“Obrigado, Manuela de Azevedo!”, por António Matias Coelho

Foi a primeira mulher jornalista em Portugal, num tempo em que essa profissão, como acontecia com muitas outras, era aos homens que estava reservada.

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Escreveu poesia de grande sensibilidade, contos e ensaios, sobre Eça, sobre Camilo, sobre Guerra Junqueiro. Mas foi a Camões que dedicou mais de metade da sua longa vida. A Camões e a Constância, onde, de forma generosa e absolutamente desinteressada, deixou uma obra a todos os títulos notável.

Manuela de Azevedo, ao cabo de 105 anos de uma vida de causas, deixou-nos no mês de fevereiro que agora terminou. E deixou-nos, a Constância e ao país, um legado que nos cabe honrar, completar e aprofundar. Devemos-lhe muito. Muito mais do que a palavra obrigado pode dizer.

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Conheci Manuela de Azevedo há praticamente 30 anos, quando comecei o meu trabalho no município de Constância onde ela já levava quase outros tantos de dedicada atividade. Nessa altura já a afamada jornalista era uma senhora de muita idade, bem passada dos 70 anos, mas rija como poucas da sua geração. Rija em todos os sentidos: saudável, ativa, determinada, persistente. E muito frontal. Manuela de Azevedo não era de meias-tintas nem mandava recado: ou gostava ou não gostava e o que tinha a dizer dizia logo, cara a cara, sem alimentar dúvidas nem dilações.

Tive o privilégio de a ter como amiga e de partilhar muitos dos seus entusiasmos e inquietações relativamente à obra camoniana que estava desenvolvendo em Constância. Foi por insistência sua que, há muitos anos, ainda bem no século passado, me fiz sócio da Associação Casa-Memória de Camões que Manuela de Azevedo fundou e dirigiu enquanto as forças lhe permitiram. E mesmo depois de ter deixado Constância, onde costumava vir com bastante frequência para estadias muitas vezes longas, a nossa amizade não apenas se manteve como se reforçou, através de demoradas conversas telefónicas, de cartas que sempre teve o hábito de escrever e da minha deslocação à sua casa em Lisboa, no Bairro das Colónias, para lhe cantar os parabéns nos anos, para ouvir as suas alegrias e preocupações ou, mais recentemente, para presenciar a atribuição de condecorações que foi chamada a receber.

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António Matias Coelho e Manuela de Azevedo. Foto: Câmara Municipal de Constância

Manuela de Azevedo é uma daquelas pessoas que julgamos eternas. Os anos passam, nós vamos envelhecendo, achando que a nossa própria vida se vai encaminhando para o fim, mas quando olhamos para pessoas como Manuela de Azevedo vemo-las mais ou menos sempre na mesma, apenas um pouco mais moucas, com a vista alcançando menos e o corpo pedindo um lugar para ficar sentado. Depois do centenário, Manuela de Azevedo ainda arranjou forças para voltar a Constância, no dia em que fez 101 anos, para rever a sua Casa-Memória e ser homenageada pela terra que a adotou. E na ocasião do seu último aniversário, há meia dúzia de meses, quando a convidei a voltar à vila e lhe manifestei o muito gosto que teria com a sua presença no próximo 10 de Junho, Dia de Camões, apertou-me mais as mãos que seguravam as suas, sorriu-me e deu-me a mais eloquente das respostas: No que depender de mim…

A primeira vez que veio a Constância foi no princípio dos anos ’50. Nessa altura era redatora do Diário de Lisboa e veio movida por uma nota que caiu na redação sobre uma visita, organizada pela Casa do Ribatejo, por sugestão do médico e camonista constanciense Adriano Burguete, às ruínas de uma casa à beira do Tejo que o povo dizia ter sido a que acolheu Camões no seu desterro enquanto jovem. Manuela de Azevedo nunca tinha ouvido falar em Constância nem fazia ideia de onde ficava, tendo tido de consultar um mapa e pedir informações para aqui chegar. E não fazia, evidentemente, a mais pequena ideia de que esse trabalho jornalístico lhe mudaria por completo a vida, os interesses e os desígnios.

De então até à viragem do século, foi construindo em Constância uma obra consistente e coerente que fixou, para sempre, a memória de Camões a esta terra. Fundou, em 1977, a então chamada Associação para a Reconstrução e Instalação da Casa-Memória de Camões em Constância – que agora, neste Ano Camões, completa 40 anos de vida –, instalou o Monumento a Camões de mestre Lagoa Henriques e o Jardim-Horto de Camões, desenhado pelo arquiteto-paisagista Gonçalo Ribeiro Telles, promoveu a classificação das ruínas da casa quinhentista como imóvel de interesse público e tratou de sobre elas erguer, segundo projeto da Faculdade de Arquitetura de Lisboa, a Casa-Memória de Camões.

Esta é a obra física, mas há muito mais para além dela: Manuela de Azevedo fez e pediu a reputados historiadores e camonistas que fizessem estudos sobre a relação de Camões com Constância, promoveu e dinamizou diversos cursos sobre Camões no Jardim-Horto, idealizou e propôs à Câmara Municipal, em 1994, a realização das Pomonas Camonianas – exposição e venda das flores e dos frutos referidos por Camões na sua obra – que, para além de passarem a ser um acontecimento cultural de relevo no concelho e na região, se revelariam a mais fecunda forma de interiorização da memória de Camões na juventude das escolas que, há mais de um quarto de século e já em segunda geração, cada ano as vai fazendo.

Manuela de Azevedo foi uma mulher de paixões. Apaixonou-se pela sua profissão de jornalista, apaixonou-se por Camões, apaixonou-se por Constância. Nunca tendo casado, foi a estas três dimensões que dedicou a sua vida, a sua enorme energia, a sua imensa criatividade, a sua incansável capacidade de realização. Ao deixar-nos, ao cabo de tantos e tão intensos anos de vida e de trabalho connosco, deixa-nos não apenas uma herança preciosa como, sobretudo, um poderoso incentivo para se prosseguir e intensificar o seu esforço e o seu ideal.

Sendo notável, a obra de Manuela de Azevedo em Constância está, contudo, por terminar: o Jardim-Horto, com quase 30 anos de atividade, está precisado de trabalhos de conservação e de renovação; a Casa-Memória foi erguida, mas permanece bastante vazia e quase sempre fechada por lhe faltarem conteúdos e um discurso coerente que permita abri-la regularmente ao público; e há todo um imenso trabalho a fazer para cumprir o sonho da sua criadora de nela vir a funcionar, no futuro, um Centro de Estudos Camonianos. Mais, dizemos nós, faz todo o sentido e é imperioso que se avance para se conseguir que a Casa-Memória de Camões em Constância seja a Casa de Camões, digna da língua e da literatura portuguesas, que Portugal ainda não tem e que é imperioso e urgente que venha a ter.

Foto: Câmara Municipal de Lisboa

Há meia dúzia de meses, no salão nobre do município de Lisboa, onde Manuela de Azevedo foi receber a última de tantas e tão merecidas homenagens, convidei-a para vir a Constância no próximo 10 de Junho, neste Ano Camões que estamos a celebrar. A resposta, No que depender de mim…, animou-me e admiti que viesse a ter essa alegria. Não a terei. Porque, mesmo tratando-se de uma pessoa muito especial, nem tudo depende dela…

Mas Manuela de Azevedo estará connosco no Dia de Camões. Porque está sempre. Apenas um corpo pequenito e muito idoso deixou de resistir à passagem do tempo. A obra, grandiosa e pujante, aí está, apontando para o futuro. Obrigado, D. Manuela!

 

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