“Os rios da minha terra”, por Carlos Alves

Foto: R. Escada

Hoje estou cansado! A noite foi anormal, os barulhos vindos do exterior foram ao fundo do meu interior. Estou afadigado, desconexado, mas ao mesmo tempo, com um complexo de inferioridade que não costuma ser normal. A vida é muito profunda e imensa e talvez seja aqui que reside o sentir-me pequeno demais. A própria voz sai-me com dificuldade, talvez o peso da velhice e das dores tenham vindo mais cedo.

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Estou assim mas não sou responsável por o Homem estar só. Por que razão a natureza está furiosa? Muitas vezes triste, nunca fala com ninguém. Não tem amigos. Mesmo assim e apesar de cansado vou iniciar esta caminhada. Apesar do caminho ser estreito, existe a esperança de encontrar um dia radiante, cheio de sol.

O som é fascinante, o silêncio é só meu. Estou cansado de estar cansado. Ouço ruídos, batidas de coração, sinto a pele a arder nesta imensidão de pensamentos adormecidos. Estou perto.

À medida que o véu da poluição ladeia a pobre da natureza, mais odioso fica o mundo. Vida repetitiva que nos deixa o peito em chamas e nos esmurra os pulmões.  Espero que o sol não se apague, que não me falte o ar, que o meu sangue bucólico continue a caminhar sem barreiras, sem limitações, rumo ao horizonte que sonhei.

Sei que o ar é tempestuoso, ácido e destemperado, embora estagnado. A inércia vai-me conduzir rumo ao nada. Não vou parar, vou caminhar por estradas, becos, desertos, pontes, a procurar o meu lugar.

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Nem o vento, nem o céu, nem os meus olhos cansados me farão desistir. Estou vivo. O coração bombeia. Os poros estão abertos. Os meus sonhos adoçam o meu respirar. Os pés latejam como uma abóbora envenenada. Dói tudo! Até a alma está gotejando lágrimas invisíveis. Sei que vou encontrar o que procuro.

Finalmente cheguei onde queria. De repente o vácuo enche-se de ervas entrançadas. Os sons emitem um grande barulho. São os peixes a saltar esfomeados como uns abutres. Parei para olhar. Fiquei extasiado dentro dos meus pensamentos mais ousados, cheio de fortes emoções. Os meus olhos, embora ensanguentados desenham os rios silenciosos, indiferentes e majestosos.

Deixem ouvir os rios aos compassos de qualquer música, porque eles são nossos, brilham como prata laminada.

São os nossos rios.

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