizem católicos, com a Igreja, como instituição, é mais frágil, mais ténue. Normalmente falava-se em prática religiosa, hoje os sociólogos tendem a falar noutras categorias que não a “prática”, tendem a usar outras expressões que definem melhor essa ligação. Falava-se em católico praticante ou não praticante, hoje fala-se em prática regular, em prática frequente, as categorias são várias.

Portanto há uma ligação cada vez mais frágil, mais ténue. Por outro lado, aqueles que são convictamente católicos têm depois uma inserção na Igreja que também passa por outros compromissos, que não só o ir à missa ao domingo, ou frequentar alguns sacramentos.

O que está em crescimento são as pessoas que se consideram, como diz esse estudo, “crentes sem religião”. Acreditam em Deus, ou nalguma forma de sagrado, de divino, de transcendente, mas não se revêem em nenhuma instituição religiosa.

Depois há o grupo das comunidades evangélicas, nomeadamente nas grandes cidades, Lisboa e Porto, Setúbal um pouco, que são comunidades muito informais que se desmancham e se criam também ao sabor de carismas pessoais, dos líderes. Essas duas comunidades são as que estão a crescer mais.

No fundo este retrato do que acontece em Portugal é um retrato semelhante ao que outros países atravessaram antes e estão a atravessar já com mais intensidade. Nada disso significa que as pessoas deixaram de acreditar em Deus ou que deixaram de se relacionar com o transcendente, com o sagrado, significa que vivem essa experiência de forma diferente.

Tal significa muitas vezes não terem uma relação de inscrição na instituição religiosa como tinham até há 50/60 anos atrás. Essa inscrição que passava por uma inserção tradicional, de inscrição social, de até um certo controlo social, hoje faz-se de forma diferente. O que ele chama a atenção, o Alfredo Teixeira, é que hoje o problema essencial está na transmissão da fé, da dimensão religiosa, mais do que na comunicação.

Onde se situa Fátima neste cenário? É para aqui que tudo converge? Estaremos a falar de uma cidade mais espiritual que propriamente religiosa católica?

Pois, para aqui converge muita coisa, porque exatamente Fátima traduz muitas destas realidades.

O QUE ESTÁ EM CRESCIMENTO SÃO AS PESSOAS QUE SE CONSIDERAM, COMO DIZ ESSE ESTUDO, “CRENTES SEM RELIGIÃO”. ACREDITAM EM DEUS, OU NALGUMA FORMA DE SAGRADO, DE DIVINO, DE TRANSCENDENTE, MAS NÃO SE REVÊEM EM NENHUMA INSTITUIÇÃO RELIGIOSA. DEPOIS HÁ O GRUPO DAS COMUNIDADES EVANGÉLICAS, NOMEADAMENTE NAS GRANDES CIDADES

Por um lado é um lugar explicitamente institucional, por outro lado muitas das pessoas que cá vêm não têm outra relação com o transcendente ou com Deus que não seja a relação com Fátima. Portanto, a sua relação com a transcendência passa sobretudo por vi aqui, uma, duas vezes por ano. Porque depois são pessoas que no seu quotidiano não têm nenhuma inserção paroquial, de Igreja, seja o que for. Isto no universo católico, porque depois haverá até outras pessoas que não se revendo sequer no catolicismo também passarão por aqui. Serão poucas, uma percentagem reduzida, mas também há casos.

Fátima traduz essa cada vez maior individualização da experiência religiosa. As pessoas deixaram de se relacionar com Deus através de uma instituição e passaram a assumir essa dimensão mais individual, mais pessoal.

Fátima traduz uma dimensão de autonomia. Durante décadas, como fenómeno, isto foi olhado muito de soslaio por muitos intelectuais, por muitas coisas que aqui se passavam e ainda se passam. O professor Alfredo Teixeira tem uma expressão curiosa sobre Fátima que é: isto traduz uma modernidade religiosa como há poucas, como há poucos fenómenos no mundo.

Muita gente que aqui vem relaciona-se com Deus, com o sagrado, com o divino, com o transcendente, só por vir a Fátima. No seu dia-a-dia terá expressões de oração, alguma coisa mais espiritual, mas a sua forma de traduzir essa experiência, a sua forma concreta, é vir aqui.

Porque é que acha que isso acontece?

Porque, se regressarmos ao princípio da conversa, o religioso é uma dimensão fundamental da nossa experiência humana. O facto de sermos pessoas e pessoas capazes de pensar, de gostar uns dos outros, ou às vezes de nos odiarmos, mas de sermos capazes de nos transcender, de fazer o melhor muitas vezes, e às vezes o pior, isso faz de nós criaturas únicas. Isso diz muito da nossa capacidade.

Porque é que nós quando fazemos coisas espantosas dizemos que nos transcendemos? Exatamente porque fazemos aquilo que depois os crentes dizem que só Deus é capaz de fazer sempre. Porque fazemos aquilo que traduz o melhor da ideia de Deus que os crentes têm. Mesmo o uso dessas expressões coincide nesses dois universos.

Isso acontece exatamente porque somos pessoas. Porque pensamos, porque refletimos, porque nos interrogamos sobre o mistério da vida e porque há pessoas que acham que esta vida tem um sentido e esse sentido passa por algo que se chama Deus. Que se convencionou chamar Deus. Porque nem um gato nem um cãozinho são capazes de se colocar essas questões. Não são capazes de se transcender, de refletir sobre esses problemas.

Muita gente que aqui vem relaciona-se com Deus, com o sagrado, com o divino, com o transcendente, só por vir a Fátima. No seu dia-a-dia terá expressões de oração, alguma coisa mais espiritual, mas a sua forma de traduzir essa experiência, a sua forma concreta, é vir aqui.

Nós, ao colocarmos a questão do sentido de vida, da existência de Deus, nós percebemos que, mesmo que Deus não exista, há uma pergunta fundamental que temos que colocar que é: e porque vivemos? para que é que vivemos?

É autor de um livro sobre Fátima. Como vê a cidade neste pós-centenário? O que vai acontecer daqui para a frente, na sua perspetiva?

Eu nunca tive grande capacidade de fazer muitas previsões…

Mas estaremos num caminho de crescimento da cidade, de estagnação ou diminuição da crença como alguns defendem?

É óbvio que há aqui um fenómeno, que se deu sobretudo nos últimos 50 anos para cá, que foi a internacionalização do Santuário, com as visitas dos diversos Papas. Desde Paulo VI que todos os Papas vêm cá, menos João Paulo I que não teve tempo. Deu-se uma abertura do Santuário em termos pastorais, em termos teológicos, de reflexão, de capacidade de fazer estudos, de capacidade de fazer investigação, o facto de se ter publicado a documentação crítica praticamente toda dos primeiros anos também foi importante.

O que tardou quase 100 anos a fazer-se – por exemplo em Lourdes tinha sido feito muito antes – estou convencido que agora é possível fazer-se em Fátima, que é exatamente o que se está a fazer nas últimas duas, três décadas. Que é essa abertura à investigação, ao estudo, à universalidade.

Acho que podemos falar num crescimento de Fátima. Não quer dizer que seja um crescimento de números sempre todos os anos, mas um crescimento na perspetiva de que o que aqui acontece será cada vez mais aprofundado, mais estudado, terá cada vez mais repercussão noutros âmbitos da Igreja, mesmo da Igreja em Portugal e também se calhar nalguns pontos do mundo. Portanto acho que o Santuário vai continuar a ser uma dos grandes santuários do catolicismo mundial, cada vez mais.

Não sei se subirá na lista mais algum lugar, mas tem-se afirmado como um santuário importante e estou convencido que é isso que vai continuar a acontecer.

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