“Na Curva”, por Sérgio Ribeiro

Estamos perante uma curva (ou duas, ou mais) à escolha. De quem?

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Antes de a darmos, estamos parados numa espécie de encruzilhada. Numa pausa dependente de uma vontade, numa pausa voluntária, desnecessária, prejudicial, perigosa.

Um de nós, mais dado à literatura, à poesia, iria pedir ajuda ao Drummond de Andrade e servir-se-ia da ladaínha “E agora, José?”. Mudaria umas coisas, adaptaria, a começar pela apóstrofe e perguntaria

“E agora, Aníbal?”

Sua palavra agreste,
seus momentos de febre,
sua fúria recalcada,
sua reforma de ouro e queixa,

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seus juros e suas juras
sua biblioteca sem livros,

sua gula de pão de ló,

seu fato malfeito,
sua coerente incoerência,
seu ódio, sim! seu ódio

– e agora?

Com a chave na mão,

não quer abrir a porta,
a que existe,

que outras não há;
quer morrer no mar,
mas o mar você secou;

quer, talvez…, os elefantes,

os elefantes são de outro Aníbal;
quer continuar em Belém,
mas só há Boliqueime,

Belém não há mais.
Aníbal, e agora?

Um outro de nós (ou o mesmo), mais voltado para as coisas da política – que são as de todos nós – perguntaria

(a José, a Aníbal, a Pedro, a Paulo,

a António, a Catarina, a Jerónimo, a Heloísa,

a ti, a mim, a nós)

“Que fazer?”

E pediria, a todos, que respondêssemos à pergunta e não ao nome de quem a fez e quando a fez e como e a quem a fez: que fazer? Só!

Cá por mim, não tenho dúvidas. Eu, que sempre tenho dúvidas e tantas vezes me enganei e engano, desta vez não hesitaria. Faria a curva e continuaria o caminho, que só pode ser de luta.

Por futuro menos cifrão e mercado, mais humano. Tenha as curvas que tiver que ter.

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