“O Homem sem lar”, por Carlos Alves

Foto: Carlos Alves

“Homens que têm impérios, e homens que não têm lar.”

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Jorge Amado disse um dia: “(…) vestidos de farrapos, sujos, sempre esfomeados, agressivos, dizendo palavrões e fumando pontas de cigarro. Donos da cidade, que a conhecem totalmente (…)”.

Todos os dias habito com a dor, com o grito, com o olhar distante que envolve o rosto de um ser humano. Todos os dias vejo, sinto e ouço, lamentações, vozes distorcidas, pés descalços que se movem em silêncio. Todos os dias estou pronto a abraçar a esperança. Todos os dias tento superar as minhas próprias angústias, tentando entender estas ancoragens anacrónicas, similares a um foguetão que foge tão rápido que não nos deixa raciocinar. O homem soluça, filtrando a sua agonia sem amor e sem compaixão, e outros olham em contramão, desprezando a solução. Quero muitas vezes não perceber como tudo isto é possível acontecer, são vezes demais que consomem o meu raciocínio, a minha estabilidade emocional. Que vida é esta que se torna invisível aos poderes dos homens, aos saberes dos homens. Como amar a nossa cidade, o nosso espaço? Para amar temos de ouvir, temos de escutar. O silêncio é bom e necessário em muitas circunstâncias. Não nestas, porque estas corroem a alma, deixam-nos intolerantes, confundidos. Vamos ouvir esses fios invisíveis e dar-lhe a agulheta da esperança, da afetividade, da solidariedade.

Não podemos admitir que estes silêncios perdurem escondidos nas arribas do insensato, do desumano, da ingratidão. Vamos fazer a conexão com o outro, com afeto, com confiança, caso contrário, tudo vai ser inóspito e será a distância e a incompreensão a acontecer.

Sim é possível expressar mimos, carinho, abraços e encontrar o caminho da resolução, enfrentando e solucionando ao invés de ignorá-lo. Temos de ter o discernimento de estender pontes de comunicação para que os vínculos não se deteriorem. Nenhum esforço pode ser renegado. Temos de ter a capacidade de conservar o amor nas ações que temos que fortalecer, superando o sofrimento, as perdas dos outros.

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É isso que se pede, resiliência, para superar a dor e as situações adversas da vida, em muitos casos, como este aqui descrito, traumático com certeza, habilidade social para contornar esta dor de alguém que não é privilegiado mas que se quer superar.

Que posso eu dizer desta certeza inabalável? Continuar a repetir estas condições olhando para a brilhante luz do sol, umas vezes em silêncio, outras vezes gritando para o infinito, para o desconhecido. A humanidade não pode ser tão indiferente, tão inconsciente. As pessoas choram baixinho para que ninguém as ouça chorar, morrem aos poucos.

Chega! Como se pode continuar a viver assim? O mais importante é saber escolher o caminho, dando-lhe uma dimensão qualitativa no âmbito das relações entre as pessoas. “O amor é o que forma o coração do mundo”, diz o poeta.

Sem força nada se faz, sem amor nada se faz.

Sim é possível! Não podemos é olhar para o lado, os outros que resolvam.

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