“O regresso do emigrante”, por Fernando Duarte

Estamos com a época natalícia à porta e custa-me fazer de profeta da desgraça, não é minha intenção tentar chamar a atenção relevando o que há de pior, mas sim que houvesse a consciência de que nem toda a gente vai ter um natal onde se vai conseguir evitar tocar em temas suficientemente pesados para não nos conseguirmos excitar com determinado objeto que aparece, agora, nos anúncios televisivos.

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Não me agrada fazer críticas negativas ao poder político porque os culpados destes estarem onde estão somos nós, que votamos neles. Mas já que aí estão, gostava de fazer uma pergunta, sabem o que vai na alma de uma pessoa que perde um Ente querido e se vê impossibilitado de lhe prestar uma última homenagem?

Pergunto-me a mim se o vosso afinco corresponde ao nosso (emigrantes) esforço para enviar as remessas que chegam ao nosso país. Se quando pedem para emigrarmos têm a noção do que nos vamos sujeitar e a consciência do que nos fazem perder para que chegue dinheiro ao país pela via mais fácil.

Eu, pessoalmente, sinto que não. Porque quando se valoriza mais o dinheiro do que a vida sacrifica-se a honra. Como não estou permanentemente em Portugal talvez consiga ter uma percepção diferente, semelhante ao quando estamos muito tempo sem ver uma criança em fase de crescimento, em que ficamos espantados com o antes e o depois, ou seja com a diferença visualizada. Apesar de ouvir e ler notícias de que a economia do país está a crescer o que sinto é que o país em si está a estagnar e em alguns aspectos está é mesmo a estagnar. Até me posso questionar se estou a ser dramático mas veja-se, nunca morreu tanta gente nos incêndios, nunca o rio Tejo esteve tão poluído, nunca eu vi a minha aldeia tão vazia.

Quando algum nativo me pergunta se vou ficar a viver no seu país respondo sempre que não, que vim apenas cumprir a minha missão e depois regressarei e a verdade é que quando emigrei foi sempre com a ideia de um dia poder regressar e poder viver o mais possível em Portugal e já o tentei por diversas formas mas de uma maneira ou de outra lá acabo eu por sair de novo. Quando ouço um responsável político a dizer que Portugal precisa agora que os emigrantes regressem, questiono se não serão apenas palavras vãs porque acho que na prática é de todo conveniente para a política actual que alguém envie dinheiro de fora para dentro e estando dentro do país esse dinheiro deixa de ser desse alguém pois dê por onde der ele acaba por ser absorvido pelo sistema.

Já o disse que custa-me fazer de profeta da desgraça e evito falar os nomes dos países por onde passei para não ferir suscetibilidades mas alguém tem de dizer que há países em que haver proatividade por parte das autarquias significa os funcionários das autarquias se deslocam aos comércios e produtores para informarem os proprietários dos apoios existentes e procederem “in situ” ao registo para o recebimento desses apoios, alguém tem de dizer que há países em que se fazem centenas e centenas de quilómetros em autoestradas entre as suas principais cidades sem se pagar uma única portagem. Alguém tem de dizer que o sucesso vem de dentro e não de fora, de nada adiantam as remessas que chegam se estas não são bem geridas, se estas não são utilizadas em prol da vida.

Apesar de todo o desapontamento, o emigrante irá sempre regressar, é como já vi por aí escrito: “Viajo porque preciso, regresso porque te amo”.

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