“Mercado de Abrantes, duas ideias para dois edifícios”, por José Rafael Nascimento

O presidente da Câmara Municipal de Abrantes afirmou na sessão da Assembleia Municipal de 22 de Fevereiro de 2019, a propósito da exigência popular de não-demolição do antigo edifício do “Mercado Diário” (ou Municipal), que “se um dia houver um projecto verdadeiramente ‘à séria’, venha aqui para nós o discutirmos. Eu não sou nem a favor nem contra a demolição, neste momento. Quando tivermos um projecto capaz de dar respostas brutais – olha, um ‘Meo Arena’, para ali! – é trazer cá essa questão para ver se queremos ou não queremos. Neste momento, não queremos nem deixamos de querer. A seu tempo, falaremos sobre isso“. Estive presente nesta sessão e ouvi estas palavras, as quais, ao invés de me transmitirem optimismo e tranquilidade, perante um aparente recuo da autarquia na vontade obstinada de demolir o edifício histórico do Mercado, e de me darem confiança numa possível disponibilidade para soluções alternativas, deixaram-me com o sentimento negativo de quem acha que, em vez de abertura e sinceridade, há dubiedade e hipocrisia política, e que, em vez de se assumir a responsabilidade e procurar soluções, há vontade de “passar a bola a outros” e “empurrar com a barriga”.

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A jocosa sugestão de um “brutal Meo Arena”, ainda que metafórica, parece não ser politicamente séria e pode, até, ser interpretada como uma provocação gratuita a quem, cívica e democraticamente, questiona a decisão “demolidora” da autarquia (ver grupo informal no Facebook dos “Amigos do Mercado de Abrantes”). Acontece que sou optimista por natureza, e um “optimista por natureza” é resiliente perante a adversidade e recupera rapidamente a esperança na possibilidade de haver reconsiderações e desenlaces positivos, sobretudo no volátil domínio da coisa política. Assim, vou por um momento esquecer a birra “arrasadora” e pressupor que existe consciência histórica, visão estratégica, respeito democrático e humildade em reconhecer o erro da decisão. E, não querendo de maneira nenhuma que o desafio do autarca fique deserto, avanço aqui duas ideias para os dois edifícios do Mercado Municipal: 1- O edifício de onde nunca devia ter saído e para onde deve voltar, e 2 – O edifício onde actualmente está e para onde nunca deveria ter ido.

Fachada principal do edifício histórico do Mercado Municipal de Abrantes (antigo mercado coberto), condenado pela autarquia a uma inaceitável demolição (foto do autor).

O edifício para onde o Mercado Municipal deve voltar é aquele que deve ser requalificado e não demolido, o “mercado coberto” inaugurado em 1933 e valorizado arquitectonicamente em 1947 por uma das maiores referências do movimento modernista português, o arquitecto António Varela, o qual “conferiu uma expressão mais geométrica e abstracta a este pequeno equipamento público de província”. Na minha opinião, que julgo coincidir com a de muitos outros abrantinos com quem tenho falado, este edifício deve merecer uma intervenção imediata de conservação e manutenção (revertendo a chocante degradação a que está votado) e, por todas as forças políticas do concelho, deve ser proposto para património histórico e arquitectónico municipal, referência identitária e orgulho de todas as gerações vivas de abrantinos. E não nos venham com o argumento do PUA – Plano de Urbanização de Abrantes (OE3 – Nó do Mercado), pois não é o Mercado que tem de se sujeitar a uma decisão errada no papel, mas sim o PUA que tem de ter em conta um edifício histórico já existente fisicamente (sugiro a leitura da minha crónica “O Mercado precisa de amigos!”).

Para este edifício, intimamente relacionado com o nosso património histórico e natural, proponho a vocação de Mercado Tradicional e da Sustentabilidade. Creio que estas duas valências cobrem todo o leque de produtos, serviços, imagens e experiências que interessa ter num espaço destes, dos alimentos frescos (preferencialmente oriundos do pequeno produtor local e familiar, em circuitos curtos de comercialização) ao artesanato local (de material reaproveitado e reciclado); das plantas e flores decorativas (lembram-se de “Abrantes, cidade florida”?) à famosa doçaria tradicional e conventual; dos produtos biológicos, de saúde e bem-estar, aos trabalhos artísticos e aos eventos culturais e de lazer (inspirados nos temas da tradição e da sustentabilidade); das soluções técnico-económicas (agrárias, imobiliárias e outras) ambientalmente sustentáveis às respostas sociais e assistenciais, humanamente dignas e realizadoras; e das expressões criativas e inventivas aos impulsos inovadores e empreendedores, capazes de gerar novos negócios e investimentos. Este Mercado seria, nesta óptica, um espaço de valorização de recordações e aspirações, tal como de costumes e transformações, onde o passado e o futuro convivessem em saudável compromisso e harmonia.

Fachada lateral do edifício onde nasceu o Mercado Municipal de Abrantes, hoje deixado ao abandono e degradação (foto do autor).

Complementarmente, funcionaria também uma área de esplanada, onde o convívio e a partilha reforçariam o mix de valências deste espaço comercial, social e cultural. Ou seja, o Mercado voltaria a ser o que sempre foi, um ponto de peregrinação e encontro ritual dos abrantinos (residentes e deslocados), em busca de socialização e de interacções de natureza diversa, a par da compra por impulso ou conveniência dos produtos frescos e artesanais expostos no Mercado. Em meu entender, esta vocação de Mercado Tradicional e da Sustentabilidade teria suficiente capacidade de atracção e fidelização de residentes e visitantes, incluindo turistas em demanda de referências históricas e especificidades locais, únicas, exaltantes e diferenciadas. Todavia, é necessário definir um ousado plano de marketing, um arrojado projecto de design de interiores e uma habilidosa requalificação a nível de arquitectura e engenharia, abrangendo todos os pisos e salvaguardando a traça e as fachadas originais, existindo fundos europeus disponíveis, no âmbito do FEADER, para co-financiar projectos de modernização dos Mercados locais.

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O outro edifício, para onde o Mercado se mudou há quatro anos – contra a vontade de clientes e vendedores – e que não oferece condições apropriadas de circulação (nunca se viu um mercado em quatro pisos!), designadamente para pessoas mais idosas e com dificuldades de locomoção, proponho a vocação para Fórum da Diversidade Social (assumindo que o Parque Tejo, no Rossio, já é vocacionado para o tema da Biodiversidade) um espaço onde se celebre a vida humana e a sua rica diversidade – geracional, de género, geográfica e cultural –, a qual deve ser vista como uma oportunidade a valorizar. Assim, neste espaço funcionariam exposições, oficinas, debates e encontros de jovens, mulheres e seniores (só para referir segmentos da população com discriminação positiva), bem como de imigrantes e emigrantes, tendo as actividades um carácter universalista, designadamente nas vertentes social, artística e cultural. Complementarmente, seriam aqui oferecidos serviços de aconselhamento aos referidos imigrantes e emigrantes, estes relacionados com assuntos da diáspora (incluindo remessas e investimentos) e aqueles com aspectos de residência e integração local (sugiro a leitura da minha crónica “Por um Município aberto ao Mundo”).

Entrada principal do edifício onde está inapropriadamente instalado o Mercado Municipal de Abrantes / ARX Portugal (foto de Fernando Guerra – FG+SG).

No que respeita aos jovens (nas suas diversas identidades grupais) e aos mais idosos (nos seus diferentes percursos de vida e memórias), o Fórum da Diversidade Social constituiria um território de pertença e valorização, um referencial educativo e de reflexão filosófica, e uma oportunidade de expressão e criação multifacetadas. Para todos os públicos, na amálgama sociológica e antropológica que os caracterizam, este Fórum funcionaria como um espaço cosmopolita de intercâmbio e partilha de diferentes experiências, visões e sensibilidades, assim como de mútuo conhecimento e compreensão, enriquecendo deste modo a comunidade abrantina e reforçando a sua coesão e harmonia social. Em suma, o que proponho é a utilização de dois equipamentos públicos já existentes – o antigo e o actual edifício do Mercado – para duas finalidades que estão alinhadas com as prioridades do nosso tempo e que podem contribuir para colocar Abrantes no mapa da inovação e do desenvolvimento social e ambiental, atraindo a atenção de públicos nacionais e internacionais que interessa ter como visitantes, parceiros e, até, novos habitantes.

Projecto em corte do actual edifício do Mercado Municipal de Abrantes / ARX Portugal (foto de Fernando Guerra – FG+SG)

Abrantes é, lamentavelmente, um concelho em acelerada quebra demográfica, com a economia estagnada há vários anos e a perder referências históricas e identitárias. Este círculo vicioso constitui uma “bola de neve” que tende a acelerar a tendência de declínio e irrelevância regional e nacional. Importa romper com este fado, invertendo o rumo que tem sido seguido. Para tal, é preciso (re)pensar Abrantes no seu conjunto, projectando ideias inovadoras, coerentes e estruturantes, para todo o território (p.e. residências assistidas para idosos em S. Facundo e Vale das Mós, startups criativas e tecnológicas no centro histórico do Rossio ao Sul do Tejo, parques de diversões e aventuras em freguesias periféricas, etc.), mas também protegendo e valorizando o seu património histórico e identitário. O Mercado Municipal constitui um ex-libris deste património e tem necessariamente de fazer parte do plano estratégico e de marketing do município, não podendo ser dispensado e muito menos arrasado. Ao contrário, se bem aproveitado, pode contribuir para a recuperação e o desenvolvimento de Abrantes, reanimando e motivando as gentes locais e atraindo turistas e novos residentes.

O Mercado Municipal, não só deve ver preservado o seu edifício histórico, como deve mesmo regressar a ele, isto é, para de onde jamais deveria ter saído. Cabe à autarquia perceber a oportunidade que, juntos, constituem o Mercado e o seu edifício icónico, encontrando (com os utilizadores e a comunidade) as soluções políticas, técnicas e financeiras que, por um lado, viabilizem a requalificação do antigo edifício e, por outro lado, encontrem uma nova vocação para o actual. Mário Soares lembrou um dia que “só os burros não mudam”, provérbio popular que teve melhor sorte do que a afirmação – tão célebre quanto infeliz – de um seu sucessor “nunca me engano e raramente tenho dúvidas”. É tempo de pôr termo a esta triste sucessão de opções erradas e de oferecer ao nosso Mercado Municipal uma nova oportunidade. A relação dos abrantinos com o seu “velho” Mercado tem a beleza e a devoção de um amor maduro e, como todas as belas histórias de amor, deseja-se que tenha um final feliz.

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