“O 25 de abril e o jovem com o poster do ‘Che’ “, por Hugo Costa

Foto: DR

Na próxima quinta-feira o “25 de Abril” faz 45 anos, uma data que marca a liberdade de um povo que soube, de forma pacífica, sair à rua e conquistar a democracia. Nasci depois do 25 de abril. Sou filho de uma geração onde as nossas mães e pais ainda viveram as dificuldades do Estado Novo e da Guerra Colonial. O Portugal onde nasci, no início da década de 1980, é muito diferente do de hoje. A democracia e a integração Europeia que a mesma permitiu trouxe consigo desenvolvimentos a todos os níveis.

PUB

Em 2019 vivemos um ano particular de duas eleições nacionais (legislativas e europeias) que, a meu ver, acabam por ser uma boa forma de homenagear os que durante 48 anos lutaram contra um regime ditatorial, ultra conservador e que colocou Portugal como um país isolado, pobre, sem liberdade. Um país onde uma geração viu o seu futuro condenado numa estúpida guerra colonial, em territórios distantes, onde todo o mundo nos condenava pelo facto de não termos sabido ler os sinais da História.

Nestes 45 anos do 25 abril, vou falar-vos dos 25 anos do mesmo. Estávamos em 1999. Era eu aluno do Ensino Secundário na Escola Secundária de Jácome Ratton, em Tomar, e tinha como professora de História a minha estimada amiga Maria João Morais, a atual mordoma da Festa dos Tabuleiros. Nesse ano, um conjunto de alunos do 10.º ano de todas as escolas secundárias de Tomar (na altura eram 3), fizeram um debate sobre os 25 anos. Na época, eu era um adolescente de 15 anos fascinado por política, nomeadamente, naquele período, por Marx e outros pensadores. Hoje, não deixo de achar peculiar um miúdo de 15 anos ter interesse por estes temas e recordo ainda o poster do “Che” que escondia no meu quarto.

A minha participação nesse debate foi a primeira experiência cívica que já mais esquecerei. A primeira vez que debati. A primeira vez que falei em público. Os vinte anos que se seguiram foram de grande actividade cívica, associativa e política. O evento foi realizado no espaço da Assembleia Municipal e, passados pouco mais de 6 anos, vi-me a tomar posse como elemento da Assembleia Municipal e podia levar aquela experiência pela primeira vez à pratica. O velho poster do “Che” perdeu-se no caminho nestes 20 anos mas não o desejo de transformar o mundo e combater as injustiças. Hoje, como há 20 anos, a desigualdade continua a ser a minha batalha mas a verdade é que foi a escola que permitiu a minha estreia na participação cívica. E esse é o papel da escola pública.

Hoje quando vejo os jovens a manifestarem-se pelo ambiente e clima sinto que está aí a resposta mas é importante, da parte de pais, professores e da sociedade em geral, todos nós apoiarmos e estimularmos a sua participação cívica, caso contrário estamos a construir uma sociedade ao contrário. Termino dizendo que a escola e a educação é dos mais importantes valores de Abril e da democracia. No período do estado novo só um conjunto de privilegiados tinha acesso a todos os graus de ensino. Eu, sendo com orgulho filho de uma doméstica e de um mecânico, nunca teria tido a hipótese de me formar, assim como o meu irmão e muitas centenas de milhares. Certamente existe um caminho ainda por trilhar mas até agora já foi possível realizar muito neste capítulo.

PUB

A educação para todos é por isso um dos maiores sinónimos de Abril. Saibamos continuar a construir a escola pública, para continuar a combater as desigualdades. Que se cumpra abril, sempre.

1 COMENTÁRIO

  1. Comentário admirável! Do Canadá, de quem admira muito o novo Portugal. Eu sei que o seu país tem desafios, mas o seu compromisso de trabalhar para uma vida equitativa para todos é um modelo a ser seguido.

    Parabéns pelo dia 25!

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here