“O lagar do Porto Escuro”, por Berta Silva Lopes

Foto: Berta Silva Lopes

À entrada da Saramaga, na estrada que liga o concelho de Mação ao do Sardoal, do lado direito de quem desce em direção à pequena povoação, estão hoje as ruínas do antigo lagar do Porto Escuro. Logo a seguir à ponte podemos descobrir ainda o que resta das suas paredes, pequenas manchas brancas por onde escorrem lágrimas de barro, o tanque da moagem, as tulhas, os alcatruzes da azenha.

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Há muito que as balsas o invadiram, esconderam as últimas seiras e capachos, as mós e as prensas, engolindo também, por fim, todo o telhado. Foi uma morte lenta e agonizante, negra como o carvão nascido nas suas entranhas após a passagem do fogo.

Era nesse lagar que o meu avô materno moía a azeitona dos seus olivais, pequenos retalhos de terra deixados em herança, com mais ou menos oliveiras, algumas centenárias, onde eu e os meus primos nos escondíamos até já não cabermos nas suas cepas.

Era difícil ocupar aqueles dias, tão curtos afinal, mas tão longos fora de casa, sem nos aborrecermos. Se calhava estar tempo de chuva não tínhamos ordem para sair do palheiro e ali nos sentávamos numa tábua estreita contando os pingos que caíam das beiras ou jogando ao galo no chão de terra batida.

Sem eletricidade, só com a porta aberta conseguíamos descortinar os riscos no chão e, no entanto, com a porta fechada, depressa o casebre se enchia com o fumo da pequena fogueira alimentada com carolos e samarras de milho. Porta aberta, porta fechada, frio ou fumo, ninguém devia ter de escolher.

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Lembrei-me daquele palheiro assim que ouvi a notícia da morte de cinco pessoas, incluindo duas crianças, no passado fim de semana em Sabrosa. Aparentemente, tudo indica que a família morreu de intoxicação com monóxido de carbono. A “casa” onde faleceram não tinha eletricidade, para se aquecer a família usaria uma salamandra e para outras necessidades havia um gerador. O que aconteceu com esta família é difícil de aceitar, mas basta olhar para aquela casa para compreender: foi a pobreza que os matou, não o frio.

No palheiro, apesar da inclemência do tempo, a porta estava quase sempre aberta. O frio entranhava-se nos kispos e ia até aos ossos, mesmo com várias camadas de roupa. As paredes cheiravam a fuligem, pó e humidade.

Restava-nos torcer para que não chovesse e pudéssemos brincar na rua. Nesses dias, apanhávamos cogumelos, subíamos às árvores, varejávamos pequenos ramos de oliveira, caçávamos rãs e salamântigas.

Às badaladas do meio-dia na igreja de Valhascos o grupo reunia para almoçar. Dois tijolos e uma tábua comprida faziam a vez de mesa para a pequenada; os mais velhos estendiam um paninho sobre as pernas e comiam com a lancheira no colo. A mãe fazia migas fervidas e fritava peixinhos na véspera, havia azeitonas novas retalhadas e temperadas com sal, orégãos secos e uma casquinha de limão.

Sei que este foi um ano mau para a azeitona e a colheita, fraca, não surdiu. Seja como for, dá para o petisco. Talvez ainda consiga passar no lagar para ir buscar a última moagem e se assim for levarei no bolso uma côdea de pão para molhar na malga do mestre lagareiro, tal como fazia o meu avô, há muitos anos, no lagar do Porto Escuro. Se há broa de milho e azeite novo, vamos à prova!

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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