Ourém | A equipa de voleibol feminino que se tornou uma revelação nacional (c/vídeo)

No Colégio do Sagrado Coração de Maria, em Fátima, Ourém, o clube de voleibol vive um período áureo, desde que em 2016 a equipa, então constituída por jovens do 7º ano, começou a vencer torneios e a destacar-se ao nível do desporto escolar. As vitórias foram tão sucessivas que no último ano apostou-se na federação da atual equipa de cadetes, com as atletas a manterem-se associadas ao clube mesmo depois de saírem da instituição. Entre as jogadoras destaca-se Alice Clemente, que com os seus 16 anos já foi chamada à seleção nacional de sub-19. Um percurso de sucesso no desporto escolar, que vive atualmente na incerteza de conseguir manter o nível competitivo devido aos cortes do Estado às escolas que sobrevivem mediante contratos de associação.  

Alice Clemente é um mistério. A constatação surge do próprio treinador Ricardo Sardinha, citando treinadores de voleibol nacionais. Sem nunca ter jogado voleibol na vida, mas do alto dos seus 1m85cm –  uma estatura significativa para a modalidade – entrou num campo e deu logo nas vistas, evidenciando talento e esforço. Rapidamente foi chamada à seleção nacional, sucedendo-se os convites de vários clubes, com uma piscadela de olhos ao desporto internacional. Mas Alice permanece por Fátima, centrada noutros objetivos. É um dos trunfos, admite Ricardo Sardinha, desta equipa de voleibol nascida no seio de uma escola de ensino cooperativo, uma das mais antigas da cidade de Fátima.

Com uma grande dinâmica ao nível de pequenos clubes internos, o Colégio, ligado a uma instituição católica que tem por base o ensino, apostou há oito anos na criação de uma equipa de voleibol feminino, inexistente na região, sob direção de Ricardo Sardinha, professor de Educação Física. As equipas nascem atualmente a partir das alunas do 6º ano, com cerca de 11/12 anos, dividindo-se em três escalões: infantis, iniciados e cadetes. Como a escola não possui ensino secundário, não existem mais escalões.

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Alice Clemente (direita) é a estrela do clube de voleibol, tendo conseguido uma convocatória para a seleção de sub-19 Foto: mediotejo.net

O percurso do clube no desporto escolar foi sendo gradual, alcançando-se algumas vitórias e investindo-se cada vez mais na modalidade. Mas a grande reviravolta deu-se no ano letivo de 2016/17, com um conjunto de jovens, a atual equipa de cadetes, que Ricardo Sardinha selecionou entre as então quatro turmas de 7º ano que a escola possuía. Nesse ano, a equipa venceu a Taça António Cipriano, da Associação de Voleibol de Coimbra, iniciando um currículo quase ininterrupto de vitórias.

Seguiram-se os prémios: três campeonatos distritais no desporto escolar; um campeonato regional (2017/18) no desporto escolar; um campeonato nacional (2017/18) no desporto escolar; dois campeonatos inter-regionais (2017/18, 2018/19) no desporto escolar; o campeonato da série C do Campeonato Nacional da Federação Portuguesa de Voleibol (2018/19) e o consequente 5º lugar na Final Eight, que decorreu em Fátima em junho.

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“Sentimos uma responsabilidade sobre aquilo que criámos”, admite Ricardo Sardinha, focando o trabalho que se encontra a ser realizado para a equipa enfrentar novamente o Campeonato Nacional da Federação Portuguesa de Voleibol. “Vamos tentando fazer o melhor”, não necessariamente para continuar na linha da federação, mas ir conquistando sempre novas atletas para o desporto.

“Somos uma escola e não um clube de voleibol”, evidencia, admitindo que o próprio não tinha formação específica na modalidade, tendo procurado essa especialização na sequência da criação do clube.

Por tal, vai frisando, o brilho desta equipa é devido sobretudo às atletas. A equipa, no geral, tem 50 jovens, sendo a equipa de cadetes composta por 11 adolescentes. Algumas já saíram inclusive da escola, mas mantêm-se ligadas à estrutura. O espírito de sacrifício e dedicação que têm votado ao voleibol é sublinhado pelo treinador, sem o qual a equipa dificilmente teria uma prestação tão boa na modalidade.

A resistência do clube deve-se também ao espírito do treinador, Ricardo Sardinha, que tem sabido apelar à motivação das jovens Foto: mediotejo.net

Disso é exemplo, precisamente, Alice Clemente, que com uma passagem pelo nível da seleção nacional de sub-19, muito mais exigente, chegou a pensar em desistir. A motivação do treinador, e o gosto quase imediato que ganhou pelo desporto, fizeram-na continuar. “Uma pessoa quando gosta do que faz acaba sempre por ter motivação”, reconhece, afirmando que foi importante porém o apoio que teve da família. Atualmente no 10º ano, Alice quer seguir fisioterapia.

Já Anaisa Silva, 16 anos, entrou no voleibol pela experiência e acabou por gostar. “É preciso muita dedicação e muita paixão por aquilo que fazemos. É preciso ter coragem nos momentos mais difíceis e saber lidar com a pressão, com as pessoas à nossa volta”, até que se encontre um equilíbrio nesta rotina, explica. A atleta reconhece que nunca pensou que a equipa chegasse a um nível tão elevado e saísse do núcleo da escola, manifestando-se orgulhosa pelas conquistas. O futuro ainda é incerto, mas gostaria de seguir uma carreira relacionada com o desporto e a saúde.

Maria Neves, 15 anos, também se apaixonou pelo voleibol, motivada pelo trabalho desenvolvido. “É um orgulho imenso representar este Colégio”, afirma, salientando a dedicação de toda a equipa e o esforço de cada uma em prol do grupo.

Uma das atletas mais jovens neste nível, Eduarda Marques, 14 anos, começou “envergonhada”, mas foi-se rapidamente afirmando na equipa. É necessário haver “equilíbrio” para conciliar o desporto e os estudos, mas Eduarda salienta a “organização”, assim como a “garra” necessária para continuar a levar a equipa a vencer campeonatos.

“voam” bolas nos treinos de voleibol do Colégio. A equipa treina cinco vezes por semana Foto: mediotejo.net

Questionado sobre projetos futuros, Ricardo Sardinha admite-se reticente, vivendo-se as expetativas ano a ano. Para já o foco é o Campeonato Nacional da Federação de Voleibol. Uma próxima época está condicionada pelo futuro do número de turmas na escola. “Se não for possível ter aqui alunos que nos procurem, não é possível desenvolver certos projetos, nomeadamente os desporto de equipa. Com esta redução que tem acontecido, é castrante” para este tipo de iniciativas, reflete.

No Colégio do Sagrado Coração de Maria vive-se assim cada ano de forma intensa. O objetivo desta equipa é continuar a dar provas de competência e a mostrar quão longe pode ir o desporto ao nível escolar, área tão importante, salienta-se, como as outras áreas que compõem a formação de um jovem.

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