“Os Messias”, por Aurélio Lopes

Foto: msandersmusic, Pixabay

Surgiu o messianismo mediterrâneo num contexto histórico-social muito peculiar. Surgiu e desenvolveu-se entre um povo, cujas singularidades começam pela sua teologia e, assinale-se, não apenas pelo seu carácter monoteísta, à altura particularmente incomum.

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Circunstâncias colaterais hão-de tornar este desígnio hebraico um dos elementos mitológicos mais marcantes da bacia mediterrrânea e, daí, difundir-se por todo o mundo dito contemporâneo, revestindo como elemento hierofânico determinante o messiânico e redentor mito cristão.

Mas, até chegar aí, o “mito do salvador” há-de evoluir na teologia hebraica, atravessando épocas diversificadas de ocaso e apogeu, de esperança e frustração, que diversificadamente o hão-de marcar e configurar.

E é, precisamente, nos últimos séculos do último milénio, agora dito “Antes de Cristo”, que tal conceito se irá incrementar, e a figura do Messias humanizar e politizar.

Na verdade, o aproximar da nossa Era irá encontrar os Hebreus em níveis de poder e autonomia cada vez mais baixos, sendo sucessivamente vencidos e escravizados por poderosos vizinhos, vindos tanto dos lados da Caldeia (como os Assírios e os Babilónios), do Egipto ou, ainda, hipoteticamente, da Anatólia, como os Filisteus!

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Afundado na apostasia, o povo hebreu agoniza sob jugos estrangeiros. Então, numa derradeira atitude de desespero os seus olhos erguem-se para Deus.

Porquê, Ele os tinha abandonado?!

Tratar-se-ia de mais um castigo purificador? Seria por muitos adorarem agora deuses estrangeiros? Seria por se preocuparem mais com a riqueza e a letra da lei que com a pureza e a virtude?

Que fazer para ultrapassar tal situação?

A resposta só podia ser uma: tornar mais puros os puros e rezar com mais fervor ao Senhor, que não se esquecesse do seu povo martirizado. E, mais tarde ou mais cedo, Deus haveria de os ouvir, como, aliás, sempre os ouvira!

Enviaria então um novo Josué, como aquele que vencera os Cananeus e que obtivera para os Hebreus o domínio da “Terra Prometida”.

Ou então um profeta condutor do povo tresmalhado e mensageiro da palavra e dos desígnios de Deus, como em tempos passados. Um novo Elias ou Jeremias! Ou ainda, quem sabe, talvez um novo Juiz como Sansão!

Por outro lado, poderia enviar um líder como aquele outro Josué, filho de Josedec, que em 538 A.C. conduzira o povo de regresso do cativeiro da Babilónia e que por tal merecera o epíteto de Messias. Portanto, fosse como fosse, o Messias, o escolhido do Senhor, mão e instrumento da vingança divina, haveria de surgir! E, quando surgisse, tremessem os inimigos e os idólatras!

E o crente, fanatizado pela frustração e revolta, consciente da sua impotência material, erguia as suas preces num estertor dramático de apelo e adoração. Fosse ele Fariseu, Saduceu, Zelota ou Essênio, fosse apenas um simples pastor da Galileia, pescador de Tiberíades ou agricultor de um dos escassos vales férteis da Judeia.

É assim num contexto particularmente favorável que o messianismo ganha particular intensidade, conforme se vai aproximando a, agora denominada, Era Cristã!

E é assim que, Judas Macabeu, “o Martelo do Senhor”, também ele aclamado como Messias, irá em 166 A.C., erguer o cutelo sagrado e conduzir o povo numa vitoriosa luta de libertação contra uma enfraquecida liderança Selêucida.

Daí em diante (durante cerca de trezentos anos), irão proliferar os líderes messiânicos, protagonistas de sucessivas tentativas para arrancar o ”povo de deus” primeiro do domínio pervertido dos Asmoneus, depois das garras dilacerantes da águia romana.

Em 88 A.C. Alexandre Janeus (o Trácio), o mais corrupto dos Asmoneus, irá fomentar a introdução dos cultos helénicos e provocar, por isso, sucessivas revoltas populares. As repressões daí resultantes ocasionarão entre outras coisas a morte, provavelmente por crucificação, do enigmático “Mestre da Justiça”, líder Essénio cujo perfil prefigura, singularmente, o de Jesus.

Em 6 D.C. por ocasião de um recenseamento romano, eclode uma revolta liderada por um tal Judas de Gamala, dito “o Galileu”. Uma terrível repressão irá ocorrer na sua sequência; cerca de dois milhares dos seus partidários são crucificados.

Em 33 D.C. surge o processo de Jesus, depois chamado “o Cristo”, que irá ser crucificado em Jerusalém nas vésperas da Páscoa sob as ordens de Pôncio Pilatos. Os seus seguidores ainda hoje o consideram o Messias.

Mas, ainda na primeira metade do século I, outros personagens claramente não insurreccionais e até, em rigor, não judaicos, adquirirão pelos seus prodígios um prestígio místico que os leva a ser considerados Messias pelos seus seguidores. Dosíteo, Apolónio de Tianos e Simão “o Mago”, contam-se entre os mais célebres.

Entre 44 e 46 D.C. eclode uma outra insurreição. Menos conhecida, foi liderada por um chefe que ficou conhecido como Tendas “o Egípcio”.

Em 66 D.C. dá-se, finalmente, a Grande Revolta Zelota. Sabe-se que os Essênios participaram igualmente desta insurreição. A guarnição romana de Jerusalém irá ser massacrada. A reacção imperial verificar-se-á através do general Tito, filho do Imperador Vespasiano e que irá, aliás, mais tarde suceder ao pai.

Em 68 D.C. o Mosteiro Essênio de Qurâm é arrasado. Dois anos depois será a vez de Jerusalém ser destruída, a população passada à espada e o templo reduzido a cinzas. Os últimos resistentes refugiam-se em Massada que irá cair em 75 D.C., não sem que antes todos os ocupantes, homens, mulheres e crianças, se tenham suicidado.

Finalmente, em 132, Simão Bar Kosebash levanta novamente a população contra os ocupantes romanos e, inevitavelmente, proclama-se Messias. Tudo irá terminar, em 136, numa nova repressão e deportação da população judaica.

É a grande fase da Diáspora.

Com o fim da ilusão de autonomia política, espiritualizou-se e interiorizou-se a ideia de salvação. Os judeus foram-se aproximando das ideias gnósticas de autoaperfeiçoamento e de comunhão com Deus.

O mito de Jesus vai impregnando as mentalidades messiânicas dos judeus (principalmente das comunidades da Diáspora), substituindo o chefe político-religioso pela imagem de um Messias sofredor, de que, aliás, não existe qualquer modelo na história de Israel.

À semelhança de outras divindades suas contemporâneas (como Mitra, Adónis, Ossíris, ou Átis), Cristo ir-se-á, gradualmente, tornar um deus redentor.

Aquele que se oferece em sacrifício para, com a sua morte, criar (ou recriar e renovar) o cosmos existencial.

Autêntico “bode expiatório dos pecados do mundo” e modelo mítico a seguir no percurso soteriológico de salvação.

Como, ainda hoje, é considerado.

Aurelio.rosa.lopes@sapo.pt
aesfingedebronze.blogspot.com

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