“Notas para uma valorização do nosso património industrial”, por Sónia Pedro

Os camiões Berliet, construídos na fábrica da MDF em Tramagal

Num dos primeiros contactos realizados, no âmbito da atividade da Associação Médio Tejo Criativo, tivemos conhecimento de uma curta-metragem “Ao Redol da Tijomel”, desenvolvida por três jovens designers industriais (Mélanie Rodrigues, Luís Freire e Rúben Pereira), dedicada à Fábrica da Tijomel em Caxarias (Ourém), e que foi distinguida com “O Grande Prémio Regional António Campos” pela Cinantrop – Festival Internacional de Cinema Antropológico.

No sábado passado, dia 7 de novembro, às 17h, foi também inaugurada na Casa do Administrador, no Museu Municipal de Ourém, a exposição temporária “Ao Redol da Tijomel”.

Uma rápida pesquisa na internet rapidamente o/a informará acerca deste ícone da produção cerâmica portuguesa (na Página de Facebook intitulada Cerâmica Modernista de Portugal encontrará um álbum fotográfico dedicado à Fábrica de Cerâmica TIJOMEL).

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Este é um exemplo de empreendedorismo, um bom exemplo, de como um grupo de recém-licenciados arregaçou as mangas e desenvolveu trabalho (entrevistas, pesquisas de arquivo, visitas a locais específicos, reuniões) em prol da história identitária de um território, dando a conhecer ao público da região, como fora dela, esta unidade fabril e a sua importância na vida laboral e social das populações.

Não será necessário um grande exercício de memória para conseguirmos enumerar, na sub-região NUTIII – Médio Tejo e sobretudo neste triângulo industrial – Torres Novas, Tomar, Abrantes -, um conjunto de unidades indústrias abandonadas ou completamente desaparecidas, que tiveram os seus anos áureos e que fecharam as suas portas. Assim como outras que ainda desenvolvem as suas atividades produtivas. Ou aquelas que entretanto, submetidas a processos de gentrificação, passaram a ter o seu espaço re-estruturado para outros fins. São exemplos:

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– a Fábrica de vidros da Matrena, as Ferrarias de S. Lourenço e do Prado; a Real Fábrica de Fiação e Tecidos, a Fábrica de Papel do Prado, a Fábrica de Papel Porto de Cavaleiros, em Tomar; entre outras,

– a Fábrica de Papel do Almonda (RENOVA); a Companhia Nacional de Fiação e Tecidos de Torres Novas; a empresa de camionagem João Clara e Companhia (Irmãos) – em Torres Novas; entre outras,

– a Metalúrgica Duarte Ferreira; a Fábrica da Fundição do Bom Sucesso; gerida pela sociedade Soares Mendes& Raul Gonçalves; a Companhia União Fabril (CUF) e UFA (União Fabril do Azoto); a Fábrica de Moagem Afonso III; a empresa Simão & companhia, Comércio e Industria, SA; a empresa Victor Guedes & Companhia; entre outras.

Percebemos também que a história da indústria e das tecnologias é uma história feita de avanços, uma história de substituições de práticas, de produtos, de processos e de técnicas. Este constante avanço/substituição das tecnologias tem como consequência uma tendência para os complexos industriais se tornarem obsoletos e serem abandonados, esquecidos, desmantelados ou mesmo destruídos, originando grandes áreas abandonadas nas cidades e regiões urbanas, em especial a partir da segunda metade do século XX.

Por outro lado, o alargamento da noção de património, nomeadamente ao património industrial, levou à tomada de consciência do valor histórico destes locais, paisagens e equipamentos frequentemente fora de uso. Este segmento do património, como outros aliás, começou a ser visto como base para novas políticas de desenvolvimento para algumas destas regiões.

Este alargamento da noção de Património foi definido pela Carta de Veneza (1964). No que diz respeito ao Património Industrial, em particular, ele “compreende os vestígios da cultura industrial que possuem valor histórico, tecnológico, social, arquitectónico ou científico.” (…) “As razões que justificam a protecção do património industrial decorrem essencialmente do valor universal daquela característica, e não da singularidade de quaisquer sítios excepcionais.” ( In Carta de Nizhny Tagil sobre o Património Industrial, TICCIH, 2003)

Face a estas notas, consegue imaginar a panóplia de possibilidades que se inauguram?! Tomemos como exemplo “o caso do vale do Ruhr, na Alemanha, onde um projecto de regeneração urbana inovador tem vindo a transformar uma das maiores paisagens industriais da Europa numa paisagem cuja actividade se centra na conjugação do património, cultura e turismo, sem perder de vista a imponência do passado”. (Vide Património Industrial. Vale do Ruhr: da paisagem Industrial a uma paisagem cultural, Marta Margarida Correia)

Em Portugal, sublinho o excelente trabalho desenvolvido em torno do turismo industrial de S. João da Madeira (http://www.turismoindustrial.cm-sjm.pt/).

Assim haja vontade e determinação, e criatividade!

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