“Não há mariachis em Portugal”, por Berta Silva Lopes

Foto: Weasel Spit, Pixabay

Em Xcaret, na península mexicana do Iucatão, os cemitérios são muito diferentes daqueles que conheço – embora, felizmente, conheça poucos. São coloridos, originais e até um pouco extravagantes, têm caveiras e outros objetos decorativos sobre os túmulos, quadras divertidas e uma alegria impossível de encontrar nos cemitérios portugueses.

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Em pequena, lembro-me de passar meios-dias ziguezagueando entre as campas e jazigos do da cidade de Abrantes, olhando as fotografias desbotadas, as letras e as homenagens que ainda não sabia decifrar.

Sempre que era preciso ir ao hospital, e enquanto a minha mãe levava o meu irmão a mais uma consulta pediátrica, eu e a minha avó matávamos o tempo entre gente morta. Nesta altura, eu já tinha assistido a vários velórios e funerais, de familiares e não só, e aos meus olhos nenhum cemitério era um sítio assustador. Os meus pais nunca me esconderam que a morte faz parte da vida.

Quando eu era pequena havia na minha aldeia a tradição de dar pão às crianças aquando da realização do funeral de alguém. Os familiares faziam essa oferta pela remissão dos pecados do falecido numa ação de misericórdia que convocava novos e velhos.

No México, ao que sei, as tradições são muito diferentes das nossas. Numa mistura única de rituais indígenas e influências cristãs, os mexicanos celebram a morte com festa e alegria. No cemitério onde estive todas as campas estavam pintadas com cores fortes e muitas tinham objetos alusivos à vida que quem ali fora sepultado.

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Lembro-me particularmente de uma com uma mini tenda às riscas brancas e vermelhas e uns enormes sapatos azuis de palhaço, e de outra com uma pipa de vinho e uma torneira sobre a qual se podia ler a seguinte inscrição: se deixarem esta torneira a pingar, com sorte ainda posso ressuscitar. Ali, as casas dos mortos prolongam aquilo que eles viveram, fizeram, eram.

Em forma de concha, o cemitério mexicano tem uma arquitetura em espiral, que termina numa pequena elevação onde três fitas coloridas, nada de luto, ondulam ao vento presas a três mastros de madeira. Tudo é cor e leveza, uma aura difícil de explicar.

No México, no Dia dos Mortos, famílias inteiras juntam-se nos cemitérios, onde jantam e dormem, para celebrar a vida daqueles que já partiram. Diz-se que comem, bebem e celebram alegremente, numa festa onde nem todos os convidados estão vivos. Há mariachis, música e irreverência com fartura, nada de tristeza.

A minha avó morreu há quinze dias, de velhice, serena e em paz, contrariando estoicamente o vaticínio médico de que não passaria o Natal connosco. Mas passou, celebrou o ano novo e cumpriu mais um aniversário.

Despedi-me dela durante um bonito pôr-do-sol com as linhas soltas do poema que ela me cantarolava em pequena dentro do bolso do casaco. Ao seu jeito, a minha avó era uma sábia e, se fosse mexicana, por mim, a porta da sua última morada seria coroada com um poema sobre

mouras e fadas

vindas pelas madrugadas, em jardins de pasmar.

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Define-se como uma mulher da aldeia a viver na cidade, assim uma espécie de amor para sempre por uma e amor à primeira vista pela outra. Gosta de Lisboa e tem Queixoperra no coração. Casada, com duas filhas, trabalha em Comunicação e Marketing há quase 20 anos e com escritores há 10. Não vive sem livros. Gosta de jazz e de música instrumental. Adora o cheiro da terra molhada, do arroz-doce acabado de fazer e do poejo fresco. Não gosta de canela, nem de favas, nem de bacalhau com natas. Troca facilmente a praia pelo campo. Sente-se sempre muito feliz em cozinhas grandes e cheias de luz. Cozinhar é uma terapia e gosta de experimentar pratos novos quando recebe amigos em casa – para grande ansiedade do marido, mas nada que os bons enchidos, o queijo e a broa de milho da sua aldeia não resolvam. Gosta de boas conversas regadas com vinho tinto. Como diz a sua querida Helena Sacadura Cabral, gosta dos pequenos prazeres da vida. E gosta de gostar disso.

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