“Memórias da minha aldeia-presépio”, por José Martinho Gaspar

Sempre guardei recordações muito especiais da aldeia onde nasci, como qualquer passarito tem boas lembranças do vale onde começou a voar. Porém, só terei percebido o quanto aquele lugar é sugestivo para alguém que com ele contacta quando, há cerca de duas dezenas de anos, li uma crónica de jornal escrita por alguém exterior à pequena localidade em que a mesma era apelidava de aldeia-presépio. Nasci em Água das Casas, no norte do concelho de Abrantes e não me refiro à minha naturalidade, mas ao local do meu nascimento de facto. Há cinco décadas nascia-se nas nossas aldeias.

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Os textos que de quando em vez aqui trago resultam de questões que coloco a documentos primários ou secundários. Desta vez, a fonte primária sou eu próprio, que durante tantos anos integrei aquele presépio vivo que é Água das Casas.

O Natal é a comemoração do nascimento de Cristo, que veio salvar os homens. As celebrações natalícias foram, ao longo dos tempos, momentos especiais para que a humanidade se tornasse mais forte, mais amiga e mais capaz ao enfrentar as dificuldades quotidianas. A árvore de Natal é o pinheiro, aquela que melhor resiste às agruras do inverno sem perder as suas humildes folhas, e nos países do norte da Europa os homens começaram a enfeitá-la com os frutos coloridos, como as maçãs, também elas resistentes e brilhantes, alimentos de esperança. No hemisfério norte, o frio do Natal convida ainda à festa da família, ao convívio à lareira, aos fritos quentes.

Ainda antes da noite mágica, íamos ao musgo e com ele construíamos o presépio. O Menino, a Mãe e S. José eram de barro pintado, comprados num qualquer mercado ou numa feira, enquanto as demais figuras eram obra nossa, feitas em papel ou cartão, muitas das vezes empreitada de cartolina em trabalhos de Escola Primária. Pastores, ovelhas, burro e vaca, cisnes, reis magos, anjinhos e outras figuras que a nossa imaginação trouxesse à liça, dispunham-se sobre caminhos de serradura, a caminho da manjedoura, onde o Menino era encimado por estrela brilhante que a todos guiava. Só mais tarde apareceram árvores enfeitadas com fitas e bolas brilhantes, sinais provenientes de outras latitudes.

Os reis magos eram muito diferentes entre si, na idade e na cor da pele. Sei agora que em certas regiões do Oriente “mago” significa sábio ou erudito. Foram, pois, três os sábios que chegaram a Belém, alguns dias depois de Jesus ter nascido, seguindo uma estrela. Belchior representou as gentes da Europa, Gaspar fez-se presente em nome dos asiáticos, já Baltasar veio em representação dos povos africanos. O ouro oferecido por Belchior queria reconhecer a nobreza de Jesus, o incenso de Gaspar representava o seu  lado divino, enquanto a mirra de Baltasar, usada em cerimónias fúnebres, simbolizava a mortalidade do Messias.

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O presépio foi, século atrás de século, a representação pública do Natal no mundo ocidental. Concebidos por ordens religiosas, por populares, que faziam questão em colocar os mais necessitados, como eram os pastores, junto do Menino, ou por artistas reconhecidos, são manifestações capazes de nos ajudar a interpretar as transformações sociais e, muito particularmente, a vivência da religiosidade. Machado de Castro foi, no século XVIII, um autor que ficou especialmente conhecido pelos seus presépios. A Diocese de Portalegre e Castelo Branco possui uma coleção de presépios de mais de mil exemplares, que é um bom espelho da diversidade destas obras.

Em Água das Casas, depois das couves com bacalhau e de uma filhó, o Natal dos homens fazia-se na rua (e ainda se faz), junto ao largo de um chafariz, em torno de uma grande fogueira, de adega em adega, a cantar o “Meu Menino Jesus”.

Começava assim: “Alegrem-se os Céus e a Terra / Cantemos com alegria / Já nasceu o Deus Menino / Filho da Virgem Maria […]”. Na minha aldeia, a família, que éramos todos, tinha nessa altura quase duas centenas de pessoas e este sentido de comunidade era a resposta dada às dificuldades do quotidiano.

Chegada a meia-noite, lançavam-se foguetes e os caçadores muniam-se das suas espingardas a disparar para o ar. E quando me recordo disto, lembro-me sempre do meu Tio Zé Litas, homem de caçadas e cantigas, que é agora uma estrela no firmamento, a disparar os seus tiros em que usava papel de jornal no lugar das buchas, o qual, desta maneira, proporcionou um espetáculo de confetis como nunca antes tínhamos visto.

Quando o céu se apresentava limpo o entusiasmo era ainda maior, pois acreditava-se que tal facto garantiria o seguinte como ano de boa safra de azeitona.

Quem tinha transporte ia à Missa do Galo, que não vinha às aldeias e se ficava pelas igrejas paroquiais. Trata-se da missa celebrada na véspera de Natal, que começa à meia-noite do dia 24 para o dia 25 de dezembro. A expressão “Missa do Galo” é específica dos países latinos e deriva da lenda ancestral segundo a qual à meia-noite desse longínquo 24 de dezembro um galo teria cantado fortemente, como nunca ouvido de outro animal semelhante, anunciando a vinda do Messias. A maioria ia à missa apenas na manhã de Natal, normalmente enregelada por um manto branco de geada, e no final da cerimónia beijava-se a respeitável escultura de porcelana.

Na “noite do caramelo”, como dizia a cantiga, as meias ficavam ao fumeiro e o Menino Jesus trazia-nos o “pé de meia”, capaz de fazer face a uma necessidade à muito sentida. Ao contrário dos dias que correm, nesse tempo uma peça de roupa confortável era um ótimo presente. O Pai Natal ainda não tinha feito a sua aparição por estas bandas… (apesar de parecer idoso, o Pai Natal que agora conhecemos tem cerca de oitenta anos e é criação de uma marca americana de refrigerantes, adivinhem qual!…).

A propósito do Natal, contaram-me recentemente uma história. Um rapaz recebeu de presente uma bicicleta e um seu amigo uma caixinha com excrementos de cavalo. O primeiro começou a lamentar-se, que cairia da bicicleta, partiria uma perna… e perguntou ao amigo o que recebera. Este respondeu: “Um cavalo, mas ainda não sei onde está!”

 

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