Mouriscas | Cerâmica Tejo: o tijolo burro e o fabrico artesanal

Tijolo burro produzido na Cerâmica Tejo Foto 2019: mediotejo.net

Com 61 anos de existência, a Cerâmica Tejo é a única na região do Médio Tejo e das poucas em Portugal que ainda produz o tijolo burro e a tijoleira de forma artesanal. Das mais de duas dezenas de cerâmicas que outrora existiram nas Mouriscas, no concelho de Abrantes, esta é a última resistente. O mediotejo.net foi ver como se produz à moda antiga.

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Quem passa na rua da Barca, nas Mouriscas, às portas da Cerâmica Tejo pode pensar que a empresa está desativada, mas não. Outrora já empregou dezenas de pessoas, que chegavam a fazer mais de 30 mil tijolos por dia. Hoje, dois funcionários, fazem 3 mil tijolos por semana.

Esta é a última de mais de duas dezenas de cerâmicas que já existiram nas Mouriscas e que persiste em manter um fabrico artesanal onde os únicos elementos mecânicos utilizados são a retroescavadora que retira a argila dos solos da empresa, que se situam ali perto, os cilindros que amassam o barro e o empilhador que leva o barro preparado para ser moldado e dar forma ao tijolo burro.

Tijolo burro produzido na Cerâmica Tejo Foto: mediotejo.net

Entrar nas instalações da Cerâmica Tejo é como fazer uma viagem no tempo, é regressar ao tempo onde tudo era feito manualmente, é percorrer a história de como as coisas eram feitas antigamente.

As três gerações da Cerâmica Tejo: Lázinha Cadete, Joaquim Lopes Cadete e Marco Cadete Foto: mediotejo.net
As três gerações da Cerâmica Tejo: Lázinha Cadete, Joaquim Lopes Cadete e Marco Cadete Foto: mediotejo.net

A Cerâmica Tejo nasceu em 1955 pelas mãos de Joaquim Lopes Cadete, atualmente com 85 anos. “O meu pai criou esta atividade alugando telheiros (nome que se dava a estas cerâmicas artesanais) aqui nas Mouriscas. Alugou e começou o fabrico com o meu avô, João Pepe, que ia pelo mundo numa motorizada para vender o material, era o comercial da altura”, recorda Lázinha Cadete, filha de Joaquim Lopes Cadete, que atualmente se encontra nos comandos da empresa juntamente com o seu filho, Marco Cadete.

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Só nos anos 90 é que as instalações da Cerâmica Tejo foram cobertas. Marco Cadete, 38 anos, recorda que “antes, esta atividade era sazonal, laborava apenas de maio a setembro”, precisamente para apanhar o tempo mais seco e quente para os materiais poderem secar mais facilmente.

“Quando éramos mais novos, no verão, estávamos nas festas e se começava a chover vínhamos a correr para retirar o material”, recorda Marco Cadete.

Hoje, com instalações cobertas, a produção deixou de ser sazonal e realiza-se durante todo o ano, mas “no inverno, temos graves problemas na secagem do material porque no verão seca em dois dias e no inverno chegamos a estar quase mês e meio para secar o material”, refere Marco Cadete.

Depois de moldados, os materiais ficam uns dias a secar antes de irem cozer ao forno de lenha Foto: mediotejo.net
Depois de moldados, os materiais ficam uns dias a secar antes de irem cozer ao forno de lenha Foto: mediotejo.net

Mas afinal, o que é o tijolo burro? Desengane-se quem pensa que é o típico tijolo utilizada na construção. Não. O tijolo burro é fabricado a partir da argila extraída em barreiros próprios, que depois é amassada podendo então ser moldada da forma desejada, dando origem ao tijolo burro e à tijoleira de aspeto rústico. São materiais usados para a construção e revestimento de muros e paredes, para decoração, para a reconstrução de habitações que querem manter a traça antiga e também para a construção de fornos, seja para a produção de pão, bolos ou leitão uma vez que é um tijolo que tem capacidade para suportar altas temperaturas.

Fomos conhecer a forma de produção do tijolo burro na Cerâmica Tejo. Primeiro que tudo, a argila utilizada na produção dos materiais é retirada dos terrenos da família Cadete. “Há várias argilas, chega a haver sete qualidades de argila. O barro quando é feito para tijolo e tijola é uma mistura diferente”, explica Marco Cadete acrescentando que “as diferentes misturas de barro servem para o produto final não rachar, para resistir mais ao calor e para não queimar”.

“O nosso barro é diferente dos outros, os clientes dizem que não se desfaz com o calor, os tijolos das outras cerâmicas, quando atingem uma determinada temperatura, estala e com o nosso isso não acontece”, refere Marco Cadete.

Processo de fabrico

Atualmente, a extração das argilas é feita com uma retroescavadora mas antigamente “era a pá e picareta”, lembra Lázinha Cadete recordando que, nessa altura, o barro era escolhido à mão e trazido em carroças puxadas a burro.

O amassador de barro que, a par da retroescavadora e empilhador, é a única peça mecânica que intervém em todo o processo de fabrico Foto: mediotejo.net
O amassador de barro que, a par da retroescavadora e empilhador, é a única peça mecânica que intervém em todo o processo de fabrico Foto: mediotejo.net

Depois de extraída a argila, é feita a mistura dos barros. “O barro fica de molho, antes, as pedras eram escolhidas e hoje enche-se o barreiro com água e deixa-se um dia de molho”, explica Marco Cadete.

Depois de ter estado de molho, no dia seguinte o barro é retirado do barreiro para o amassador, uns cilindros onde o barro é misturado e amassado. Antigamente era amassado à enxada e depois levado aos ombros para o local onde iria ser amassado. Hoje, o processo é menos duro e o barro é colocado no empilhador e descarregado no local onde vai ser moldado.

“Antigamente, quando se fazia tijoleira, havia dois empregados: um que fazia que fazia a tijoleira de joelhos e o outro que trazia o barro em baldes”, recorda Marco Cadete dizendo que hoje a modelação das matérias já é feita em cima de paletes para evitar a postura curva dos funcionários.

A Cerâmica Tejo já chegou a produzir 30 mil tijolos por semana. Hoje em dia, são produzidos cerca de 10 mil tijoos por mês Foto: mediotejo.net
A Cerâmica Tejo já chegou a produzir 30 mil tijolos por semana. Hoje em dia, são produzidos cerca de 10 mil tijolos por mês Foto: mediotejo.net

“Hoje temos as paletes para a pessoa estar numa posição normal mas ainda temos uma senhora que gosta de fazer a tijola dobrada”, refere Marco Cadete.

Após se ter dado forma ao tijolo e à tijoleira, estes vão demorar um dia ou dois a secar (porque estamos no verão!) e depois o material é encantilado, ou seja, empilham-se em pequenas colunas de modo a que o ar passe para assim secarem mais rapidamente.

A próxima etapa do processo, após estarem bem secos, é seguirem para o forno. A Cerâmica Tejo ainda tem dois fornos, mas só um está em funcionamento.

A entrada dos dois fornos onde é colocada a lenha. Atualmente, só um está em funcionamento Foto: mediotejo.net
A entrada dos dois fornos onde é colocada a lenha. Atualmente, só um está em funcionamento Foto: mediotejo.net

O forno é a lenha, uma lenha especial, têm de ser paus finos, normalmente paus de eucalipto, “que ardem com facilidade para o material não ficar negro”, explica Marco Cadete.

Lázinha Cadete recorda que, antigamente, o forno utilizada mato,” eram precisas muitas toneladas de mato para encher o forno (carqueja, estevas, etc)”. “Os carroceiros vinham com a junta de bois, andavam a semana interna a limpar mato e depois entregavam as carradas separadas pelas diferentes qualidades de mato. Nessa altura a floresta esta limpa”, relembra Lázinha Cadete.

Para acender aquele forno são necessárias cerca de seis toneladas de lenha para cada fornada e, por isso, “é um fabrico muito caro”, ressalva Marco Cadete.

Em cada fornada, que atualmente está a ser feita apenas uma vez por mês, são cozidos 7 mil tijolos e cerca de 3 mil tijoleiras, atingindo cerca de 20 mil kgs de peso.

A colocação do tijolo e da tijoleira no forno obedece a determinadas regras e a arte de saber quando o material está cozido também não é para todos, só para os que têm experiência: “quando a parte de baixo do forno fica branca, é sinal de que o material está cozido mas também quando faz uma cova é sinal de que houve uma redução e que está cozido”, refere Lázinha Cadete.

Tijolos a serem retirados do forno, depois de estarem arrefecidos Foto: mediotejo.net
Tijolos a serem retirados do forno, depois de estarem arrefecidos Foto: mediotejo.net

São cerca de sete horas a cozer. Depois de arrefecer, o material é retirado do forno.

A construção de fornos, seja para padarias ou para particulares, é uma das grandes utilizações deste tijolo burro que tem como grande característica suportar altas temperaturas por isso, atualmente, as padarias e os proprietários estrangeiros que estão a recuperar casas antigas são os principais nichos de mercado da Cerâmica Tejo.

Para o futuro, o principal objetivo da empresa é manter o negócio e não fechar. “Eu acho que isto tem viabilidade”, refere Marco Cadete lamentando, no entanto, a falta de apoio a empresas deste género que ainda mantêm uma forma de produção artesanal e dizendo que os empregados atuais estão quase na idade de reforma. E não têm ninguém que depois os possa substituir.

*Reportagem publicada em agosto de 2016, republicada em abril de 2019

5 COMENTÁRIOS

    • Cerâmica Tejo de Joaquim Lopes Cadete Lda
      Lugar do Casalão – Mouriscas
      2200-697 Mouriscas ( Abrantes)
      241871252
      932088471
      967001473
      927540962

  1. Olá boa tarde! Sr. Cadete precisava do contacto da cerãmica de Mouriscas tenho dois fornos que precisam de ser arrranjados e preciso dealgum material.
    Os meus sinceros cumprimentos.

    • Cerâmica Tejo de Joaquim Lopes Cadete Lda
      Lugar do Casalão – Mouriscas
      2200-697 Mouriscas ( Abrantes)
      241871252
      932088471
      967001473
      927540962

  2. Olá Sr.Cadete
    tenho uma pequena olaria e estou com problemas com a estrutura do forno.
    se for possível poderias mandar um projeto ou planta do forno.se preferir podemos negociar a planta estrutural do seu forno

    Certo que entrarás em contato. meus sinceros agradecimentos

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