Mouriscas | SIFAMECA: A arte nas mãos de quem faz seiras e capachos há 50 anos (C/FOTOS e VIDEO)

Chegou a exportar para a Jordânia e para Espanha. Fornecia produtos para os lagares de todo o país, chegando a sair da produção 200 mil peças, e chegando a ter mais de 50 pessoas a trabalhar com orientação de um encarregado. A 3 de março de 1967, a Sociedade Industrial de Fabricação Mecânica de Seiras e Capachos, Lda, foi criada por três sócios. Hoje, apenas Aristóteles Maria Lopes, de 85 anos, cá se encontra para contar a história enquanto um dos sócios fundadores. E apesar de os tempos serem outros, a fábrica ainda mexe. Parece estar ao abandono? Engane-se quem o pensa.

PUB

A SIFAMECA, que acaba de completar 50 anos de existência desde a sua fundação, ainda labora, e é a única fábrica de produção artesanal e industrial de seiras e capachos. O mediotejo.net foi conhecer esta arte que foi indispensável ao funcionamento de lagares tradicionais, estando à conversa com duas gerações distintas de sócios desta Sociedade, que hoje ainda vai resistindo perante a oferta mais barata e variada, trazida pela industrialização do setor.

Venha daí, temos muito para lhe contar.

Quem passa, passa tão rápido que muito provavelmente nem nota que ali está, por trás daquela casa antiga, de estilo senhorial, pintada de amarelo meio torrado, com degradé vincado do tempo que passa. Pela localização e proximidade à autoestrada, quem hoje passa ali ao lado da Fonte Branca, em Mouriscas, das duas uma: passa tão rápido que não nota o património que ali ainda se encontra ativo, ou então simplesmente ignora a placa, notando apenas o aspeto degradado de uma antiga fábrica.

Sifameca, em Mouriscas. Foto: mediotejo.net

Numa destas tardes, lá nos encontrámos com Evaristo Valente, sócio mais recente por herança de seu pai, que se reuniu com Aristóteles Maria Lopes, contando-nos um pouco da história desta indústria e tradição mourisquense que, remontando a 1967, já é difícil deter com todos os pormenores e exatidão.

PUB

“Já morreram todos os sócios, dos antigos sou só eu. Eu entrei em 1969. Na altura entrei eu, o Diamantino e o Amadeu, lembro-me bem”, disse Aristóteles Maria Lopes, notando que nos anos 70 começaram a juntar-se mais sócios à Sociedade Industrial.

Chegou a exportar para a Jordânia e para Espanha. Fornecia produtos para os lagares de todo o país, chegando a sair da produção 200 mil peças, tendo mais 50 pessoas a trabalhar com orientação de um encarregado. Sim, repetimos este parágrafo. Porque com estes dados surge uma deliciosa história para contar, porque no que toca a negócios, há sempre alguém matreiro que vem trocar as voltas, tal como hoje acontece, verdade seja dita. Na altura, recordou Aristóteles Lopes esse tal cliente da Jordânia. “O filha da mãe, um daqueles importadores sabidos, disse que não tinha documentos e perguntou se lhe davam autorização para levantar a encomenda. Ora, levou a mercadoria”.

“As seiras que se exportavam para a Jordânia tínhamos de ir levá-las ao barco, não havia contentores como agora, naquela altura não havia contentores”, recordou.

O que é certo é que o pagamento nunca chegou a aparecer. “Nunca mais pagou, o malandro. É um Hassan qualquer coisa. Um Hassan segundo”, disse em tom de brincadeira, e deixando-se rir. Riso esse que tinha tudo de genuíno, pois há pouco tempo Aristóteles havia perdido a companheira de uma vida, encontrando-se um pouco debilitado. Ainda assim, com toda a dedicação, fez questão de nos contar a história desta sua outra segunda paixão: a SIFAMECA, sociedade cujo nome sempre se manteve inalterável.

Evaristo Valente, Jacinta e Albertina, apelidam-se de “os resistentes” na SIFAMECA. Foto: mediotejo.net

A exportação era muita, a produção também. “Mas depois, foi sempre a diminuir, desapareceram lagares, e os que ficaram mudaram”, lamentou o mais antigo sócio.

“Na altura chegou a haver 30 lagares nas Mouriscas, hoje há apenas 4. Duas cooperativas, o lagar da EPDRA e o lagar à saída em direção a Cabeça das Mós”, contabilizou Evaristo Lopes, sendo que todos eles eram fornecidos pela produção local.

Um dos filhos de Aristóteles ainda trabalhou na gestão da SIFAMECA, mas seguiu outros caminhos, tal como sucedeu com a maior parte da descendência dos sócios mais antigos. “O meu mais velho, o João, ainda foi técnico de contas”.

Uma vez que ninguém da família decidiu continuar com o legado, Aristóteles Lopes deposita confiança em Evaristo Valente. “É aqui o Evaristo que continua, eu já estou velho”.

E nisto, eis que a história da fundação começa a surgir. “Resultou de uma união, porque havia muitos esparteiros cá nas Mouriscas, porque no passado e há uma canção, que diz que era a terra dos esparteiros e dos fogueteiros, e depois começaram-se a juntar a 3 de março de 1967, três sócios”, contou Evaristo Valente. “O meu pai entrou no início dos anos 70 e foi também um dos sócios fundadores”, numa sociedade industrial onde só os homens entravam na gestão, as senhoras começaram a entrar mais tarde com a mão-de-obra.

Segurando na agenda, Aristóteles Lopes recordava os tempos em que os mestres lagareiros de Mouriscas viajavam por esse país fora, para trabalhar na produção do azeite. Mas como uma mão lava a outra, na altura eram também estes mestres que levavam as seiras e os capachos da SIFAMECA para venda nesses lagares.

“Esta é uma arte que vem do princípio do século. Antigamente era feito em esparto. Mas esta é também uma zona com tradição de mestres lagareiros, senhores que trabalhavam o azeite no lagar. Tínhamos mestres lagareiros aqui na Mouriscas que corria o país de uma ponta a outra, eram especialistas da fabricação do azeite, e depois levavam os capachos daqui, atrás deles, para vender nesses lados”, explicou Evaristo Valente.

“Quando trabalhavam sozinhos, eles vendiam os capachos por esse país fora, porque já sabiam onde haviam lagares, cada um tinha uma zona sua para fazer a venda”, contou, recordando o caso do seu pai.

“Lembro-me do meu pai, quando eu era miúdo, ia daqui para Portalegre, por exemplo, de comboio e com a bicicleta lá dentro, pegava na bicicleta e corria aquelas terras todas em volta. Ia até ao Rossio, apanhava para Portalegre o comboio e seguia por lá, fazia tudo de bicicleta, a pedais!”, disse.

“O Alentejo era das zonas em que mais se vendia. Tinha muita oliveira e muita azeitona. Ainda hoje assim é”, reconheceu Aristóteles Lopes.

Evaristo Valente recordou ainda que, quando os sócios operavam individualmente, antes da formação da sociedade, “tinha uma coisa engraçada”. “Havia senhores que tinham as próprias oficinas para fazer as seiras e capachos de forma manual, e havia outros senhores que não tinham oficinas, tinham as pessoas em casa a trabalhar à peça. O meu pai chegou a pagar cinco escudos à peça. Iam levar a casa das mulheres, que eram domésticas naquela altura, e nas horas vagas faziam aquilo e era um acrescento à economia”.

Ao fim de semana, os sócios iam pagar e apanhar tudo o que tinham feito e levar a matéria-prima para fazer mais para a semana seguinte. Haviam outros que tinham também uma ‘fábricazinha’ que iam lá as senhoras fazer.

Segundo Aristóteles Lopes, chegou a acontecer alugarem casas para albergar mulheres que vinham trabalhar na produção. “Chegavam ao domingo à noite ou à segunda-feira de manhã”, lembrou.

Seiras e capachos da Sifameca, Mouriscas, Abrantes. Créditos: mediotejo.net

Com estas idas e vindas de pessoas da região, recorda Aristóteles Lopes que “arranjou muitos namoros”, e muitos resultaram em casamentos; à semelhança do que acontecia com os mestres lagareiros, que “levavam gente com eles para trabalhar pelo país, e houve muito pessoal que casou por esses lagares”, acrescentou Evaristo Valente, dizendo que ele próprio já havia trabalhado num lagar no Pinhão, durante 63 dias.

Os ventos da mudança: a industrialização e a nova matéria-prima

Mas afinal, o que são as seiras e os capachos? Muitos recordarão, em memórias de outros tempos, muitos não saberão, em especial gerações mais jovens que provavelmente não tenham ligação a esta produção e à agricultura.  Mas como os antigos lagares funcionavam a manual, Evaristo Valente fez questão de nos explicar o procedimento.

No lagar, a massa que sai da mó, vai sendo direcionada e cobrindo o capacho, conforme nos explicou Evaristo Valente, uma vez que a cooperativa, “a mula da cooperativa” como brincou, de Mouriscas, situada a cerca de 1 km, ainda trabalha com o processo tradicional de produção de azeite, onde o próprio está envolvido no projeto.

Acontece que, no carro, os capachos vão sendo preenchidos e acumulados em camadas até que chega ao topo do nível, e aí, puxa-se o carro e depois são colocados nas prensas, que começam a apertar, e espremer, com água quente, e o líquido vai caindo para dentro de outro carro, que vai passando, até ser puxado para um depósito, para depois, e por fim, passar na centrífuga, que limpa todos os resíduos do azeite.

Depois de tudo bem espremido, resta o excedente, chamado bagaço, que fica então prensado nessa espécie de “rodelas” ou “bolachas”, sendo depois removido após o processo de compressão e sendo utilizado, no caso da cooperativa de Mouriscas, para aquecimento na caldeira.

Mas e a seira? Que diferença tem em relação ao capacho? “A função é a mesma, a diferença é que a seira tem um bolso que acumula lá. Mas depois para tirar cá de dentro o bagaço, dá mais trabalho”, assumiu.

No início, era utilizado o esparto, “uma espécie de junco com se faziam os primeiros capachos. O mesmo material com que se faziam os seirões [ou alforges] dos burros. A partir daí veio o cairo, depois veio o nylon. Mais tarde já se começou a usar a ráfia”. Hoje, não só de cairo, matéria importada da Índia em fardos acondicionados, que chegam após encomendas de 15 toneladas, pois é a tonelagem dos contentores mais pequenos, se fazem as seiras e os capachos.

“O cairo tem tendência a partir mais, o nylon como é mais rijo aguenta mais”, explicou Evaristo Valente, acrescentando que são feitos com várias medidas conforme os carrinhos dos lagares, assegurando que “todos dão para reutilizar se forem bem lavados”.

Hoje, com a industrialização e com a maquinaria, e contando-se 24 sócios da SIFAMECA, praticamente todos por herança dos pais, tem duas pessoas a trabalhar, sendo que Aristóteles Lopes ainda por lá vai aparecendo. “É o secretário, o homem do escritório”, disse Evaristo Valente.

“Saímos daqui e vamos vender, temos a lista de clientes, e vamos fornecer e entregar o material”, em especial para Castelo Branco e para o Douro, sendo que “aqui no Ribatejo também há meia dúzia deles”, confirmou.

Mas apenas duas mulheres asseguram o processo de produção. Jacinta, ali trabalha desde os seus 14 anos, e aprendeu ali a trabalhar, cruzar e entrelaçar os fios de cairo. “Tenho 42 anos de serviço na casa”, contou. Albertina não está muito longe disso, pois já lá trabalha há 34. Por via da industrialização, hoje trabalham mais no pólo mecanizado, algo que exige perícia e sabedoria. O trabalho é feito como que num bailado, com um método já automático e assimilado, concretizado com rapidez e eficácia.

Albertina Caldeira e Filomena Alexandre, da SIFAMECA. Foto: mediotejo.net

Uma vez que a produção mecanizada é extremamente mais rápida que a artesanal, os capachos e seiras são armados numa das formas da máquina, para depois, funcionando como uma roca, rodar os fios a partir do rolo inteiro, até atingir o diâmetro pretendido.

Uma das 3 máquinas operacionais, trabalha a uma velocidade significativa, exigindo a prática e atenção adquiridas em 40 anos de trabalho que permitem a estas duas mulheres produzir em série. A forma tem de ser levantada e fixada, para a fiação, e depois desta parte do processo, segue para o fecho com as pontas que sobram da armação. Porém, o remate final da peça é feito na bancada manualmente, pelas mãos vincadas e raspadas pela textura áspera do fio de cairo, do nylon e da ráfia. Com uma agulha, cose-se com fio de nylon ou de ráfia, que por ser mais resistente, tem sido mais usado. É o toque final.

Antes o processo não parava para retirar a peça e rematá-la na bancada, pois haviam mulheres responsáveis por esse processo final, não interrompendo o funcionamento da máquina.

As máquinas já não estão todas por lá, foram sendo tiradas, mas na altura trabalhavam todas, dezenas e dezenas. “Agora temos 3 máquinas operacionais. Dantes, estas com 3 formas, onde trabalhavam duas mulheres e um homem, e as de duas formas trabalhavam com uma mulher e um homem”, explicou Evaristo.

O casamento entre as mãos, a tradição e a arte

Ainda que o pólo mecanizado ocupe maior parte do dia das duas trabalhadoras, no edifício que chamam de “escritório” ainda têm uma sala com o material que é feito artesanalmente, à mão.

“Quando vim para cá haviam 6 seis pessoas a trabalhar nas carpetes”, contou Jacinta. No fundo os homens só trabalhavam nas máquinas, e para carregar, confirmou Evaristo Valente.

Assistimos a Jacinta a continuar uma carpete, uma encomenda de um privado. No chão faz a armação com pregos, resultando numa espécie de régua de madeira, e agora o trabalho faz-se com o entrelaçar dos fios de cairo.

Funcionando como um tear, o tapete ou a carpete pode ter vários desenhos, sendo o mais comum o losango e a espiga, como explicou Jacinta.

“Também se fazia muito o encanastrado”, disse.

“Agora faz-se pouco, no fundo, é uma coisa feita manualmente e fica caríssimo”, sendo que um tapete para a entrada da casa fica à volta de 20 euros, segundo referiu Evaristo Valente.

Os trabalhos são feitos por encomenda e medida, uma vez que a produção regular acaba por não compensar, sendo que por metro quadrado o trabalho avalia-se em 70 euros, “o poder de compra mudou, agora vamos ao chineses e compra-se por 5 ou 6 euros, as pessoas preferem o mais barato”.

Ainda assim, muitas mulheres de Mouriscas trouxeram e ainda trazem nas mãos as marcas de uma tradição que, segundo parece, não terá continuidade. As gerações mais recentes não se interessaram por aprender, as funcionárias quiseram futuro melhor para os filhos.

SIFAMECA em 2019. Foto: mediotejo.net

Mas fique registado, que aos 50 anos de idade, a SIFAMECA lá vai resistindo. Pelas mãos, força e vontade dos resistentes que ainda por lá laboram, numa atividade que hoje se assume tradição mourisquense. E que infelizmente, com o passar do tempo, poderá vir a extinguir-se, como tantas outras atividades, que se vão reconhecendo enquanto formas de arte autênticas e genuínas, que são património e identidade das gentes e das suas regiões. E não há dúvida de que a SIFAMECA faz parte do ADN de Mouriscas.

Fique com imagens da nossa visita à SIFAMECA, em Mouriscas:

*Reportagem publicada em março de 2017, republicada em abril de 2019

PUB

2 COMENTÁRIOS

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here