“Os meus mortos estão aqui”, por Hália Santos

Ninguém bateu à porta para pedir docinhos. Passei o dia todo em casa e ninguém cá veio. Ainda bem. Nem doces tenho para mim, quanto mais para dar. Talvez tenha sido porque no ano passado os miúdos das habitações sociais aqui do lado fintaram o porteiro e andaram todo o dia numa correria, escadas abaixo, escadas acima. Se calhar, alguém se queixou.

Eu só me queixei ao porteiro um dia em que um gato entrou pela minha janela e eu não sabia o que lhe fazer. O porteiro disse que não me podia ajudar porque era ‘muito sensível a essas coisas’. Talvez tenha querido dizer que tem medo de gatos. Se calhar, no ano passado teve medo dos pais dos miúdos e deixou-os entrar. Mas este ano não veio nenhum e eu não percebi porquê. Talvez alguém se tenha queixado. Mas, também, teria que fazer de conta que não estava em casa… porque não tinha doces para lhes dar.

Não havendo miúdos a pedir doces nem doces para comer, achei por bem pensar nos meus mortos. Aqueles que me fizeram ir largando partes de mim conforme foram desaparecendo. Tenho quatro, que me fazem falta todos os dias. E mais uns quantos, que mal conheci, mas que definiram também aquilo que sou. Nem foi de propósito, mas dei comigo a recordar conversas recentes e a perceber que, com uma frequência que me delicia, continuo a falar deles. Ontem, ao jantar, alguém pediu coelho. E eu lembrei-me da minha avó, que um dia serviu gato em vez de coelho no restaurante dos pais.

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Falo dos meus mortos a pessoas que só conheci recentemente, muito depois deles deixarem de existir. Isso, de uma certa forma, tranquiliza-me. Será este o verdadeiro prolongamento da morte? Enquanto alguém se lembrar daquilo que fomos, continuamos vivos? Talvez seja isso. Aquela ideia de recordar as coisas boas dos nossos mortos é um exercício de recuperação. Ainda há uns dias contei a um novo amigo que tive uma irmã deficiente mental que me ensinou tudo sobre Amor incondicional. Contar-lhe isso confortou-me a alma.

Ontem à noite, quando tentei ir a uma festa mexicana do ‘Dia de Los Muertos’, percebi que as pessoas precisam de pretextos para sair de casa. Precisam, sobretudo, de algo que as faça fugir da rotina, para voltarem a ter energias para o dia a dia. Imaginei que boa parte daquelas pessoas possam ter vidas difíceis. É que, sair à noite, não é só para quem tem dinheiro. Há muitas coisas gratuitas e a preços razoáveis que nos enchem de coisas boas. E isto só me faz lembrar o meu avô materno (mas também os paternos, que mal conheci) que se fartou de trabalhar sem que pudesse fazer alguma coisa que o distraísse.

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Um dia inteiro dentro de casa, sem doces nem companhia, fez-me percorrer os objetos da sala. É pequena, mas está repleta de objetos que me lembram os meus mortos. A mala de viagem do meu pai, com os autocolantes dos países por onde andou como que simboliza a vida que teve. E algumas das antiguidades que colecionou, e que tenho na minha sala, como que simbolizam a preservação dos tempos, esta dificuldade em cortar com o que passou.

Não precisava de ter um memorial na minha sala para me lembrar dos meus mortos. Mas gosto da proximidade que os objetos permitem. Como o relógio de bolso do meu avô materno, com a corrente que, em adolescente, usei como pulseira. A pequena jarra com escorridos laranjas que a minha avó materna tinha no seu psiché que cheirava a pó de arroz. A primeira botinha que a minha irmã calçou (juntamente com outras duas, a minha e a da minha outra irmã), com um banho de estanho, para durar muito apara além de nós.

Também tenho objetos de outros dos meus mortos: uma travessa da minha outra avó materna, o prémio de cauteleiro do meu avô paterno e um espelho rococó da minha avó paterna. E agora até tenho uma bomboneira da outra avó da minha filha. Estão todos cá. Nessas e em tantas outras coisas, como os rádios antigos, os relógios, os quadros, as mesas, as peças de cerâmica e de vidro. E todos os outros objetos sem qualquer valor monetário, apenas sentimental.

Não fui ao cemitério porque prefiro ‘tê-los’ por aqui, na sala e na alma.

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