“O tempo e o modo”, por Aurélio Lopes

Rancho Folclórico de Tramagal, junho de 2018 | Foto: mediotejo.net

Nasceu o Folclore nacional da vontade em relevar o carácter moral do povo rural português em detrimento das massas urbanas, por mutáveis e evoluídas, vistas como corrompidas pelo ónus do progresso.

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Desenvolveu-se como imagem estereotipada do “bom povo português”, em que o Estado Novo defendia assentarem, historicamente, os valores essenciais da raça.

“Bom povo”. Satisfeito consigo próprio. Ingénuo, mas honesto. Humilde, mas honrado. Pobrete, mas alegrete. E… por aí adiante!

Caminhos enviesados que lhe geraram um percurso difícil, nem sempre, convenhamos, meritocrático. Visto como reacionário no pós-revolução, como prosaico pela sucedânea estrutura turística, como popularucho pelo academismo, como pitoresco pela comunicação social.

Algo facilmente encarado como fácil de instrumentalizar pelos poderes políticos (locais e centrais), com os quais, frequentemente, estabelece relações de subordinação e saloia subserviência. Que se procura para compor cenários. Quase nunca, como atração principal.

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Ora “quem nasce torto, tarde ou nunca se endireita”, diz a sabedoria popular. E, de facto, não tem sido fácil endireitar este sector.

Repleto de vícios antigos, quantas vezes reatualizados. Pouco esclarecido. Estruturalmente conservador. Sem requisitos metodológicos de qualidade. Sem reivindicar respeito pelo que se faz. Sem exigir condições para o fazer. Sem ambição que exceda a simples e mera existência.

Neste contexto, o Folclore português, na sua maior parte, não vive, sobrevive! Sem consciência, sequer, das suas incongruências. Ou apercebendo-se tão só das consequências, e não das indispensáveis causas.

É o parente pobre da cultura nacional! Ou daquilo que é entendido como tal!

Perante o olhar indiferente da Administração Central que o remete para o INATEL; deste modo reputando-o de mera arte popular.

Ensaiando esforços de avaliação de representatividade que, mais não fazem, que construir edifícios sem paredes. E fundações, naturalmente.

Sem um conceito aceite e compreendido por todos (ou pelo menos pela maioria), com avaliadores regionais em que cada um pensa uma coisa diferente sobre o que constitui rigor e representatividade e, para mais, com interesses diretos nas apreciações que fazem, o esforço, bem-intencionado, limita-se a uma espécie de faz de conta.

Que serve essencialmente para consagrar estatutos e reconhecimentos, nalguns casos insubstanciais.

Usualmente sem caráter de pesquisa e análise metodológica (ou apoio de instituições dotadas de um poder de influência que os incentivem a tal) este é um meio em que surgem frequentes e estapafúrdios disparates que tantas vezes ouvimos.

Como aquele prestigiado dirigente que, a certa altura, explicará, convicta e decididamente, que “os ribatejanos dançam o fandango com o tronco direito porque… estavam habituados a andar a cavalo!”

Ou um outro, não menos prestigiado, que torcia o nariz ao facto de dois homens dançarem o fandango (não percebendo a diferença básica entre dançar “com” e dançar “contra”), sugerindo que, de alguma forma, lhe parecia uma manifestação gay!

Dois entre muitos! Estes relativos ao Ribatejo.

Ou, se quisermos, no norte do país, agrupamentos folclóricos, que tendem a abrilhantar as suas apresentações de trajes com afirmações que constituem autênticas pérolas de clarividência.

Desde o peculiar “traje de dar de comer às galinhas” passando pelo bizarro “traje de ir ao ribeiro, regar a horta” até ao meu preferido: o “traje da menina que vai, com o avô, à vila, ao sábado, pagar a dízima”!

Ora, ninguém é obrigado a ser folclorista! Mas, se optar por o ser, assume, automática e imediatamente, responsabilidades a que não pode, a que não se deve furtar.

Afinal assumiu voluntariamente a responsabilidade de dar a conhecer (e conhecer, naturalmente, as raízes que nos enformam como povo e nação.

Portanto, não deve vender gato ou lebre, por muito que o gato possa deter uma imagem mais mediática que a discreta lebre!

Na verdade, as vivências culturais tradicionais a que chamamos Folclore, não surgiram para ser vistas como espetáculo, aplaudidas ou sequer apreciadas. Surgiram para ser vividas! E é como vivências culturais, que devem ser encaradas.

Resultam de condicionalismos socioculturais, físicos e psíquicos, relativos a um tempo e condições, hoje modificados!

Não representam a melhor maneira de viver no mundo. É a maneira possível, face a condições específicas, muitas vezes severas.

E se a realidade que o mesmo corporiza não é, para nós, suficientemente interessante ou apaixonante, dinâmica ou cromática, o problema não é seu, mas nosso!

Afinal, o Folclore, enquanto realidade cultural, não existe para que gostemos dele! Quanto muito, gostamos dele porque existe e pelo que representa, o que é, substancialmente, diferente!

E, contudo, entre a numerosa panóplia de associações ditas folclóricas, de promíscuas e diversificadas naturezas, uma parte desempenha, hoje, um papel indispensável no estudo, defesa e divulgação da cultura tradicional portuguesa.

Não é percentualmente maioritária. Mas a enorme quantidade de agrupamentos nacionais, torna os seus (sei lá) 20 ou 25%, da ordem das três ou quatro centenas. Quatro centenas de associações (mais ou menos algumas dezenas) dedicadas, com mais ou menos sustentabilidade, à pesquisa e divulgação do património cultural popular; tangível e intangível!

Envolvendo alguns milhares de pessoas! Eventualmente uma dezena e meia a duas dezenas de milhares.

Durante todo o ano!

Voluntariamente!

Com encargos desprezíveis para o erário público!

De acordo com as suas possibilidades, recolhendo e divulgando danças e cantares, trajes e instrumentos, jogos e gastronomias. E ainda, atividades laborais, festas e tradições diversas: profanas e religiosas.

Suportando a sobrevivência de algumas. Reanimando outras.

De todas constituindo um repositório de memória.

Dinamizando espetáculos, intercâmbios nacionais e internacionais, convívios entre populações de variadas zonas do Portugal continental, insular e, até, emigrante.

Apesar de tudo (das anteriormente citadas incongruências, mais ou menos macarrónicas, e de muitas outras), não conseguimos, hoje, imaginar a preservação memorial das nossas raízes culturais sem a sua ação.

Sentimos, afinal, que (apesar dos equívocos e problemas que por aí persistem) o conhecimento atual da cultura tradicional portuguesa e a perceção que temos de nós próprios enquanto povo e nação seria, de facto, muito diferente!

Para pior, já se vê!

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