“Os 105 anos de Manuela de Azevedo e uma obra por acabar em Constância”, por Matias Coelho

Manuela de Azevedo, a primeira jornalista mulher a ter carteira profissional em Portugal e fundadora da Associação Casa-Memória de Camões, em Constância, morreu hoje pelas 12:00, no Hospital de S. José, em Lisboa, aos 105 anos. Além da obra literária e jornalística, Manuela de Azevedo deixa a sua marca na Casa-Memória de Camões, em Constância, projeto que fundou e em que trabalhou durante 40 anos, sendo sócia nº1 e presidente honorária. É nesta hora em que “uma luz se apaga mas em que um farol se acende” que o mediotejo.net recupera uma crónica do presidente da direção da Associação Casa Memória de Camões, António Matias Coelho, redigida aquando do último aniversário de Manuela de Azevedo.

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“No último dia de agosto, Manuela de Azevedo fez 105 anos.

Metade deles dedicou-os a Camões e a Constância, mas a sua obra, de grande alcance cultural e pedagógico, está por concluir: a Casa-Memória de Camões, que sonhou e, a muito custo, conseguiu ver erguida, está construída há mais de uma década mas ainda não foi inaugurada porque não dispõe das condições necessárias para o poder fazer com a dignidade que se impõe.

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A Espanha tem uma Casa de Cervantes; a Itália tem uma Casa de Dante; o Reino Unido tem uma Casa de Shakespeare. Portugal não tem, ainda, uma Casa de Camões digna do nosso épico e da língua e da cultura portuguesas. Mas há de tê-la. Em Constância, a vila que terá acolhido o poeta e que tem com ele uma profunda relação, como nenhuma outra terra em Portugal.

Quando, na última manhã de agosto, cheguei à porta da sede do Sindicato dos Jornalistas, na Rua dos Duques de Bragança, ao Chiado, em Lisboa, estava a estacionar uma ambulância que trazia Manuela de Azevedo para a festa dos seus 105 anos. São muitos anos e, mesmo sendo rija e determinada, como sempre a conheci, já não consegue andar, estando dependente de uma cadeira de rodas – e de uma ambulância em distâncias maiores – para se deslocar. E, a bem dizer, também já não consegue ver: conhece as pessoas pela voz e pela memória que delas guarda, mais do que pelos vultos que elas são na sua frente. Mas tem uma lucidez cristalina e uma memória fabulosa. Que espanta e encanta quem a ouve.

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Manuela de Azevedo com o Presidente da República na festa dos seus 105 anos (Foto: Presidência da República)
Manuela de Azevedo com o Presidente da República na festa dos seus 105 anos
(Foto: Presidência da República)

Entre os que a ouviram, na sua festa de aniversário organizada pelo Museu Nacional da Imprensa e pelo Sindicato dos Jornalistas, do qual é a sócia mais antiga, estava o Presidente da República. Marcelo Rebelo de Sousa, que tinha ido na véspera às Selvagens e seguiria nessa tarde para o Porto, não quis deixar de se associar a esta homenagem à primeira mulher jornalista em Portugal, à escritora e camonista que tanto fez por Camões e pela cultura portuguesa. E, reconhecendo o trabalho pedagógico desenvolvido por Manuela de Azevedo durante uma vida inteira, condecorou-a, ali mesmo, com a Ordem da Instrução Pública, depois de o anterior Presidente lhe ter imposto no Palácio de Belém, precisamente há um ano, a Ordem da Liberdade. Pelos gestos dos seus Presidentes, o país sublinha o mérito desta grande senhora e a qualidade do seu trabalho, começado nos distantes anos ’30, quando, ainda jovem, se iniciou no jornalismo, um universo até então exclusivamente reservado aos homens.

Uma parte significativa da obra de Manuela de Azevedo está em Constância. A meio dos anos ’50 caiu-lhe na mesa de trabalho uma nota sobre uma visita à vila, patrocinada pela Casa do Ribatejo e guiada pelo médico constanciense dr. Adriano Burguete. Pretendia essa visita chamar a atenção para as ruínas de uma casa à beira do Tejo que o povo da terra garantia ter sido a casa que acolheu Camões durante algum tempo em que aqui viveu. Manuela de Azevedo não fazia a mais pequena ideia de onde Constância ficava e teve de perguntar. Mas veio. E ficou de tal forma encantada com a beleza da vila e com a força da tradição popular ligada à memória do épico que acabaria por dedicar a Camões e a Constância mais de meio século de trabalho, de forma absolutamente desinteressada.

Dos três elementos que consubstanciam a memória de Camões em Constância, Manuela de Azevedo conseguiu realizar plenamente dois: o Monumento a Camões, de mestre Lagoa Henriques, que se transformou num símbolo de Constância e é muito visitado e acarinhado; e o Jardim-Horto Camoniano, desenhado pelo arq.º Gonçalo Ribeiro Teles, o mais vivo e singular monumento erguido no mundo a um poeta, com grande alcance pedagógico, onde se pode apreciar a quase totalidade das plantas referidas por Camões na sua obra, num total de 56 espécies.

O terceiro elemento é a Casa-Memória de Camões. Manuela de Azevedo conseguiu, num processo muito difícil e moroso, que fossem consolidadas as ruínas da casa que o povo diz ter acolhido o épico, que elas fossem classificadas e que sobre elas fosse erguida a Casa-Memória de Camões.

A Casa-Memória está construída há mais de uma década mas, embora venha acolhendo atividades pontuais, nunca foi inaugurada porque não dispõe das condições necessárias para abrir ao público, com a dignidade que se impõe, como Casa de Camões. Dispõe de algum espólio, artístico e literário, essencialmente doado pela própria Manuela de Azevedo, mas muito insuficiente. É, portanto e muito lamentavelmente, uma casa vazia e quase sempre fechada.

A Espanha tem, em Alcalá de Henares, a Casa de Cervantes. A Itália tem, em Florença, a Casa de Dante. O Reino Unido tem, em Stratford-upon-Avon, a Casa de Shakespeare. Portugal não tem, ainda, uma Casa de Camões. E, a nosso ver, deveria ter.

E pode tê-la. Em Constância, pequena vila do interior do país, com uma ligação à memória do poeta como nenhuma outra terra em Portugal. A casa existe, é um excelente edifício, de construção recente, onde o Estado português já investiu várias centenas de milhar de euros, muito amplo e com uma vista magnífica para o Tejo que Camões cantou e cujas ninfas o inspiraram. Falta fazer dela uma verdadeira Casa-Memória.

É nisso que a atual Direção da Associação Casa-Memória de Camões em Constância, que Manuela de Azevedo fundou está a fazer 40 anos e à qual tenho a honra e a responsabilidade de atualmente presidir, está firmemente empenhada. E por isso fará tudo o que esteja ao seu alcance. Porque Portugal merece ter uma Casa de Camões. E porque Manuela de Azevedo merece que seja concluída a obra que sonhou, por que tanto lutou, e à qual dedicou o melhor da sua vida.

Casa-Memória de Camões em Constância: sonhada e erguida por Manuela de Azevedo, ainda não foi inaugurada por não dispor de condições para abrir ao público como Casa-Memória
Casa-Memória de Camões em Constância:
sonhada e erguida por Manuela de Azevedo, ainda não foi inaugurada por não dispor de condições para abrir ao público como Casa-Memória

Na festa dos seus 105 anos, Manuela de Azevedo declarou aos amigos que estavam com ela que aquele seria o último ato público da sua vida. Depois quero recolher-me ao silêncio e morrer descansada. Segurando-lhe as mãos centenárias mas ainda firmes, respondi-lhe: a senhora já se despediu outras vezes… e nós sabemos que as suas despedidas são apenas um até já… E deixei-lhe o desafio: D. Manuela, queremos ter a senhora em Constância no 10 de Junho do ano que vem. Promete? E a resposta, que saiu pronta e viva, não podia ser mais eloquente: No que depender de mim…

No próximo Dia de Camões, a meio de 2017, bem gostaria eu, neste cargo que agora desempenho e que por tantos anos foi seu, de ver a conjugação de duas alegrias: ter Manuela de Azevedo de volta a Constância, à beira de completar 106 anos, e ter novidades para lhe dar sobre o futuro próximo da Casa-Memória de Camões! No que depender de nós…

*Crónica publicada a 7 de setembro de 2016. Republicada no dia 10 de fevereiro de 2017, no âmbito da morte de Manuela de Azevedo.

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