“O Folar”, por Armando Fernandes

O folar nas suas diversas variantes é um bolo ou fogaça que pela Páscoa os padrinhos ofertavam aos afilhados, referem vários dicionários. O folar é um bolo de com ovos cozidos por cima que se usa pela Páscoa, enunciam outros.

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Nas terras transmontanas e beirãs é costume os párocos serem obsequiados com folar na altura da bênção das casas, por seu turno o investigador Ernesto Veiga de Oliveira num seu trabalho explica a génese do folar e as suas diversas variantes, O dicionário Moraes destaca a raiz latina da palavra folar, estudos da autoria de antropólogos ingleses e americanos recuam até ao Egipto para situarem a génese do folar, havendo até quem assinale como grande matriz do folar o maná bíblico.

No tocante a folares de cunho português prevalece o ditado – cada terra com seu uso, cada roca com seu fuso -, havendo uma clara distinção entre folares de massa doce quase sempre enfeitados com ovos cozidos, e os folares de massa não doce recheados de carnes fumadas e vindas da salgadeira. Numa e na outra categoria existem rivalidades de localidade para localidade, tendo-se acentuado nos últimos anos dada a proliferação de feiras e festivais dedicados a produtos, comeres e beberes.

No tocante a folares de carnes a dita rivalidade é acentuada entre Valpaços, Macedo de Cavaleiros e Vinhais, derramando-se pelas aldeias, cada qual a puxar não a brasa à sardinha, sim a destacar as particularidades de cada expressão culinária repleta de «segredos» que o leitor, ante a enunciação acima referida, pode antever a matricialidade das rivalidades, acrescentando-se ainda o facto de às localidades enunciadas representantes da Terra Fria se acrescentam às da Terra Quente (compreendidas entre as duas Torres, Torre Dona Chama e Torre de Moncorvo) porque também as mulheres dessas povoações faziam (ainda fazem esparsamente) folares. Rigorosamente, tanto na Terra Fria como na Terra Quente o fazer o folar deu lugar à fabricação de folares em padarias bem equipadas e aptas a fornecerem e abastecerem a procura de residentes e forasteiros.

Apenas os familiares mais chegados têm o privilégio de meterem o dente nos folares concebidos «artesanalmente», grávidos de carnes provindas do fumeiro à «antiga» e cozidos nos seculares fornos. Há tempos visitei uma padaria sita em Izeda, concelho de Bragança, o seu proprietário disse-me que a fabricação de folares dura todo o ano sendo a produção destinada maioritariamente para a exportação tornando-se numa mais-valia a todo os níveis. Sendo assim, e é, verifiquei a preocupação do Senhor em procurar respeitar a receita tradicional pois os tempos são outros. E são.

O folar no antecedente para além do simbólico comia-se de manhã engrandecendo o denominado mata-bicho e alegrava as refeições leves e merendas campestres. Enquanto rapazinho deliciava-me a saborear a massa onde tinham estado as carnes, a gordura das mesmas tornava-a gulosa.

Para lá dos folares faziam-se (fazem-se) folarecos e bolas de carne, a massa não conhece diferença, as diferenças residem na forme e conteúdo. Embora não seja muito usual algumas mulheres acresciam às carnes fumadas carnes de coelho e de frango previamente cozidas e/ou estufadas.

Não ter folar em casa no dia de Páscoa significava grande carência, daí o recurso a farinha de menos qualidade, menos ovos e carnes para a sua confecção, mas a tradição não era mantida.

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