Ourém | A prisão dos três pastorinhos e a não aparição de Fátima a 13 de agosto de 1917

Fotografia registada a 13 de outubro de 1917, dia do "milagre do sol", e então publicada no jornal "O Século".

O projeto encontra-se estagnado, mas segundo o presidente da Câmara de Ourém, Luís Albuquerque, não está esquecido. Aquando da reabertura do antigo edifício dos Paços do Concelho de Ourém, em 2016, foi anunciada a criação de um pequeno museu no espaço onde funcionava no início do século XX uma prisão, lugar onde os três pastorinhos de Fátima terão estado presos a 13 de agosto de 1917. Entretanto, passou o centenário das aparições, mudou o executivo e a cor política do mesmo, e a ideia, que pretendia atrair o turismo de Fátima até Ourém, não avançou.

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É um dos episódios mais polémicos dos acontecimentos de 1917: a 13 de agosto, o administrador do concelho de Ourém, Artur de Oliveira Santos, induziu em erro os três pastorinhos de Fátima e afastou-os da Cova da Iria, onde uma pequena multidão aguardava a quarta aparição de Nossa Senhora às crianças. O autarca, republicano radical, interrogou os pastores em Ourém e chegou a tê-los em sua casa, mas nas suas “Memórias” a Irmã Lúcia traçou um episódio algo negro, onde recorda um momento de oração com outros presos e conta que os terão ameaçado matar numa caldeira de azeite a ferver.

Cena do filme de 1952 “The Miracle of Our Lady of Fátima”, quando os pastorinhos são levados para Ourém pelo administrador. FOTO: D.R.

Alguns historiadores vieram nos últimos anos colocar em causa a narrativa institucionalizada, mas o facto é que a 13 de agosto de 1917 não houve registo de aparição porque os três pastorinhos estavam em Ourém a ser interrogados. Nossa Senhora terá aparecido apenas a 19 de agosto, segundo as “Memórias da Irmã Lúcia”.

Ainda assim, as grandes cerimónias no Santuário de Fátima ocorrem tradicionalmente a 13 de agosto (no dia 19 há um programa específico), coincidindo com a peregrinação dos migrantes. No momento em que se celebram os 102 anos da prisão de Jacinta, Francisco e Lúcia, o mediotejo.net quis saber como se encontra o projeto do museu-prisão.

Em 2016, na altura do executivo presidido por Paulo Fonseca (PS), o autarca adiantou ao mediotejo.net que uma secção no rés-do-chão do antigo edifício municipal, onde funcionava nos inícios do século XX a prisão, estava a ser limpa e estudada para ali ser implementado um Museu. A ideia na época era que no espaço fosse exposta uma carta escrita pela Irmã Lúcia, na posse da Câmara Municipal, onde esta narrava o episódio passado na antiga prisão de Ourém.

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A criação do núcleo museológico em Ourém seria uma “estratégia turística e económica”, admitiu Paulo Fonseca, por forma a criar na sede de concelho uma ligação com o turismo de Fátima. “Há uma rica e suculenta história dos pastorinhos em Ourém”, comentou.

Secção no rés-do-chão da antiga Câmara Municipal onde funcionava a prisão em 1917 está a ser limpa e estudada, para aí ser implementado o núcleo museológico. FOTO: mediotejo.net

Passou o ano do centenário das aparições, 2017, e nada foi concretizado, sendo que entretanto mudou o executivo municipal. Contactado pelo mediotejo.net, Luís Albuquerque (PSD-CDS) comentou que o projeto “é interessante” e “não está esquecido”.

Neste momento há vários projetos a serem desenvolvidas em torno de Fátima. “Não conseguimos chegar a todo lado”, explicou, pelo que este museu-prisão – que em termos práticos só tem em falta a musealização, referiu – está estagnado.

O debate em torno da prisão dos três pastorinhos

O último grande debate em torno da polémica prisão dos pastorinhos de Fátima ocorreu em fevereiro de 2018 em Ourém, reunindo a comunidade eclesiástica e laica. No geral, permanecem dúvidas quanto a alguns aspetos da narração dos acontecimentos quer da parte da Irmã Lúcia quer da parte do administrador do concelho de Ourém, uma vez que ocorreram vários anos depois dos acontecimentos. Se as crianças se sentiram assustadas e ameaçadas, consta que Artur de Oliveira Santos não as quis traumatizar, apenas acabar com a afluência de peregrinos e curiosos à Cova da Iria. A estratégia, porém, acabou por ter o efeito contrário.

Um dos oradores deste debate foi o antigo Reitor do Santuário de Fátima, Monsenhor Luciano Guerra. Tendo investigado ao longo dos anos a documentação do Santuário de Fátima sobre as aparições, o ex-reitor constatou que tanto os testemunhos de Artur de Oliveira Santos como os de Lúcia de Santos deixam dúvidas sobre os contornos dos acontecimentos de agosto de 1917.

Luciano Guerra e Poças das Neves apresentaram duas perspetivas sobre a prisão dos pastorinhos de Fátima e o papel de Artur de Oliveira Santos Foto: mediotejo.net

A polémica, recordou, incide sobre dois pontos em específico: terão os pastorinhos estado efetivamente presos na prisão de Ourém e sido ameaçados de morte? Se a ameaça de morte na caldeira de azeite a ferver não parece oferecer dúvidas, ainda que seja entendida como uma forma de assustar as crianças e não de ser efetivamente concretizada, a estadia de dois dias na prisão de Ourém divide opiniões.

Apesar de olhar os acontecimentos com espírito crítico, monsenhor Luciano Guerra reconheceu estar “mais do lado da Igreja Católica que de Artur de Oliveira Santos”. O administrador do concelho de Ourém era membro da maçonaria e republicano radical, com um forte preconceito anticlerical. Fátima seria para o responsável “o aguilhão do seu orgulho republicano e maçónico”, constatou.

Na perspetiva do prelado, Artur de Oliveira Santos acreditava que as três crianças estavam a ser instrumentalizadas por um clérigo e foi essa convicção que o levou a aldrabar os pais dos jovens a 13 de agosto e, em vez de os encaminhar para a Cova da Iria, os conduziu a Ourém. Pretendia, referiu lendo um relatório da época, que estas fossem avaliadas por uma junta médica e instaladas num casa de educação. No espírito fortemente laicizante da primeira República, acreditava-se que a Igreja manobrava as populações incultas contra o Estado, de que Fátima parecia ser um exemplo.

Artur de Oliveira Santos terá acreditado que sem a aparição de agosto o movimento de crentes iria dispersar. Lúcia dos Santos narrou nas suas memórias que ela e os primeiros estiveram na cadeia e rezaram com os presos, tendo sido ameaçada duas vezes de morte. Além deste episódio, as crianças parecem ter sentido apenas o abandono dos pais, que não os foram buscar.

Monsenhor Luciano Guerra referiu que enviou mais de 300 perguntas à Irmã Lúcia com perguntas sobre as aparições. “Em primeira mão” para a plateia reunida na antiga Câmara Municipal, referiu que a vidente lhe respondeu que estavam seis presos na prisão, tinham ficado numa sala junto a um escritório, o administrador tanto os tratava de forma afável como austera, a esposa deste sempre os tratou bem e não sabia se Artur de Oliveira Santos falava a verdade quando a ameaçou com a caldeira de azeite a ferver.

o que moveu Artur de Oliveira Santos no rapto das crianças foi sobretudo o preconceito. Já o mal que os três pastorinhos viram nele foi a mentira e a traição, por lhes ter dito que voltariam a tempo da aparição de Nossa Senhora. A ameaça de morte não foi a brincar nem a sério, constatou, mas uma forma de assustar os videntes

Não há registos deixados pelo administrador do concelho, apenas artigos em jornais e o trabalho de reabilitação da imagem deste, realizado pelo filho. Com o crescimento de Fátima, a figura do Artur de Oliveira Santos foi um tanto diabolizada, em particular na sequência das produções cinematográficas sobre a história.

Monsenhor Luciano Guerra concluiu assim que o que moveu Artur de Oliveira Santos no rapto das crianças foi sobretudo o preconceito. Já o mal que os três pastorinhos viram nele foi a mentira e a traição, por lhes ter dito que voltariam a tempo da aparição de Nossa Senhora. A ameaça de morte não foi a brincar nem a sério, constatou, mas uma forma de assustar os videntes para que revelassem o nome que de quem os estaria a instruir.

“Ele foi afinal o São Tomé das aparições de Fátima”, concluiu o sacerdote, num tempo em que a República claudicava e se queria combater a todo custo a influência da Igreja. Um amigo ter-lhe-á dito, narrou, que o administrador sem querer havia criado Fátima.

O mesmo tema foi abordado de seguida por José Manuel Poças das Neves, historiador fatimense com trabalho académico sobre Fátima e a primeira República. Afirmando logo no início da intervenção que é católico e acredita nas aparições, frisou porém que não concorda com a visão da prisão dos pastorinhos que foi difundida. Procura assim “desfazer mitos simplistas de uma época extremada”, em que a sociedade se bipolarizou entre apoiantes da Igreja ou apoiantes da República e tudo era visto a preto e branco.

Fotografia mais conhecida dos três pastorinhos de Fátima, em 1917. Lúcia à esquerda, seguida de Francisco e Jacinta. Foto D.R.

Poças das Neves constatou que o movimento republicano português passou, em Ourém, pela casa de Artur de Oliveira Santos, conhecendo este figuras como José Relvas e Afonso Costa. “Artur de Oliveira Santos era um radical, mas tentou ser correto”, frisou, lembrando que ele condenou o regicídio. No entanto, era a figura do republicanismo na região, sendo não apenas maçon como membro da Carbonária.

Num tempo de miséria, em que a fome se sentia em Portugal, as doenças proliferavam e, por fim, rebentou a Primeira Guerra, a Igreja assumiu um papel de orientação e de condenação dos movimentos radicais e anticlericais que haviam tomado o governo do país. A linguagem extremou-se, sendo que os jornais republicanos foram os que mais falaram em Fátima, na tentativa de desacreditar o fenómeno. “Houve politização à volta da Cova da Iria desde o princípio”, salientou.

Quanto à prisão dos três pastores, “do ponto de vista do historiador” permanecem dúvidas. Poças das Neves constatou que há contradições nos vários relatos da Irmã Lúcia sobre a estadia na prisão e o tratamento que recebeu da família do administrador, além de que houve testemunhas que os viram a brincar na cada do responsável. Os pais não os foram buscar nem se queixaram do rapto, referindo nos depoimentos que os filhos regressaram normalmente a casa sem indicações de maus tratos. O historiador, porém, também não confia totalmente nos relatos do administrador do concelho.

Remetendo-se aos factos, Poças das Neves referiu que os três pastorinhos terão estado no rés-do-chão da antiga Câmara Municipal, onde funcionava a antiga prisão, mas que se tratou essencialmente de uma detenção, eventualmente potenciada pela pressão dos jornais republicanos em torno do caso. Há registos que Artur de Oliveira Santos tencionava passar o mês de agosto no Agroal e que ao entregar as crianças terá mencionado que não queria saber mais do assunto. Deste modo, comentou, apesar do ataque, não teria havido grande percepção na época do risco que Fátima representava para os ideais da primeira República.

“Na Cova da Iria juntaram-se as crises de uma sociedade”, concluiu. Uma real e rural, outra utópica e que queria criar uma nova realidade.

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