“Os ‘infelizes’ e os ‘afortunados’”, por Hália Santos

Há um senhor, piloto, de quem não se sabe o nome, que ajuda um senhor que perdeu tudo nos incêndios de Monchique. Leva-lhe roupa, telemóveis, máquina para cortar o cabelo. Até já lhe cortou o cabelo. Telefona ao senhor e o senhor diz que também lhe telefona. Mas não sabe o nome dele.

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Este episódio, contado na primeira pessoa, numa reportagem da Antena 1, devia envergonhar os políticos que, pelo que vemos e ouvimos nas notícias, permitiram desvios inaceitáveis, favores indescritíveis, condições excecionais e empréstimos milionários no banco público.

A mesma reportagem conta situações incríveis. As vítimas dos incêndios não podem candidatar-se se não forem coletadas como agricultores. Só têm apoios para comprar máquinas se forem novas, quando, com muito custo, só terão dinheiro para comprar usadas. Mais de metade dos lesados pelo fogo nem se candidatou aos apoios, tantas são as regras e as limitações.

Os que beneficiaram das ‘vantagens’ do banco público não tiveram regras nem limitações. Pelo menos, é isso que vemos e ouvimos por todo o lado. Mas as estórias destas pessoas com pouca sorte, que ouviram ‘o fogo rugir’ e que o viram abocanhar tudo o que tinham, raramente aparecem. Estão para lá, na serra, a tentar recuperar alguma coisa do que perderam. E para lá ficarão, uns, poucos, à espera de ajudas financeiras, outros, muitos, à espera da caridade de gente boa.

São os ‘infelizes’ e os ‘afortunados’. Uns vivem na serra, nas aldeias, em casas onde tinham uma ‘salinha’ e outros espaços que descrevem com diminutivos. Outros vivem em casarões ‘comprados’ com o dinheiro dos outros, com empréstimos com condições que são um insulto para os que têm casinhas. E para todos os outros, que têm uma simples casa, que pagam, todos os meses, com o que ganham pelo trabalho que têm.

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O piloto não é o único que ajuda os ‘infelizes’. Há outros e outras, de quem também não se sabe o nome, que foram, por exemplo, ajudar a construir cercas, para a criação de animais voltar a ser possível na serra. Foram no seu tempo livre, enquanto os ‘afortunados’ gozavam o luxo da vida que todos estamos a pagar.

Não precisamos de saber o nome de quem ajuda os ‘infelizes’. Basta-nos sabermos que existem, para tranquilizarmos um pouco a nossa alma e para pensarmos que o pouco que podemos dar pode ser tudo para os outros. Mas queremos – exigimos – saber os nomes dos ‘afortunados’ e dos seus amigos que, pelos vistos, os colocaram nessa condição, sem qualquer consciência que lhes tire o sono. As almofadas da cadeia serão certamente bem mais confortáveis do que aquilo que merecem.

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