“Oferendas e… obrigações”, por Aurélio Lopes

Foto: Pixabay

Na sociedade que somos, em que a economia constitui doutrina dominante, o comércio, ritual sagrado e, o lucro, uma espécie de nova divindade, o Natal corresponde naturalmente, a uma oportunidade mais para elevar o consumo a níveis exacerbados.

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Consumo que busca, num enviesado entendimento da tradição, as razões convenientes que justifiquem as desmesuradas trocas de presentes que, num frenesim de consumo, sustentam nos nossos dias, quase totalmente, a actividade natalícia.

São prendas e oferendas, compras e mais compras, iluminações de rua e marketings exacerbados; centrados na figura mais ou menos burlesca do Pai Natal.

Montras, músicas e decorações, embrulhos multicores, pinheiros verdadeiros ou artificiais, ornamentados e rodeados ainda (e sempre) de presentes.

É o delírio consumista próprio dos períodos festivos tradicionais, na verdade, mas elevado aqui a um alvoroço raiando os limites do irracional!

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No qual, pela intensa proliferação e recorrente obrigatoriedade, até os tradicionais pressupostos de reforço da coesão social (que de alguma forma o poderiam justificar) se esbatem e diluem.

Como estamos longe da comemoração secular do nascimento do Deus/Menino (do “Menino Jesus”, lembram-se?) que a Igreja passou a celebrar a partir do século IV, de forma a combater a crescente importância do nascimento de Mitra, o Deus solar de barrete frígio.

Dos presépios que a partir do século XII vêm permitir a recriação ritual do acto primevo do nascimento e, assim, em cada lugar, beneficiar-se propiciatoriamente das qualidades regeneradoras e purificadoras que aquela faculta.

Das fogueiras que de fenómenos solares de consagração divinatória irão evoluir para a funcionalidade mais prosaica, com certeza, mas igualmente eficaz de “aquecer o menino” e, através dele, o coração dos crentes.

Dos cantos natalícios, modelo ambivalente de “louvar o Senhor” e solicitar ao mesmo tempo de forma mais pragmática e muitas vezes irreverente, dádivas de alimentos consumidos, depois, em festivas refeições cerimoniais.

Ou, ainda, do mais tardio abeto nórdico (que, chegará até nós, há poucas décadas, como arquétipo da denominada “árvore de natal”,) agregado a este enquanto símbolo de uma natureza que, neste tempo solsticial, rejuvenesce e renasce.

Na verdade, na economia de mercado em que vivemos, nenhuma área social ou cultural se encontra imune à omnipresente (e omnipotente) lógica mercantilista.

No caso em presença, lógica corruptora dos valores morais rituais associados, durante séculos, à comemoração do nascimento de uma divindade: arquétipo, afinal, de todos os nascimentos.

Fazendo, sim, medir cada vez mais a dimensão dos nossos sentimentos e dedicações, pelo valor intrínseco do presente ofertado.

Esquecendo, deste modo, que o valor de uma oferta não deve ser medido pelo seu custo económico.

Por aquilo, afinal, que tivemos de pagar por ela!

Mas, sim, por aquilo com que ficámos depois de a pagar!

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