“O Santo da terra, em Terra de santos”, por Aurélio Lopes

Nossa Senhora da Boa Viagem | Foto: Sónia Leitão/mediotejo.net

A propósito da divulgação (em curso) da apresentação pública do meu próximo livro* respeitante à problemática do Santo enquanto padroeiro do respetivo lugar, talvez seja oportuno salientar a perpetuação de um fenómeno que, em terra de emigrantes que somos, internos e externos, vem há várias décadas, estabelecendo um fluxo anual de ligação afetiva entre todos aqueles (a maioria) que da sua terra de origem saíram à procura de melhores condições de vida e os poucos que aí permanecem e servem, afinal, de elemento de continuidade entre o modo de vida comunitário em intensa mudança (quando não extinção) e as vivenciais lembranças de todos aqueles que, periodicamente, aí retornam numa ação de regresso às origens com valores, estatutos, relações familiares e imperativos memoriais, relacionados.

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Diferente do santo da romaria, a que o santuário confere uma territorialidade devocional autónoma, o santo comunitário possui um território específico (o lugar ou freguesia) que a comunidade habita e vivencia.

Dele diverge, ainda, pela sua natureza de protetor da comunidade, face ao santo sediado no santuário que exerce as suas funções de patrono e advogado, de modo específico e individual, através dos devotos.

Mas, mais que protetor, o “santo da terra” é igualmente um pai e antepassado; constituindo a lenda da aparição da sua “imagem” (logo da sua manifestação/revelação aos Homens e, facto primordial, da sua vivência entre eles) um verdadeiro mito da génese da comunidade/aldeia. Muitas vezes, respeitando à lenda da constituição da capela/igreja; eixo umbilical em redor do qual se vem, depois, a implantar a povoação.

“Imagem” que é, afinal, o santo; num complexo hierofânico em que a representação e o representado se fundem e, muitas vezes, confundem.

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Antepassado mítico, em cujo imaginário se exprime (ontem e hoje) a lenda da formação da igreja, da terra, da comunidade. Feitas de prodígios primordiais, na opção clara por aquele lugar, aquele templo, aquela aldeia.

E da recusa indubitável de, dali, ser transferido. Mesmo que para isso se tenha de recorrer a um prodigioso que plasma de maravilhoso a religiosidade local.

Dando corpo, assim, a um sagrado pitoresco que tem tanto de ingénuo como de assertivo.

Em cuja honra se continuam a fazer, ainda, as anuais “festas da Terra” que, anualmente, por todo o período estival, direcionam para o interior do país largas centenas de milhares de emigrantes vindos do litoral português e, bem mais longe, da Europa.

Santo, elemento identitário, face ao qual se exprimem, deste modo, inegáveis coesões sociais e explícitos fatores de pertença.

Tornando, o verão português, um perpétuo e contínuo Festival Popular.

E permitindo uma relação de continuidade social e cultural. Sem a qual, a atual rotura face às nossas raízes ancestrais seria, com certeza, bem mais inquietante.

*”Deuses menores e Espíritos dos lugares; O Santo da terra, em Terra de santos” irá ser apresentado a 16 de março, às 16 horas, no Fórum Mário Viegas, em Santarém.

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