“Numa enfermaria, a fingir que dormia”, por Hália Santos

Hospital. Foto: DR

Naquela enfermaria, ao longo de três dias, saíram e entraram homens de diferentes idades. O rapaz ficou poucas horas, saiu na noite em que foi operado. O senhor ao lado dele, também saiu nessa altura. Mas o terceiro ficou. Numa enfermaria, nunca se sabe muito bem quem estará no dia seguinte. A cama agora ocupada, amanhã pode estar vazia ou pode ter outro ocupante.

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A vida numa enfermaria nunca é coisa agradável. Para além de todo o historial clínico que leva alguém até ao internamento num hospital, há a falta de privacidade, a falta de paciência, a falta de posição, a falta de ânimo. E as dores. E o desconforto. E a incerteza. E o medo. E se ainda houver mais a solidão?

Ter um lugar à janela, pode ajudar. Sobretudo quem para quem consegue perder-se na imaginação pelo ato da contemplação. Daquela enfermaria, a paisagem permite voar. O olhar tem por onde se espraiar, evitando as paredes demasiado brancas, os sacos pendurados  com líquidos que correm nas veias de quase todos.

O tempo demora a passar. É apenas interrompido por quem traz medicamentos, por quem traz refeições, por quem vigia, por quem oferece conversa. Quem trabalha naquela enfermaria, naquele serviço, naquele hospital faz tudo isso com um sorriso nos lábios. Não era por falta de cuidado nem de atenção que o senhor da cama ao lado se deixou dormir quase todo o tempo em que lá esteve.

Talvez uns programas de televisão tivessem ajudado a passar o tempo. Ou não. Felizmente, para uns, tristemente, para outros, o cabo da televisão não chegava à ficha. Os dias passaram sem notícias e sem programas de banalidades. Será que o senhor da cama ao lado se teria distraído com a televisão?

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Numa enfermaria são todos iguais. Ali, estão todos em igual situação de fragilidade. Uns gostam de visitas, outros preferem livros. Os telemóveis são pouco úteis para quem tem pouca paciência e voltam à sua primitiva função de dar e receber notícias. “Correu tudo bem, mas não precisas de cá vir.” Também servem para facilitar a vida de quem está longe. “Não venhas hoje, que está muito nevoeiro.” Mas há telefones que não tocam.

O senhor da cama ao lado quase não teve visitas. Quando saiu da operação estavam lá duas senhoras. “Demorou tanto tempo que estivemos quase para ir embora. Já é de noite! Pronto, vamos embora… Não se preocupe que uma de nós vem cá todos os dias.” Terão ido ou não. Mas durante quase todas as horas da visita, o senhor da cama ao lado estava sozinho. Ficava deitado, como se estivesse a dormir. Não devia estar. Devia era estar imerso na tristeza profunda de não ter visitas. E talvez antecipasse já o que estava para lhe acontecer.

Talvez o senhor da cama ao lado, mesmo com os olhos fechados, ouvisse as conversas das visitas dos outros doentes. Há gente que fala sempre muito alto. Falam da vida deles e da vida dos outros. Contam episódios da família e dos vizinhos para distrair quem nada tem para contar. Os assuntos são sempre corriqueiros. São conversas que servem para alienar, como as telenovelas. Só que aqui as personagens são conhecidas.

Às vezes, as conversas das visitas cruzam-se, criando enredos ainda maiores. Há sempre alguém que conhece alguém. O tempo que sobra nas horas das visitas permite acrescentar episódios e pormenores a estórias simples da vida. Há visitas que são verdadeiras especialistas em entreter.

Parece que a partilha do espaço e da situação aproxima as pessoas. Parece que há um código de conduta das visitas que implica animar os meus e os outros. Mas o senhor da cama ao lado ficava de olhos fechados, sem interagir, durante todo o tempo das visitas. Talvez envergonhado por não ter visitas para partilhar.

Nesta situação de fragilidade comum, tudo se sabe. “Sra. Enfermeira, olhe que esse senhor não está a beber água nenhuma!” Ela não gostou: “O senhor não faça queixa do seu vizinho…” Não, não foi bonito, mas foi com boa intenção. Era sobre o senhor da cama ao lado. Não tinha visitas, não falava, não reagia. E também não bebia água. Só dormia (ou só fazia de conta que dormia).

Soube-se, depois, que o senhor da cama ao lado ali ficaria na noite de Natal, apesar de ter alta. Talvez a fingir que dormia. Porque não tinha ninguém a quem telefonar com um simples pedido: “Podes levar-me para casa?”

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