Opinião | Duarte Marques 3 – Joe Berardo 0 (mas Portugal perdeu)

Na passada sexta-feira, 10 de maio, Joe Berardo esteve cinco horas na Comissão Parlamentar de Inquérito à Recapitalização da Caixa Geral de Depósitos e à Gestão dos Bancos a ouvir perguntas dos deputados mas a dar poucas respostas. E aquelas que deu… bom, por vezes as suas declarações deixavam os deputados de boca aberta ou com vontade de rir, noutras a ponto de sair da sala a gritar.

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Um dos deputados que questionou de forma mais dura o empresário madeirense foi Duarte Marques (PSD), natural de Mação e eleito para a Assembleia da República pelo círculo de Santarém. Vale a pena espreitar o vídeo em que resumimos a sua intervenção. Há coisas que têm mesmo de ser vistas.

Ora Joe Berardo, que acumulou dívidas superiores a mil milhões à banca, foi ao Parlamento afirmar que nada tem e que a coleção de arte exposta no Centro Cultural de Belém (valendo mais de 500 milhões de euros) não é sua, mas da Associação Coleção Berardo, que é diferente da Associação Berardo, e que firmou um contrato com o Museu Berardo, que nada tem a ver com a Fundação Berardo, e que… confuso? Até o próprio comendador, como se percebeu na comissão de inquérito, onde por vezes se limitou a balbuciar as respostas que o advogado, a seu lado, lhe segredava.

Joe Berardo na Assembleia da República. Foto: DR

Se há coisa que ficou clara no final desta audição é que nada será penhorável e que as dívidas do empresário madeirense caíram no saco sem fundo das imparidades (e que todos nós, contribuintes, acabaremos por pagar). Perdão: mencionei dívidas do empresário? Ele não tem dívidas, afinal, como repetiu várias vezes. Ele, pessoalmente, não. Os créditos da Caixa Geral de Depósitos foram concedidos à Fundação que tem o seu nome e à empresa Metalgest (sua participada), e não a si, que nunca deu qualquer aval pessoal aos empréstimos.

Depois de muitas voltas, acabou por admitir que as regras do jogo foram contornadas para colocar a salvo dos bancos as (suas?) obras de arte. Na reestruturação da dívida em seu nome, em 2011 e 2016, a banca ficou com um penhor sobre 75% dos títulos da Associação Coleção Berardo, mas depois foi realizada uma alteração de estatutos que determinou que a associação não tinha direitos sobre as obras de arte, apesar de serem os únicos ativos desta associação. Quem tem então poder sobre a coleção? A administração da Associação. E quem escolhe a administração? Joe Berardo.

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Mas se a coleção de arte não foi dada como garantia, como Joe Berardo insistia em dizer (apenas os títulos da associação, que aparentemente nada valem), porque estava prevista nos contratos de reestruturação da dívida uma avaliação da coleção? Esse foi um ponto em que o deputado Duarte Marques insistiu, ouvindo estupefacto que a avaliação não tinha sido feita porque não foi pedida, mas que nunca a teria feito porque “isso custaria uma pipa de massa”.

– “E esta situação está a custar uma pipa de massa a muita gente!”, disse então Duarte Marques, com um burburinho de fundo em apoio.

-“A mim não…!”, respondeu Berardo, com a sua pose desconcertante.

Já sabíamos há muito que a banca trata de forma diferente os pequenos e os grandes clientes. Costuma dizer-se que se uma pessoa deve 10 mil euros tem um problema, mas se ficar a dever 10 milhões é o banco que passa a ter um problema.

Os mil milhões que Joe Berardo usou para comprar ações do BCP, e que não devolveu aos bancos, passaram a ser um problema do país. De todos nós, contribuintes, portanto. Já é suficientemente doloroso saber isso, mas ouvir alguém dizê-lo sem pudor na Casa da Democracia ultrapassou todos os limites.

Serve de fraco consolo o orgulho de ouvir os nossos deputados a fazerem aquilo que se lhes exige, representando-nos e tentando defender os interesses de todos os portugueses. Nestas matérias não se deve olhar às cores dos partidos mas às cores da bandeira (e não só mas também por isso, obrigada, Duarte Marques).

Como disse o “comendador” no Parlamento, “nada nos pertence”. Nascemos nus e, quando morrermos, nada levamos. Que fique, pelo menos, uma memória que orgulhe os nossos.

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