“Os cuidadores não fazem greve”, por Hália Santos

Um dia, ele achou que devia ‘render’ os pais nos cuidados noturnos com a avó, acamada e completamente dependente. Já tinha a sua casa e o seu trabalho. Tinha saído de uma relação, mas não tinha filhos. Tinha um enorme Amor pela avó, que o ajudou a criar. Então, achou que deveria ser ele a ir dormir, todas as noites, com a avó, para que os pais, também já com alguma idade, pudessem descansar de noite para cuidar dela de dia.

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A família assim se organizou, durante três ou quatro anos. Ele ‘poupou’ os pais e sentiu que estava a fazer o que tinha que ser, mas sem aquele sentido de obrigação. Contava a estória com um sorriso nos lábios, mas depois reconhecia que foram tempos muito difíceis. A avó não tinha um sono tranquilo. Às vezes, eram horas de desassossego. E, no dia seguinte, ele tinha que ir trabalhar. Ficou exausto.

Ele não se queixava, mas reconhecia as mazelas que aqueles anos deixaram na sua vida. Já tinham passados meses desde que a avó tinha morrido e ele ainda estava desgastado. Tentava recuperar fisicamente; emocionalmente estava de rastos. Tinha o coração cheio porque acompanhou a avó, mesmo que ela já não soubesse quem ele era. Tinha a alma aconchegada porque aliviou os pais, quando descanso era tudo o que eles precisavam.

Enquanto assim viveu, vivia só para o trabalho e para a avó. Não reconstituiu a sua vida amorosa porque não havia espaço nem tempo para o fazer. Não se queixava, mas, lá no fundo, sentia que tinha perdido anos de vida, talvez até oportunidades que não voltaram. Queixar-se em voz alta poderia ser mal interpretado. Ser cuidador, sim, era muito bem interpretado. Mas, quase sempre, a leitura da situação era exclusivamente na perspetiva da avó, nunca na perspetiva do neto.

O que diria a avó, se estivesse lúcida, ao saber disto? Quereria ela que o neto abdicasse da sua vida, desenvolvendo um quadro de tristeza profunda, simplesmente por ser boa pessoa, bom filho e bom neto? Nunca saberemos, mas sabemos que teria sempre direito a ser bem cuidada, no fim da sua vida. Esta avó e tantos outros velhos, acamados, sem noção de si, assim como outras pessoas dependentes e vulneráveis.

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Os cuidadores têm sido muito silenciosos. Talvez achem que estão apenas a fazer aquilo que é a sua obrigação, cuidar de quem deles cuidou. Ou então, cuidar do marido, da mulher, do filho ou da filha deficientes ou cronicamente doentes. E não reivindicam, não exigem. Alguns, deixam de trabalhar para cuidar dos seus. Mas nada recebem por isso, porque são família. Quando veem notícias, percebem que há subsídios para quase todas as situações complicadas, menos para os cuidadores. E, se calhar, muitos deles apenas queriam uma pequena ajuda, alguém que, por exemplo, os substituísse uma noite por semana.

Dizem que somos um Estado Social. Neste assunto, não somos nada sociais, nada solidários, nada preocupados. Achamos que cada um deve arcar com os seus problemas e pronto. Ficamos sensibilizados cada vez que vemos ou lemos uma estória destas. Mas, no fundo, só damos é graças a qualquer coisa por não termos que ser cuidadores. Somos um Estado Injusto.

As preocupações sociais que temos enquanto Estado parecem desajustadas. Parece que tudo se resume a rendimentos de agregado familiar: os que precisam de ser financeiramente ajudados e os outros. E dentro dos cuidadores certamente que há de tudo: gente que precisa desesperadamente de dinheiro para medicamentos, para rendas e para outras contas; gente que precisa de um estatuto que profissionalmente seja flexível ou, pelo menos, tolerante; gente que só precisa de ser ‘rendida’ para respirar, para dormir, para namorar…

Finalmente, a Assembleia da República desta nação que tem uma estranha forma de atribuir apoios aprovou uma proposta de lei que estabelece medidas de apoio aos cuidadores informais. Para já, ainda sabe a muito pouco. Fala-se em projetos-piloto, mas não se sabe mais nada. Enquanto isso, os cuidadores, silenciosos, sem jeito para protestos nem possibilidades de fazer greve, continuam, dia após dia, noite após noite. Só porque acham que têm que aguentar, sozinhos. Mas não têm.

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