Médio Tejo | Ourém é o caso de maior sucesso no acolhimento de refugiados

Milhares de pessoas continuam em trânsito pelas fronteiras da Europa, à espera de serem integradas. Foto: DR

A entrega dos técnicos envolvidos e a capacidade de adaptar os programas previamente delineados parece ser o segredo do concelho de Ourém, que a nível regional se destaca no número de refugiados que já acolheu e tem ajudado a integrar. No Médio Tejo é a única autarquia que se mantém a receber famílias em fuga da pobreza extrema e da guerra, depois da suspensão dos programas noutros municípios, desiludidos com a partida súbita da maioria dos refugiados que iriam apoiar.

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Algumas dezenas de refugiados têm chegado ao nosso território desde 2016, quer via protocolos com as Câmaras Municipais, quer via instituições ao abrigo do programa PAR – Plataforma de Apoio aos Refugiados. Mas muitos também partiram para outras paragens, o que levou municípios como Alcanena e Torres Novas a suspenderem os seus programas de acolhimento. Nestes dois territórios em específico, quase logo à chegada ou poucos meses depois, todos rumaram a outras paragens.

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Recebida a 25 de janeiro de 2017 em Alcanena, a família Haj Hasan ficou pouco tempo no concelho, tendo partido para a Alemanha. FOTO: mediotejo.net

Também na Sertã, os dois refugiados acolhidos pelo município encontraram emprego fora do concelho antes do programa terminar, não prevendo esta Câmara Municipal receber mais pessoas no futuro próximo.

Não há informação pública sobre casos em concreto, mas a maioria dos migrantes tem manifestado vontade em juntar-se a familiares, noutros países da Europa, e acabam por fazê-lo assim que reunem as condições mínimas.

No Médio Tejo, apenas Ourém prevê acolher mais famílias em fuga da pobreza extrema e da guerra que aniquila todos os sonhos de futuro, em países como o Iémen, Etiópia, Eritreia, Iraque ou Síria. Este esforço dos serviços municipais foi dado a conhecer dia 25 de outubro a alunos de serviço social e educação social na Escola Superior de Educação e Ciências Sociais de Leiria. Numa conferência da AIDGLOBAL sobre projetos de integração de mulheres migrantes, o município de Ourém deu a conhecer Teodora, uma refugiada da Eritreia que chegou em abril via Itália e que trabalha atualmente num hotel, como empregada.

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Teodora é licenciada em Química e estava em Itália a realizar uma pós-graduação quando pediu asilo político. “Estou feliz por estar em Portugal”, confessou à plateia, referindo que o seu objetivo é prosseguir os estudos. Teodora explicou aos estudantes que o apoio à integração é necessário, uma vez que os refugiados estão a recomeçar uma vida nova num contexto completamente diferente do que conheciam. As crenças religiosas, nomeadamente no que toca à comida, e a língua, são os maiores obstáculos.

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Teodora chegou em abril e é natural da Eritreia. Ainda não sabe falar português, mas já está a trabalhar Foto: mediotejo.net

“Como todos os outros, temos sonhos. Muitos de nós vêm com traumas. Muitos nem acabaram os estudos, outros querem abrir negócios. Muitos nem nunca tinham ouvido falar em Portugal e só conheciam os países grandes”, constatou, comunicando em inglês, apresentando assim um pouco da sua experiência.

Com 17 refugiados acolhidos ao abrigo do protocolo do município de Ourém com o Conselho Português para os Refugiados (CPR), não contando os que chegaram via o PAR e outras entidades, Ourém é o caso de maior sucesso em acolhimento na região. À semelhança do que aconteceu nos municípios vizinhos, também houve desistências entre os primeiros refugiados acolhidos, mas os serviços municipais não quiseram fechar a porta e adaptaram-se à realidade, conforme explicou o psicólogo municipal, António Castanheira.

Os refugiados que chegam a Portugal são entrevistados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), sendo que ao longo dos primeiros meses e de um intrincado processo burocrático recebem ou o estatuto de refugiado (com prazo de cinco anos) ou de residência provisória (com prazo de três anos)

A nível nacional há várias instituições que realizam acolhimento, nomeadamente o Serviço Jesuíta aos Refugiados, o CPR (com o qual trabalham os municípios), a Cruz Vermelha, o PAR e a União das Misericórdias. António Castanheira frisou que, no âmbito do acolhimento, há muita coisa que se diz que foge à verdade, destacando que a receção de pessoas é, em grande medida, aleatória.

Os refugiados que chegam a Portugal são entrevistados pelo Serviço de Estrangeiros e Fronteiras (SEF), sendo que ao longo dos primeiros meses e de um intrincado processo burocrático recebem ou o estatuto de refugiado (com prazo de cinco anos) ou de residência provisória (com prazo de três anos, onde se encontram os refugiados da Síria e do Iraque). O contrato de acolhimento com o CPR é de 18 meses e o apoio pecuniário é de 150 euros por adulto e 100 euros por criança. Têm ainda apoio no alojamento, apoio jurídico, de integração e tradução e apoio à procura de emprego.

“A política de acolhimento foi feita para pequenas/médias cidades”, explicou António Castanheira, referindo o objetivo de não se criarem guetos culturais. O município de Ourém tenta fazer um acompanhamento muito próximo das famílias, por forma a facilitar a integração. Os técnicos acabam assim por conhecer as suas histórias e podem também ajudar de forma diferente, explica o responsável, partilhando o caso de uma refugiada que chegou mal de saúde e, veio-se a descobrir, estava grávida. O bebé, entretanto, já nasceu.

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Integrando a equipa que faz o acompanhamento do acolhimento a refugiados, António Castanheira realçou o trabalho de proximidade Foto: mediotejo.net

Em 2016, quando se iniciou o processo de acolhimento de refugiados, “as nossas estruturas não estavam preparadas”, admitiu o técnico, focando serviços como a segurança social, as finanças, a saúde ou os bancos, que exigiam documentação que estas pessoas não possuíam. “Foi uma integração difícil, mas tudo foi ultrapassado”, afiança.

Dos 17 refugiados recebidos, 15 encontram-se ainda em processo de acolhimento (três famílias e sete casos isolados, mais o bebé nascido em Portugal). Oito adultos estão empregados e três desempregados, encontrando-se as crianças na escola. No concelho de Ourém, frisou António Castanheira, o emprego é tido como necessidade prioritária, mesmo antes dos refugiados aprenderem a língua. O responsável explicou que foi necessário ir ao encontro das entidades empresariais para conseguir garantir emprego a estas pessoas, uma vez que rapidamente se aperceberam que seria difícil para elas encontrar trabalho.

Ao que o mediotejo.net conseguiu apurar, encontram-se ainda no concelho de Ourém refugiados acolhidos pelo Santuário de Fátima e pela Província Portuguesa das Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. Também a família acolhida em 2016 pela Fundação Maria Dias Ferreira, em Ferreira do Zêzere, está integrada e a trabalhar na localidade.

Portugal vai receber este mês de novembro cerca de 150 refugiados que estão no Egito, naquele que será o primeiro grupo de mais de mil pessoas que vão ser reinstaladas em Portugal até 2019.

2 COMENTÁRIOS

  1. Quem os recebe tão efusivamente devia levá-los para suas casas pois o povo não quer cá esta gente que não acrescenta nada de bom à vida de quem paga impostos.

  2. É isso mesmo João Gonçalves. Já com os portugueses que iam para França ilegalmente nos anos 60/70 foi igual, escória da pior espécie que foram para lá para viver à custa do sistema social do país.

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