“O moinho”, por Berta Silva Lopes

Foto: Zita Silva

Herdei um moinho e não sei o que fazer com ele.

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Nunca sei bem como começar cada crónica. Faltam-me quase sempre as palavras certas, aquelas que encarreiram sozinhas, indomadas e livres, nas linhas de uma história. Acontece que elas, as palavras, andam soltas por aí, sem dono, e é muito difícil agarrá-las.

De nada me vale pôr-me a correr atrás delas, resgatá-las dos dicionários ou aprisioná-las numa aventura de futuro incerto e final por descobrir, cada uma só revela aquilo que quer. Fujo das tristes e pesadas, prefiro-as leves e luminosas, plenas de cor e esperança.

Herdei um moinho e não o quero abandonar.

O moinho não tem velas nem mastro, faltam-lhe as engrenagens e o capelo, as mós e o carreto, o telhado, a porta e a janela. Do que foi, apenas as paredes. Estão vazias as entranhas, minguou a sobranceria e a memória.

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Outrora, estando o tempo de feição, soltavam-se os cabrestos, estendiam-se os panos, rodava o capelo ao sabor do vento. Os grãos caiam lentamente da tremonha para a calha e desta seguiam até à mó. Assim é com as palavras, qual engenho perfeito que faz a história avançar.

Passaram-se, entretanto, 100 anos, tantas vidas, pontos finais, parágrafos. Uma história feita de adendas e notas de rodapé. Muitos testemunhos perdidos para sempre, usos e costumes sem fôlego nem ressurreição.

Perderam-se tradições e ofícios, alqueires e alqueires de saber-fazer, de gente, campo e floresta. Ganharam-se décadas de despovoamento e desertificação, os grandes gigantes destes tempos, altivos e assustadores a enfunar ao vento em cada cabeço.

Herdei um moinho e tenho planos para o recuperar.

Nesta moagem inesperada, nascida de uma ventania que deixou no ar o cheiro da terra queimada, vales e cabeços despidos de verde, cobertos de luto e tristeza ao invés, há ainda histórias por terminar.

Nela, não sei se serei protagonista ou narrador, Sancho Pança ou Dom Quixote. Por ora, sou apenas a entrosa, a roda dentada que quer moer palavras e recordações. Talvez um dia também trigo sarraceno e barbela, milho e centeio.

Mesmo não sabendo nada sobre leveduras naturais ou fermentações longas, tão pouco sobre moagens e menos ainda sobre mastros ou varas, picadeiras, andadeiras e poisos, sei agora que já encontrei as palavras certas.

Herdei um moinho e sonho para ele um final feliz.

Haja bom vento e a história vai recomeçar; de forma singela, sem pressas nem desvios, bem ao jeito das mós, perseverantes e determinadas. Afinal, não há vela impossível de remendar nem capítulo que não se possa mudar. Loucos e sonhadores: todos somos, de alguma maneira, como a personagem de Cervantes.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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