“O último Latoeiro de Mação”, por Vera Dias António

O último latoeiro de Mação. Foto: Joaquim Diogo

Esta conversa tem quatro anos, é de agosto de 2012. Manuel, o último Latoeiro de Mação.

Abordei Manuel de véspera, que tínhamos que ter uma conversa. Disse que não, que sim, que logo se via. No dia seguinte fui lá. Viu-me entrar na sua loja e disse “e não se esqueceu”. Ri-me.

Sentei-me e começámos uma conversa que foi uma verdadeira descoberta, uma vez mais, sobre uma vida que se cruza com a da vila. Grandes descobertas.

Manuel é Latoeiro. Toda a vida trabalhou com as chapas, deu-lhes formas e feitios, criou, com as suas mãos, utensílios úteis e indispensáveis em casa e para a agricultura. Manuel, que, com 70 anos, já tem 55 dedicados à sua arte, a latoaria. Tem duas filhas e quatro netos.

Manuel nasceu numa aldeia perto da vila. Perto hoje, pois antigamente levavam uma hora a chegar cá. Pergunto-lhe como era ser criança naquele tempo, ao que responde “era ir para a horta e brincadeira”. Fez a 3.ª classe na sua aldeia, Casas da Ribeira. Havia lá uma casinha, em cima era a escola, por baixo vivia a professora “que ainda é viva, está no Lar”. Após a 3.ª classe teve que ir para uma aldeia vizinha, Santos, “onde se fazia a 4.ª classe, já era uma escola oficial”.

O pai trabalhava na vila, na fábrica de lanifícios. Manuel foi, com 13 anos, aprender com o seu Mestre a arte da Latoaria. Esteve, com esse Mestre, dois anos e meio a aprender. No final desse período a sua família mudou-se para a vila, que era onde já fazia (pela) vida.

Manuel tenta explicar-me onde era a casa onde aprendeu, mas já não existe: “era ali à frente perto de onde se volta para a Rua Nova, foi tudo abaixo, para alargar a rua”, que é hoje a principal da vila, onde vive e tem a sua loja e oficina. Conta que “só aqui passavam dois carros, à justa. Um dia atropelaram um homem e tiveram mesmo que alargar a rua”. Como curiosidade diz que “uma vez ia uma camioneta do Sr. Pombo a transportar a barca, para a Amieira, que a barca que lá está foi feita cá em Mação, e para passarem com a barca aquilo foi o diabo, passou à justa”.

O Mestre, com a necessidade de lhe demolirem a casa, acabou por deixar de trabalhar.

Manuel estabeleceu-se na mesma rua, mais acima. Tinha pouco mais de 15 anos quando começou na sua arte, por conta própria. A casa onde principiou, imagine-se, também teve que ser demolida para fazer uma rua. Rimo-nos com estas coincidências. O progresso da vila perseguia-o. Existiam 2 casinhas um pouco mais acima da que é hoje a sua, frente ao edifício da Câmara. Manuel conta que queriam fazer uma rua que viesse da entrada da vila até à rua principal, frente à Câmara.

O pai de Manuel tinha, entretanto, comprado uma casa que era de uma antiga tecedeira. Manuel estava para casar e o pai e o sogro construíram, no espaço dessa casa, a casa onde vive e trabalha até hoje. Situa-se, curiosamente, a meio caminho entre o espaço da casa onde aprendeu a sua arte e o espaço da casa onde se estabeleceu primeiro como Latoeiro.

Quando Manuel começou a trabalhar havia 3 Latoeiros na Vila. Hoje é só ele. Manuel conta que “no início havia muito trabalho, depois foi diminuindo. Os canos para a água foram substituídos pelos de plástico, na agricultura foi-se deixando de trabalhar, acaba tudo”.

Antigamente Manuel fazia potes para o azeite, tubagens, latas para a resina, baldes, regadores, alambiques, aguadouros, acinchos, entre muitas outras coisas. Com a quebra no negócio foi optando por vender outros materiais como tintas, mangueiras, as próprias tubagens de plástico… “essa coisa do plástico tirou muito serviço à gente, mas é mais leve e mais barato…”.

Hoje em dia, conta que se levanta, vai à horta e abre a loja pelas 10 da manhã, “até que venham clientes, ou não”. Diz que “ainda se vai fazendo alguma coisa, algerozes e assim”. Mas uma das suas dificuldades é encontrar bom material para trabalhar. As suas peças sempre foram feitas em três materiais principais: a folha zincada, a folha-de-flandres e o cobre. Diz que “a chapa zincada ainda há, mas a de flandres só muito longe, antigamente vinha o viajante e fazia-se a encomenda que depois vinha de comboio e as camionetas do Sr. Pombo iam busca-las à estação, mas hoje isso acabou tudo”.

"O último Latoeiro de Mação", por Vera Dias António
Manuel, com a mulher, numa imagem quase diária, numa ida à horta
Foto: Joaquim Diogo

Uma das peças que ainda lhe vão pedindo são os acinchos para fazer queijinhos frescos “mas a chapa com a medida certa para fazer os acinchos desapareceu, quer dizer, deve haver mas os fornecedores têm que comprar grandes quantidades e não se aguentam, também vendem menos“.

Manuel continua a ver a Latoaria com o gosto de sempre. Diz que quando lhe pedem um trabalho “faz como o freguês quer”. Conta que “para fazer uma peça faço os moldes, recorto a chapa e costuro-a na máquina. Depois soldo-a a estanho, para não verter”. Contrariamente à complexidade que eu adivinhava à sua arte, diz que “é tudo feito a frio, é fácil, a chapa é boa de trabalhar”.

Manuel, que na televisão só vê as notícias, não muito animadoras, fala da sua carreira de Lateiro, como fala da própria Vila, ou do próprio país: havia muita gente, havia muito trabalho. Ponto final. Entretanto, diz que “houve uma altura em que houve muita emigração. Foram as pessoas, ficaram por lá os filhos. Há aldeias que dentro de anos desaparecem”. Pergunto-lhe se o preocupa o futuro dos netos, ao que responde que “não sabemos o que vai acontecer mas isto, como está, não vai parar a bom caminho, não”.

Num último exercício, porque falamos com o último Latoeiro da Vila, relembra as profissões que já desapareceram pois já ninguém trabalha nelas aqui e consegue enumerar e nomear 4 Sapateiros, 4 ou 5 Alfaiates (1 ainda faz uns trabalhos), 3 Ferreiros (ainda há 1), as Tecedeiras não sabe quantas eram, relembra ao longo dos tempos uns 4 Marceneiros e 1 Oleiro. Manuel refere os nomes, identifica as famílias e aponta-me um ou outro familiar dos homens que se dedicavam a estas profissões. Como referiu várias vezes na nossa conversa, acaba tudo.

A conversa caminha para o fim mas Manuel ainda me conta daquela vez que o Professor José Hermano Saraiva o visitou e filmou para um dos seus programas, feito em Mação. Ainda tem o vídeo e comenta que sempre gostou muito dos seus programas e o impressionava tudo o que lhe saía da cabeça, mas foi naquela visita que percebeu que “ele escrevia o que queria nuns cartões e depois estava um a filmar e outro ao lado a segurar o microfone e os cartazes para ele ler, mas isso não se via na televisão”. Rimo-nos com a sua descoberta, na sua oficina. Diz que lhe ofereceu uma Candeia e que o Professor lhe comprou um Aguadouro para oferecer a alguém.

Agradeço a Manuel, o Último Latoeiro a nossa conversa e a sua partilha. Saio feliz com as descobertas e, ao sair, consigo ver a rua principal com novos olhos, que acabaram de regressar do passado, de quando a rua era mais apertada e só cabiam dois carros à justa.

*Artigo publicado originalmente em novembro de 2016

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Nasceu em Mação em 1978. Estudou em Abrantes, Lisboa, Bruxelas e voltou a Mação, para trabalhar. Licenciada em Sociologia trabalhou sempre na área da Comunicação, primeiro a social, depois a autárquica. Resgatar memórias e dar-lhes uma quase eternidade é o seu exercício preferido. Considera que a recolha de memórias passadas das gentes de Mação e o apoio na construção das memórias futuras dos 3 filhos é a melhor definição de equilíbrio, o presente da vida. Acredita, acima de tudo, que nada sabemos de ninguém até ter uma boa, mas mesmo boa, conversa. Porque o que parece, às vezes, não é. Falta-lhe conteúdo. Apresentará neste espaço quem são as gentes de Mação, sem filtros nem preconceitos, só histórias e essência, o verbo Ser das pessoas. Escreve mensalmente, a cada dia 5, no mediotejo.net
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